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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Marcela Palhão Edição #60

O poder da mente

“Você precisa se conhecer primeiro para encontrar a entidade superior que rege o Universo”. Lucia Winther, diretora da editora Ponte do Brasil, responsável pela tradução dos livros cientólogos no país, explica o que prega a religião criada por L. Ron Hubbard, em 1952. Cercada por polêmicas e frequentada por artistas hollywoodianos, a Cientologia procura melhorar o relacionamento das pessoas com o universo físico e espiritual, além de ajudar na superação de momentos traumáticos e a desvendar os mistérios da mente.

Criador e criatura. Lafayette Ron Hubbard é a cabeça por trás da Cientologia. Filho de um oficial da Marinha dos Estados Unidos teve a oportunidade de viajar o mundo e conhecer pessoas de outras nacionalidades, o que aguçou a sua curiosidade pela mente humana. Incentivado pelos pais a cursar engenharia, Hubbard frequentava algumas aulas de psicologia na Universidade George Washington, sempre indagando quais eram os avanços nos estudos do comportamento humano. Nesta época, ele começou a escrever para se sustentar, tendo diversos livros de ficção científica publicados, o mais conhecido, Battlefield Earth, a Saga of the Year 3000, ganhou uma adaptação para os cinemas em 2000, estrelado por John Travolta, hoje fiel cientólogo. Ao perceber que conseguia escrever e agradar o público, LRH, como é chamado pelos seguidores da Cientologia, decidiu juntar duas paixões e lançou o livro Dianética, O poder da mente sobre o corpo, em 1950, que se tornou um best-seller com 20 milhões de exemplares vendidos e foi traduzido para 50 línguas.

Segundo esse livro, a mente grava todos os acontecimentos traumáticos no que Hubbard chamou de “mente reativa”, uma parte do cérebro que age abaixo do nível da consciência, fazendo com que as sensações daqueles momentos se tornem como um botão de liga e desliga para emoções ali vividas. Uma pessoa descobre, em um dia chuvoso, que seu cachorro fugiu, por exemplo. Dali em diante, as emoções serão reavivadas sempre que a pessoa entrar em contato com a chuva, mesmo que inconscientemente. Hubbard inventou uma técnica chamada de “audições”, que permite à pessoa descobrir que momentos gravados em sua mente reativa faziam com que ela tivesse sentimentos negativos. As audições funcionam como uma sessão de psicoterapia em que ministros, cientólogos mais graduados, ajudam os fiéis a se conhecerem e desligarem de sensações negativas,  mas o que Hubbard não esperava é que levassem pessoas a visitar vidas passadas: “Não é regressão, porque não envolve nenhum tipo de hipnose ou perda de sentido, mas o indivíduo consegue retornar a incidentes de outras vidas e entender porque eles têm peso na sua experiência atual”, explica Lucia Winther.

De acordo com ela, quando as técnicas de Hubbard deixaram de envolver apenas a mente e passaram a lidar com o espírito das pessoas, ele decidiu que era a hora de criar uma religião, a chamada Cientologia. “Dianética foi criada para sabermos como a mente funciona, já a Scientology estuda e trata do espírito em relação a si mesmo, o universo e outras formas de vida”.

A Cientologia é baseada em estudos das obras deixada por Hubbard, que escreveu mais de 90 livros sobre o tema antes de morrer, em 1986, com 74 anos, e a prática das audições. O objetivo é que um fiel consiga desligar totalmente sua mente reativa e atinja o estágio Clear, em que tenha total conhecimento de si mesmo e de seus sentimentos.

Lucia Winther afirma que a Cientologia crê que o espírito vai trocando de corpo até atingir o nível em que não precisa de um corpo para existir. “Se você morresse agora, o seu espírito deveria ir até uma maternidade e encontrar outro corpo. Um espírito só existe sem um corpo quando ele não precisa mais de um para existir”. L. Ron Hubbard é o único espírito que atingiu esse estágio.

O dia em que me tornei cientóloga

Para conhecer e ter uma experiência mais próxima do que é ser cientólogo, decidi participar da iniciação, que é a porta de entrada da Cientologia. Fui até a única igreja que existe no Brasil, localizada depois da estação Carrão do metrô, em São Paulo,  em uma pequena casa geminada de fachada bege. Nenhuma placa indicava que a igreja era ali, mas bem perto das grades do portão, dentro da sala,  é possível ver um quadro com uma foto do L. Ron Hubbard, sorridente, em tamanho real. Após tocar a campainha, fui recebida por uma simpática senhora chamada Diva, responsável pelo lugar e cientóloga há 12 anos. “Eu me tornei outra pessoa depois de conhecer a religião, sei me comunicar melhor e me conheço melhor. Eu estava desesperada atrás de alguma coisa que fizesse sentido para mim e quando conheci a Cientologia, me achei”.

Preenchi uma ficha com meus dados pessoais e fui submetida ao chamado Teste de Personalidade, 200 perguntas a que deveria responder com Sim, Não ou Talvez/Não Entendi. Entre questões comuns como “você se sente ansiosa facilmente?” e “acha fácil expressar emoções?”, havia perguntas que me deixaram curiosa para saber que conclusão eles teriam de mim, como “você se opõe ao sistema de liberdade condicional para criminosos?” e “você come rápido?”.

Depois que devolvi o teste preenchido, Diva passou minhas respostas para um computador, gerou um gráfico, que apresentava meus pontos positivos e negativos. Fui levada a uma sala para ter uma longa conversa com ela sobre minha vida e meu comportamento. Segundo a cientóloga, apresentava sinais de estar, naquele momento, dispersa e triste, de ser teimosa, ter iniciativa e guardar meus sentimentos. “Se você decidir estudar a Dianética e a Cientologia, o primeiro passo é largar remédios psiquiátricos, caso você tome, porque eles te deixam inconsciente para tomar decisões ou gravar acontecimentos. De qualquer maneira, eles não fazem falta, porque aqui nós conseguimos curar essas doenças com as audições”, avisou Diva.

Após duas horas de conversa e de ter contado sobre minha vida e ela ter constatado quais acontecimentos marcaram meus familiares e se tornaram minhas heranças sentimentais, que poderiam ser as responsáveis pelo meu mal-estar e tristeza, me despedi de Diva. Ela prometeu manter contato por WhatsApp para que eu pudesse tirar mais dúvidas e me aproximar da Cientologia.