Da cultura à economia, o país reflete influências externas que moldam sua identidade e reforçam relações de dependência
No dia primeiro de maio de 1928, na Revista de Antropofagia, o poeta Oswald de Andrade publicava o que viria a ser o marco da primeira fase do modernismo no Brasil: o Manifesto Antropófago. Oswald é subversivo e claro ao atestar que era preciso devorar o estrangeiro para “vomitar o nacional”.
Bovarismo e viralatice: motores do imperialismo cultural
Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro, cataloga o comportamento de hipervalorização das outras nações como um sintoma complexo do inconsciente nacional. O dramaturgo chama a síndrome de abjeção da cultura própria de “Complexo de Vira-Lata”, no qual a fantasia do vira-lata é conquistar o pedigree. Afirma Nelson, na obra À Sombra das Chuteiras Imortais, que:
“O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”.
Isto é: enquanto Narciso, figura greco-mitológica, é desenhado sobre o excesso de sua estima, o brasileiro segue a lógica oposta, evitando olhar o seu reflexo e, muitas vezes, reduzindo-o diante do exterior. Além do significado folclórico, o narcisismo, na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, descreve a etapa do narcisismo primário, ocorrida na primeira infância, como um fenômeno natural e necessário na formação do “eu” e da autoidentificação.
Assim, o brasileiro, como Narciso às avessas, não apenas subverte o excesso de estima do mito em precariedade identitária, como, no sentido freudiano, pula um dos processos mais essenciais na construção da psique. Existe um vácuo na primeira infância da pátria — a formação do “eu” como nação — que implica na mentalidade de inferiorização, ou no viralatismo.
“O cinema americano informará”
— Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago

Narciso de Caravaggio.
Foto: Reprodução
O Brasil que o cinema estrangeiro projeta
No cenário cinematográfico, comandado pela indústria norte-americana, o poder brando é estabelecido no “American Way of Life”, através da arquetipificação da qualidade de vida estadunidense. Desejar a torre de panquecas com melaço, ou o “hot dog”, passa longe de ser viralatismo; entretanto, diante de uma série de elementos culturais vistos nos clássicos do cinema, olhar para a própria cultura, que, em vez de “hot dog”, consome o “dogão”, pode parecer mais distante e inferior.
Se faltam espelhos para o povo brasileiro, falta cinema do Brasil. Às vezes, olhar para si mesmo é identificar que há “intestinos” a serem vistos. Glauber Rocha, com o movimento do Cinema Novo, já idealizava a sétima arte não a partir da imagem lúdica de exportação — samba, Rio de Janeiro e tropicalidade. Ao contrário, o cineasta entendia que era preciso admitir a nação para se libertar do desejo da grande potência. Acende-se, então, o cinema de terceiro mundo, o anti-reflexo do Brasil utópico: fome, crime, desigualdade e vampirismo político. E, se antes o enquadramento era o Rio, agora o enfoque passava a ser o Nordeste.
“O Cinema Novo ficou com a utopia brasileira, se ela é feia, irregular, suja, confusa, caótica, é também bonita, desarmônica, iluminante, revolucionária.”
— Glauber Rocha
O narcisismo às avessas, ou essa falta de olhar para si, mostra uma pátria que ridiculariza os próprios fenômenos artísticos em consequência de um letramento conceitual de outra terra — esse desejo de transposição pela vida do terceiro é chamado de “bovarismo”. Não olhar para o espelho não é só se esquecer da própria face: é imaginá-la a partir da referência do outro.
A língua como sintoma do viralatismo
Assim se manifesta a vergonha do brasileiro pelo português: com um povo bovárico em língua, que se vê letrado mais no inglês do que no seu próprio idioma. Na internet, o uso de gírias estadunidenses tornou-se fenômeno linguístico: “gag”, descrevendo surpresa; “cringe”, simbolizando vergonha; ou “trend”, traduzindo tendência. A descrição de sentimentos traduzíveis para o português em outra língua pode expressar estética linguística. Falar através do vocabulário estrangeiro denota um capital simbólico profundo, de uma nação que se socializa verbalmente com a realidade de pátrias consideradas, por nós, superiores.
“Nós gostamos de modismo, agora é o inglês, mas no século XIX foi o francês, por exemplo. Pode ser que daqui para frente seja o mandarim. Gostamos sempre de pedir empréstimos de prestígio de línguas que a gente acredita que sejam línguas superiores à nossa. Sim, isso é viralatismo”, diz, em entrevista, o doutor em literatura brasileira Wellington Andrade.
Hibridismo e a formação da identidade brasileira
“Não existe pureza na cultura, a gente pega influências externas e recria de um modo muito particular.”
— Liráucio Girardi Júnior, sociólogo
O ano era 1967, e o III Festival de Música Brasileira estremecia as ruas da antiga São Paulo. Desse tumulto de cantigas e instrumentos, um novo som surgia. Pelas mãos de Sérgio Dias, os Os Mutantes traziam a guitarra elétrica ao cenário sonoro nacional. Porém, a guitarra não era só objeto, era símbolo de debate no meio musical: o instrumento era a infiltração do rock estadunidense no Brasil, ao menos essa era a interpretação de seus opositores, ligados à MPB.
“A gente não queria a guitarra elétrica, por trás do som da guitarra elétrica tinha um monte de lixo do rock americano pronto para desembarcar no Brasil” — disse Edu Lobo, para o documentário Uma Noite em 67.
Embora o excesso de elementos não próprios seja perigoso na jornada pela identidade cultural, fechar-se à noção de intercâmbio de costumes pode ser restritivo. Processos como o hibridismo — a formação de uma cultura a partir da junção de outras — constroem o Brasil e diversos outros países da América Latina. Falar sobre música brasileira é admitir o ritmo de Claude Debussy na bossa de Tom Jobim, o blues estadunidense na estilização do samba brasileiro — ambos movimentos surgidos da expressão da negritude — e a assertividade da introdução da guitarra na Tropicália.
É fácil entender o Brasil como a nação do riso; não é só na forte cultura da comédia que essa ironia assume forma. Há um modo particular de ressignificação dessas trocas culturais: o dom de carnavalizar é brasileiro, isto é, subverter as coisas a partir da satirização delas mesmas. A cultura carnavalesca de nosso país, para Liráucio, expressa um movimento de autenticidade:
“A gente carnavaliza um pouco esses elementos, isso é um pouco da nossa cultura. As coisas ganham sinais de ironia.”
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A colonialidade do mercado brasileiro é fruto de um país que, desde a fundação da sua atividade comercial, nunca passou, de fato, por um grande processo de renovação dos seus métodos de produção, mantendo-se, mesmo após a independência, como um país de exportação primário e periférico (não industrializado).
A exportação de commodities — produtos agrícolas primários não processados, principal atividade econômica brasileira — pode simbolizar um país que ainda submete sua subsistência econômica à alimentação da grande potência. Essa forma de produção pode parecer atraente para países imperialistas, que refinam e processam a matéria-prima, a exemplo da exportação do petróleo brasileiro bruto — com pouco valor agregado — e de sua posterior importação como gasolina, já refinada e de maior custo.
Essa relação de subserviência é zelada por uma elite fundiária, que vê na industrialização o fim da monocultura e a queda do império das commodities. Em entrevista, o cientista político Paulo Nicolli Ramirez ressaltou que:
“Há, no Brasil, um grande impeditivo por parte das elites políticas em financiar um projeto de reindustrialização no país, muito lobby de empresas norte-americanas que unicamente têm interesse na matéria-prima e não exatamente em mercadorias manufaturadas, ou com agregação de valor… A vocação da América Latina, e o Brasil não é diferente, é ser um país-colônia de exportação de commodities, de produtos que não são processados e não têm agregação de valor na mercadoria.”
Vânia Bambirra, em O Capitalismo Dependente Latino-Americano, descreve a classe dominante brasileira como a “classe dominante dominada”. Para a socióloga, a América Latina se encontra em uma relação de vassalagem, frente a uma classe que, pela subsistência do mercado agrícola, sempre se encontra em cenário de imprevisibilidade e insegurança, como visto em 2025 no tarifaço de Donald Trump, ou em 2014, com o fim do chamado “boom das commodities”. Sobre o tarifaço, Nicolli também pontuou:
“É evidente que o tarifaço revelou esse imperialismo norte-americano em relação aos produtos brasileiros, às mercadorias.”
Indústria verde: uma saída possível
A nação brasileira é uma das mais vastas e ricas em potencial artístico e cultural. Não são poucos os movimentos de valorização dessa riqueza, seja no modernismo, com o Manifesto Antropófago, que girava em torno da proposta de reconstruir uma arte verdadeiramente brasileira, seja na política, na qual também já se fala sobre projetos de independência mercadológica.
Uma das soluções propostas para a economia brasileira é a indústria verde. Sobre isso, Paulo Nicolli atesta:
“Uma das alternativas é pensar nas chamadas economias verdes, que podem trazer um novo cenário de industrialização no Brasil. Investimentos na área industrial e uma indústria limpa, evidentemente, não só trariam benefícios ao meio ambiente, mas também à economia brasileira, trazendo mais empregos, mais consumo e mais manutenção da geração das riquezas dentro do próprio país.”