Ao passo que a violência de gênero no cenário brasileiro aumenta, também são difundidos mais conteúdos misóginos nas redes sociais, mas qual é a relação entre esses fenômenos?
No ano de 2025, foram registradas 1.571 vítimas de feminicídio no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o maior número desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015. O dado demonstra que, apesar dos avanços legislativos e do aumento da visibilidade do tema nos meios de comunicação, a violência letal contra mulheres permanece como um dos principais desafios para a garantia dos direitos humanos e da segurança pública no país.
O aumento é especialmente preocupante por ocorrer em um contexto de redução das mortes violentas intencionais no país, indicando que a violência de gênero segue uma dinâmica própria e resistente às quedas observadas em outros indicadores criminais.
O perfil das vítimas também evidencia padrões recorrentes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 64% das mulheres assassinadas eram negras, 70% tinham entre 18 e 44 anos e 64% foram mortas dentro de suas próprias residências. Além disso, em aproximadamente 80% dos casos, o autor do crime era companheiro ou ex-companheiro da vítima, reforçando o caráter doméstico e relacional dessa forma de violência.
Paralelamente ao crescimento dos casos de feminicídio, pesquisadores têm observado a expansão de comunidades “masculinistas” em ambientes digitais. Embora a relação entre esses grupos e o aumento do número de feminicídios ainda seja objeto de investigação acadêmica, especialistas alertam para a necessidade de compreender o papel dessas comunidades na disseminação de discursos de ódio e violência contra as mulheres.
Com a evolução das redes sociais, os ambientes digitais tornaram-se ferramentas estratégicas para impulsionar ideologias e difundir formas distintas de pensamento. Mesmo as ideias mais preconceituosas podem se apresentar travestidas de racionalidade e liberdade, tornando-se socialmente aceitáveis e atraindo seguidores, que se veem cada vez mais imunes aos danos que esses pensamentos podem causar. O problema se agrava quando discursos preconceituosos não são vistos como crime, já que, categoricamente, não mostram nenhuma forma de lesão direta e imediata.
É perceptível que a normalização dos discursos de ódio reforça estruturas de dominação simbólica e enfraquece a democracia; assim, surgem propostas de normas legislativas ou jurídicas que possam moderar esses tipos de conteúdo, como a regulamentação das redes sociais, fenômeno amplamente discutido em nível mundial.
POR DENTRO DAS NOMENCLATURAS DA ‘MACHOSFERA’
Entre os termos mais populares da comunidade estão incel e red pill. Ainda que sejam frequentemente agrupados sob o mesmo rótulo, os adeptos dessas subculturas recusam a identificação generalizada, estabelecendo muros entre si.
O termo incel (involuntary celibate, ou celibatário involuntário, em tradução livre), cunhado nos anos 1990, carrega um significado extenso, que transcende a mera designação de “celibatário involuntário” e assume um sentido ideológico mais amplo. Homens e garotos que se identificam com essa nomenclatura afirmam não conseguir estabelecer relações com mulheres e atribuem sua incapacidade de iniciar vínculos afetivos ou sexuais às transformações sociais promovidas pelo feminismo, que, segundo sua narrativa, teria subvertido as dinâmicas tradicionais de gênero e marginalizado os homens nas esferas de afeto, desejo e poder.
Já o termo red pill foi inspirado pelo filme Matrix (1999), no qual o protagonista Neo é levado a escolher entre a pílula azul (que o faria permanecer num estado de ignorância em relação ao mundo real) e a pílula vermelha (que teria o poder de despertá-lo para a realidade e trazer à tona verdades ocultas). Dentro da machosfera, a simbologia da pílula vermelha foi reformulada para representar uma forma de “acordar” para as relações entre homens e mulheres, sendo frequentemente associada a uma visão antifeminista e confabulatória.
Guiados por teorias conspiratórias disseminadas em diversos meios de comunicação, homens cisgênero e majoritariamente heterossexuais de diferentes nacionalidades, classes sociais, etnias e idades são imersos em um universo composto por fantasias misóginas, baseadas em fundamentos retrógrados e narrativas anticientíficas. Essa é uma estratégia simbólica de influência e controle sobre indivíduos, sobretudo aqueles que se encontram em condição de fragilidade identitária, emocional ou socioeconômica, tornando-se mais suscetíveis a formas de manipulação e à internalização de ideologias de autoafirmação.
Em uma pesquisa realizada com 51 participantes — sendo 80% mulheres cisgênero, 15,7% homens cisgênero e 3,9% pessoas não binárias —, cerca de 92% afirmaram ter sido expostos a conteúdos misóginos nas redes sociais ao longo de 2026. No mesmo período, todos os entrevistados relataram ter acompanhado notícias relacionadas a casos de feminicídio.
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A RELAÇÃO ENTRE O DISCURSO E A REALIDADE
Segundo Letícia Melo, mestre e doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a internet oferece uma plataforma para a articulação da misoginia, possibilitando que ela seja difundida com uma nova “roupagem” e ganhando novos adeptos, outrora escondidos.
“O discurso fundamenta a prática e constrói a violência. Portanto, estes fenômenos [crescimento de comunidades masculinistas e grande número de casos de feminicídio] não podem ser separados, ainda que seja uma dúvida científica se o número de feminicídios está realmente aumentando ou apenas sendo tipificado da maneira correta”, afirma.
Para Cida Gonçalves, ex-ministra das Mulheres do Brasil, é necessário levar em conta as duas possibilidades: “De um lado, de fato, aumentou a tipificação, e é importante lembrar que a lei é de 2015, são dez anos. Porém, também temos visto o aumento de vítimas e da crueldade e frequência com que isso vem acontecendo, assim como as alterações na forma das violências, o aumento de crimes vicários, mulheres queimadas vivas etc.”
A ativista declara, ainda, que os grupos da machosfera existentes nas redes sociais intervêm diretamente no comportamento de homens, jovens e adolescentes, pregando um tipo ideal de mulher, a submissão feminina e o menosprezo por aquelas que trabalham, estudam e lutam para melhorar a própria vida e a de seus filhos.
“Esquecem que, no Brasil, segundo o IBGE, 50% das mulheres são responsáveis pelo sustento da família, sendo a grande maioria mãe solo. Isso incentiva e potencializa a raiva e o ódio em relação aos papéis das mulheres em espaços de liderança, poder e referência no país. Por isso, o maior alvo deles são as feministas”, conclui.
Segundo ela, a aprovação do PL 896/2023, o “PL da Misoginia” — proposta aprovada no Senado que aguarda votação na Câmara dos Deputados —, trará avanços significativos:
“Contribuirá para que haja punição e responsabilização de influenciadores, os machistas de plantão na rede social ou mesmo em presença física. É um grande instrumento de reeducação e busca por mudanças de valores e comportamentos nas redes sociais e na vida real. É fundamental como instrumento de combate à discriminação, ao preconceito, ao machismo e à intolerância presentes em nosso cotidiano.”
Em 2026, um levantamento realizado pelo King’s College de Londres em parceria com a Ipsos apurou que cerca de 31% dos jovens do sexo masculino nascidos entre 1997 e 2012 afirmam que a esposa deve sempre obedecer ao marido — mais que o dobro da geração anterior.
Especialistas apontam para o caráter reacionário do movimento, que teve alta em meio aos avanços conquistados pelo feminismo. A masculinidade hegemônica se vê em declínio e busca utilizar a violência para “resistir”.
Embora não seja possível chegar a uma conclusão definitiva quanto à relação direta entre o fortalecimento do ideal reacionário de masculinidade e o aumento dos índices de feminicídio, uma vez que a tipificação desse crime existe há pouco mais de dez anos, o elo subjetivo entre a palavra e o ato permanece central: ao normalizar a subordinação e o ressentimento masculino nas redes, abre-se espaço para a barbárie nas ruas, evidenciando que a luta pelos direitos das mulheres está longe de ser uma página virada no Brasil.