Epilepsia: por que informar ainda é necessário? - Revista Esquinas

Epilepsia: por que informar ainda é necessário?

Por Clara Maciel : março 26, 2026

Para além dos números, a epilepsia se manifesta diariamente, muitas vezes de uma maneira “invisível”, ou até que alguma crise aconteça. Foto: geralt/ Pixabay

Entre mitos e silêncio, epilepsia segue pouco discutida, embora afete milhões de pessoas no Brasil e no mundo

O mês de março costuma ser lembrado por datas amplamente difundidas, como o Dia Internacional das Mulheres, em 8 de março, e o Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22. Em meio a essas pautas, outra data passa quase despercebida: 26 de março, Dia Mundial da Conscientização sobre a Epilepsia.

Apesar do pouco destaque, a epilepsia está longe de ser rara. Trata-se de uma condição neurológica crônica que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, estima-se que aproximadamente 2% da população conviva com a doença.

Ainda assim, o desconhecimento persiste. Entre mitos, estigmas e falta de informação, a epilepsia segue sendo pouco discutida — inclusive fora do ambiente médico. Diante disso, surge uma questão inevitável: por que uma condição tão comum continua cercada de silêncio e desinformação?

Para além dos números, a epilepsia se manifesta diariamente, muitas vezes de maneira “invisível”, até que alguma crise aconteça.

Quando o diagnóstico encontra o preconceito

Foi assim com o gestor administrativo da unidade de saúde “Centro Médico Minaura Machado”, Agnaldo Moreira, que recebeu seu diagnóstico ainda na infância, após acidentalmente incendiar uma casa na fazenda de sua família e ter sua primeira crise. Mesmo crescendo em uma família com grande esclarecimento médico, Agnaldo não deixou de lidar com o preconceito e os olhares externos.

“Hoje a epilepsia ainda é tabu, mas naquela época era quase um palavrão.”

Mais do que lidar com as crises em si ainda criança, Agnaldo destaca o preconceito social movido pelo desconhecimento da população, que associava a epilepsia a transtornos cognitivos e mentais. “Na minha infância, eu usava medicações como o Gardenal, que era muito estigmatizado. As pessoas diziam que era ‘remédio de doido’, e eu sofri preconceito por conta disso.”

Apesar de relatos como o de Agnaldo, o preconceito em torno da epilepsia ainda está diretamente ligado à desinformação. Segundo o neurocirurgião, professor e doutor Eberval Gadelha Figueiredo, a condição é mais comum e menos limitante do que muitos imaginam.

“A epilepsia pode ter causas identificáveis, como traumatismos cranianos, tumores, meningite ou infecções como a neurocisticercose. No entanto, grande parte dos casos é considerada idiopática, ou seja, sem uma causa estrutural evidente, podendo envolver fatores genéticos ou alterações nas redes neurais.”

O especialista também destaca que as crises convulsivas não são a própria doença, mas sim um de seus sintomas, já que a epilepsia é uma condição neurológica crônica ligada a uma predisposição do cérebro para gerar crises epilépticas.

Segundo Eberval, a epilepsia não é exatamente uma doença isolada, mas um sintoma de alguma alteração no cérebro, representando um desarranjo das funções neuronais que leva à ocorrência das crises epilépticas.

Anos após o diagnóstico, já na vida adulta, Agnaldo voltou a vivenciar crises após um longo período sem sintomas, o que exigiu mudanças em sua rotina, que, depois de quase 30 anos, já havia se transformado.

“Eu precisei reorganizar minha vida: cuidar do sono, abandonar o álcool e retomar o tratamento. Mas, na prática, minha vida ficou mais equilibrada quando voltei a me cuidar.”

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Informação, cuidado e combate aos estigmas

O que o gestor viveu é mais comum do que se imagina. Quando as crises entram em remissão, a ausência de sintomas pode trazer uma sensação de “cura”. O Dr. Eberval reforça a importância da continuidade dos cuidados.

Para quem já tem epilepsia, o especialista orienta a não interromper a medicação. Ele também ressalta que, dependendo do caso, é importante evitar álcool, privação de sono e períodos prolongados de jejum, além de sempre consultar um médico antes de iniciar ou suspender qualquer outro medicamento, para evitar interferências no tratamento.

Tendo em vista que a doença pode entrar em remissão e retornar, torna-se ainda mais urgente a conscientização social sobre os cuidados, que são frequentemente alvo de desinformação. Segundo Eberval, o mais importante é garantir a segurança do paciente. Saber como agir pode fazer a diferença na proteção e na redução de riscos.

Ele explica que a primeira medida é proteger a pessoa para que não caia ou se machuque. Em caso de crise convulsiva, é importante evitar que bata a cabeça e colocá-la de lado, preferencialmente, para evitar aspiração.

Além disso, o especialista reforça que práticas populares, como introduzir objetos na boca da pessoa durante a crise, não devem ser realizadas.

“Não há necessidade de colocar a mão na boca. As crises, na maioria das vezes, são autolimitadas e o paciente se recupera bem”.

Ele também destaca que, caso as crises se repitam sem intervalo de recuperação por muito tempo, é necessário buscar apoio médico urgente.

Em um cenário marcado por mitos e desinformação, falar sobre epilepsia é, principalmente, um ato de inclusão. Saber reconhecer uma crise, agir corretamente e respeitar quem vive com essa condição são atitudes que ultrapassam o campo da saúde e entram na responsabilidade social. No Dia Mundial da Conscientização sobre a Epilepsia, a proposta não é apenas lembrar a data, mas ampliar um debate urgente: informar é incluir e, em muitos casos, também proteger.

Editado por Enzo Cipriano

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