O mangue está de volta - Revista Esquinas

O mangue está de volta

Por Giovanna Forcioni, Isabella Molinari, Teresa Lazarini, Natália Pinheiro e Sabryna Monteiro : setembro 11, 2019

Vinte cinco anos depois do lançamento do álbum Da Lama ao Caos, da Nação Zumbi, artistas retomam a estética do manguebeat e apostam em produções que dialogam com as raízes do movimento

O ano era 1996. No auge de seus 12 anos de idade, Pedro se preparava para ver de perto um dos maiores shows a que já assistira até então. Em poucos minutos, Os Paralamas do Sucesso subiriam ao palco e levariam o Rio de Janeiro abaixo com Meu Erro e Lanterna dos Afogados. “Quase um marco”, como o jovem diria. A apresentação começa e o sotaque fluminense dos Paralamas passa a competir com um jeito nordestino de falar: mais manso, com menos pressa e com uma ênfase maior nos “is”. Gostassem ou não, a plateia sabia quem era a figura por trás daquela voz. O chapéu de palha e a camisa larga o entregavam: fazia alguns anos que Chico Science não saía das paradas de sucesso Brasil afora. Misturando batidas cadenciadas do maracatu com a sonoridade áspera das guitarras elétricas, o pernambucano levou o novo som do Recife para o mundo e, mais do que isso, ao lado dos meninos da Nação Zumbi, deu vida a um movimento cultural que há tempos não se via no País.

Gilberto Gil e Chico Science em show Abril pro Rock, em 1996
Reprodução

Seria improvável imaginar um nordestino de estilo bonachão participando de show de banda de rock. Não foi à toa que Chico conseguiu. O Recife fervilhava no começo da década de 1990, e os artistas trabalhavam para resgatar o prestígio da cultura pernambucana. Era preciso se inspirar, literalmente, nas raízes sobre as quais a cidade se construiu. Foi aí que, em 1992, com a publicação de um manifesto escrito pelo músico e jornalista Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, nasceu o manguebeat. O nome vem de “mangue”, vegetação típica da região, e “beat”, para representar as batidas e as influências musicais que o movimento abraçaria a partir dali. Era a hora e a vez de os caranguejos – aos quais os músicos recifenses gostavam de se comparar – mostrarem as caras.

Do mangue aos palcos

O ano é 2019. Pedro, o menino do show dos Paralamas, agora é o dramaturgo Pedro Kosovski, da Aquela Cia. de Teatro. Em pouco mais de 20 anos, ele acumulou uma graduação em Teatro e um mestrado em Psicologia, somou mais de dez peças no currículo e nunca se esqueceu do que viu e viveu naquele show de 1996. “O Chico Science sempre foi uma referência na minha juventude e na minha formação. O manguebeat foi o grande acontecimento cultural dos anos 1990. Desde a Tropicália não se via algo tão significativo do ponto de vista da cultura comportamental”, afirma no auge de seus 35 anos.

O tempo passou, mas as referências ficaram. Quando, em 2015, um parceiro de cena lhe apresentou Homens e Caranguejos, obra do geógrafo e escritor Josué de Castro, as memórias vieram à tona. Ao lado dos colegas de companhia, Kosovski começou a escrever o que viria a ser Caranguejo Overdrive, peça ganhadora de prêmios Shell e da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro. A narrativa conta a história de um catador de caranguejos carioca que é convocado para a Guerra do Paraguai e, ao voltar para casa, não consegue se reconhecer no ambiente onde vivia. A ideia era levar aos palcos referências do movimento manguebeat – seja na trilha sonora, na estética ou na metáfora com a figura do caranguejo construída ao longo da encenação. Ao que parece, deu certo: o espetáculo continua rodando o Brasil em apresentações pontuais.

Pedro Kosovski é apenas um exemplo entre um grupo de artistas que vem retomando o diálogo com as referências do manguebeat e jogando luz sobre uma estética que parecia já ter sido superada.

Foi também uma obra literária que inspirou Cão sem Plumas, espetáculo da coreógrafa carioca Deborah Colker. No palco, os bailarinos se cobrem de lama e se movimentam para lá e para cá em passos que imitam o andar de caranguejos, o tal “bicho-homem”, conceito base de toda a dança. Enquanto isso, fotos são projetadas sobre o corpo dos artistas. Quando a pergunta é o que motivou a feitura do espetáculo, de novo, aparecem os nomes de Josué de Castro e Chico Science. O segredo, segundo Colker, é mesclar o regional e o universal, a tradição e a tecnologia, assim como o manguebeat fazia. “Cabe a elegância do clássico, a lama das raízes e o olhar contemporâneo. O nome disso é João Cabral [de Melo Neto]”, diz ela, em referência ao poema do autor que leva o mesmo nome do espetáculo.

Caranguejos com cérebro

O ciclo de vida do caranguejo permite que o crustáceo faça a troca de sua “casca”, seu exoesqueleto, ao longo dos anos. Os artistas do mangue também sentiam a necessidade de saírem da caixa cultural que a cidade nordestina se encontrava. Era a hora do Recife renascer.

Considerada a quarta pior cidade do mundo nos anos 1990, o manguebeat deu autoestima aos pernambucanos de Recife e sua produção musical. “Foi só com a repercussão dos shows de Chico Science com a Nação Zumbi e as primeiras edições do Abril pro Rock [festival responsável por revelar nomes de artistas independentes locais, do restante do País e do exterior] que a cena local tomou mais coragem para mostrar a cara da música que fazia, dos quais alguns tinham efetivamente uma forte ligação e pesquisa com os ritmos afro-brasileiros e pernambucanos”, afirma Jarmeson Lima, produtor musical e cofundador do festival de música independente No Ar Coquetel Molotov.

Com a energia de Chico Science & Nação Zumbi, a cena musical de Recife ganhou ânimo nos anos 1990
Divulgação

O maracatu e suas alfaias se misturaram com as batidas do hip-hop, as guitarras do rock, elementos eletrônicos e o sotaque recifense de Chico Science. A busca pelo novo rendeu uma perspectiva diferente do Brasil ao olhar para o Recife. A cidade deixou de ser o lugar apenas do frevo e do carnaval, transformando-se na ebulição musical que continua a acontecer mesmo após os 25 anos do lançamento do primeiro disco da Nação Zumbi, Da Lama ao Caos. Lima, que acompanha a cena musical da cidade, percebe esse processo. “O manguebeat ajudou a mostrar novas bandas e projetar a cena local do Recife para lugares onde antes não alcançava”, diz. “Grupos e artistas de uma segunda geração mangue como Mombojó, Cordel do Fogo Encantado e Bonsucesso Samba Clube se beneficiaram e consolidaram suas carreiras através deste legado.”

A Manguetown, a metrópole do Nordeste, recebeu seu choque elétrico – como é sugerido no manifesto – e ganhou projeção nacional e internacional: em 1996, Chico Science e a Nação Zumbi fizeram shows pela Europa. Por aqui, as fronteiras se expandiram e o eixo Rio-São Paulo olhou para cima. Até mesmo os grandes veículos de imprensa, como Folha de S.Paulo e O Globo, dedicaram matérias em seus cadernos de cultura.

“O olhar do público e a crítica desviaram um pouco do eixo Rio-São Paulo para o Recife e, posteriormente, para Belém e Salvador. Mas nenhum desses movimentos culturais promoveram uma ruptura no mercado”, reflete Jarmeson Lima. Por outro lado, o abraço que o manguebeat dá na multiculturalidade e na natureza de sua estética simbólica permite explorar de diferentes maneiras o caminho da palavra em seus versos.

Letras que renderam livros

O movimento que transformou Pernambuco em um pólo cultural nacional e internacional não poderia desviar do caminho da literatura.  Os livros, artigos acadêmicos e teses já publicadas sobre o assunto contemplam tanto a história do movimento cultural como também a sua relevância no cenário político e social do Brasil no período. Os lançamentos mais recentes da literatura que abordam o manguebeat só reforçam o fato de que ainda há muito para se debruçar sobre o último movimento brasileiro de grande alcance e força.

José Teles, jornalista e autor do livro digital Da Lama ao Caos: que som é esse que vem de Pernambuco, lançado em abril deste ano, é apenas um dos exemplos de pessoas que estão se dedicando a escrever sobre o tema. Na obra, Teles explora minuciosamente a história do disco de Chico Science e da Nação Zumbi, que se tornou anos depois o marco de um dos principais movimentos musicais brasileiros recentes. O assunto não era novidade para o autor: ele também escreveu uma biografia de Chico e narrou a trajetória da música popular em Pernambuco no livro Do Frevo ao Manguebeat. O novo trabalho é o primeiro do projeto Discos da Música Brasileira (Edições Sesc São Paulo), idealizado pelo crítico musical Lauro Lisboa Garcia.

Da Lama ao Caos: que som é esse que vem de Pernambuco, livro digital de José Teles
Divulgação

Com título inspirado no primeiro verso da letra da música Panis et Circenses (1968), de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o livro Canções Iluminadas de Sol começou a ganhar forma durante o mestrado do crítico musical Carlos Gomes. Na obra do ano passado, o autor discorre sobre os contextos políticos, sociais e culturais do manguebeat e do Tropicalismo, fazendo um paralelo entre os dois movimentos. Apesar dos contextos culturais e sociais serem distintos, o autor buscou explorar o desejo de ruptura presente neles como forma de ampliar as discussões sobre seus impactos.

Além das duas obras mais recentes, outros jornalistas, escritores e pesquisadores também olharam para o manguebeat como objeto principal para suas pesquisas e livros. Lucas Reginato e Júlia Bezerra, ambos jornalistas, escreveram Manguebeat: guitarras e alfaias da lama do Recife para o mundo (Panda Books, 2017), lançado 20 anos após a morte de Chico Science em um acidente de carro.

O mangue na imagem

Para além das expressões musical, literária e artística, o movimento manguebeat estendeu-se nas telas do cinema nacional e da televisão ao longo dos anos 2000. Nomes como Hilton Lacerda e Hélder Aragão, Denis Feijão, Zé Eduardo Miglioli e Cláudio Barroso foram alguns entre os responsáveis por produções audiovisuais que resgatam a história do movimento.

No início de 2018, foi lançada a série nacional Lama dos Dias, transmitida pelo Canal Brasil, que faz referência à época fervilhante do nascimento do manguebeat e da reestruturação do cenário cultural de Recife. Hélder Aragão, popularmente chamado de DJ Dolores, foi nomeado pela imprensa da época como um dos principais idealizadores e semeadores do movimento e atuou como codiretor e roteirista na obra ao lado de Hilton Lacerda, com quem formou a dupla Dolores e Morales.

Lama dos Dias, série nacional que estreou no Canal Brasil em 2018
Divulgação

Outro exemplo de expressão audiovisual do manguebeat é o documentário Chico Science: um caranguejo elétrico, produzido por Ricardo Carvalho e com direção de José Eduardo Miglioli. Enaltecendo a figura do ex-líder da Nação Zumbi por um viés mais musical do que narrativo, o longa que foi lançado há três anos foi dos destaques do MIMO Festival 2016, um dos maiores eventos gratuitos de música da América do Sul.

Ainda em fase de pré-produção, outra grande aposta para os próximos anos será a cinebiografia de Chico Science, Mangueboy. O produtor do longa, Denis Feijão, garantiu direitos obtidos junto à filha do ídolo, Louise Taynã, que está contribuindo para a produção do filme. Em entrevista exclusiva para O Globo, o produtor comenta sobre sua maior inspiração: o sucesso Bohemian Rhapsody, cinebiografia de Freddie Mercury e a banda Queen lançada no final de 2018. “A tendência é buscar uma linguagem moderna, que seja acessível, como a do filme do Queen”, disse ao jornal. Como diria Feijão, o cenário cultural precisa disso: comunicar-se com o público, o que o manguebeat soube – e continua sabendo – fazer muito bem.