Rainha do basquete: Hortência Marcari além das quadras - Revista Esquinas

Rainha do basquete: Hortência Marcari além das quadras

Por Eduarda Mahrouk, Giovana Navarro, Laís Bamonte e Letícia Machado : agosto 10, 2026

Hortência Marcari segura seu uniforme da seleção com orgulho. Foto: Eduarda Mahrouk (2025)

De ídola do esporte a palestrante, Hortência transformou disciplina e superação em um legado que vai além do basquete

Luta, garra e determinação. São esses os principais valores que um atleta olímpico precisa ter para se manter no topo das competições. Para Hortência Marcari, ex-atleta e “Rainha do Basquete”, essas três palavrinhas nunca deixaram de ser prioridade, mesmo depois de sua última partida.

Foi isso o que ela disse em uma palestra em São Paulo, em outubro de 2025. Naquele dia, apresentava-se para um grupo corporativo cuja plateia era quase inteiramente composta por homens que trabalhavam no mercado financeiro. Apesar da aparente divergência entre o universo do esporte e o das finanças, todos estavam ali para ouvir o que a ex-jogadora tinha a dizer.

Ela vestia um conjunto rosa, acompanhado de seus saltos altos. Mas a marca registrada de seu visual estava ali: usava o cabelo preso no topo da cabeça, assim como em todos os seus jogos. Carregava consigo a postura de quem está pronta para vencer de novo.

Construir esse legado não foi fácil. Apenas a dedicação e a disciplina foram capazes de levá-la de sua cidade natal aos centros olímpicos. Houve sacrifício, dor e perda, além de muitos “nãos” a amigos, familiares e prazeres cotidianos. Tudo foi necessário para que alcançasse suas metas. Afinal, como a própria Hortência diz, os verdadeiros campeões são “indistraíveis”, palavra que usa para definir aqueles que não se deixam desviar de seus objetivos.

A PALESTRANTE

Sua preparação começa com uma hora de antecedência. No camarim, com sua assessora, faz questão de repassar todos os detalhes com os organizadores do evento: como será sua entrada, quem lhe dará o microfone, quais luzes deverão ser utilizadas em cada momento, as músicas de fundo, entre outros detalhes que trazem sua essência para a palestra.

O clima é leve e não transparece sinais de ansiedade ou nervosismo. O conteúdo já está decorado em sua mente. “A palestra é sempre a mesma, não importa qual o público ou a quantidade de pessoas. A ideia que quero passar não muda.” Hortência é contratada por uma variedade de empresas do mundo corporativo, que vão desde o mercado financeiro até as áreas da saúde e da proteção ambiental. Atualmente, costuma dar prioridade para grupos menores, por conta da proximidade que pode construir com a plateia. Mesmo assim, revelou já ter palestrado para até oito mil pessoas de uma só vez.

Antes de subir ao palco, aquece os convidados com um vídeo sobre os principais momentos de sua carreira. São quatro minutos compostos apenas por trechos de grandes marcos: entrevistas, jogos, vitórias e discursos em premiações. Ao final do vídeo, é notável o impacto nos olhos de cada um da plateia. É impossível não se emocionar, tanto aqueles que já conhecem a Rainha do Basquete quanto os que não acompanharam sua trajetória.

A parte inicial de sua palestra é focada no desenvolvimento pessoal de cada um, em como o indivíduo deve dar o seu melhor e estar alinhado com seu propósito. Mostra como as pessoas precisam se preparar para lidar com o dia a dia no trabalho, na visão de uma ex-atleta. “A única diferença é como eu me preparo e lido com a minha pressão. Cada um encara de uma forma, mas todos nós somos pressionados.” No decorrer da palestra, sua intenção é mostrar ao público como enfrentar de maneira efetiva as adversidades da vida.

Hortência retoma parte da sua trajetória no basquete durante sua palestra
Foto: Giovana Navarro (2025)

A segunda parte de sua palestra é voltada para o coletivo. Durante as competições, aprendeu que, sem o trabalho em equipe, o resultado será negativo. Segundo a ex-jogadora, para alcançar a vitória, é necessário ter uma equipe unida, em que todos fazem sua parte e o preparo individual é imprescindível. Suas palestras falam da necessidade do foco de cada um para a obtenção do sucesso, para que, assim, o coletivo funcione.

“Eu me preparava para fazer meus 30 pontos no jogo, para defender, não errar o lance livre. Mas 30 pontos não ganham jogo. Eu preciso que minha equipe também faça cesta.”

Ao final da palestra, surpreende a plateia com dez bolas de basquete autografadas, que são sorteadas entre os convidados. No último sorteio, brinca que o escolhido não levará nenhum prêmio para “aprender a lidar com as frustrações”. Inesperadamente, o “azarado” ganha um prêmio exclusivo: uma camiseta autografada. Esse clima de descontração permanece durante todo o evento, aproximando Hortência de seu público.

A TRANSIÇÃO

“A profissão de atleta é muito cruel, porque você tem hora para começar e para acabar.” Hortência sabia disso quando resolveu se tornar uma jogadora profissional de basquete, e esse pensamento a acompanhou até o último apito soar na quadra. A aposentadoria, momento temido e inevitável para a maioria dos jogadores, sempre esteve prevista em seu plano de jogo. “Imagina chegar aos 35 anos, no auge da carreira, e precisar parar. Aí você pensa: preciso fazer outra coisa agora, mas o quê, se eu gosto de fazer isso? O que vou ser agora se isso é o que eu sei?”

A ex-jogadora mantém seus principais prêmios na mesa de seu quarto
Foto: Eduarda Mahrouk (2025)

Antes de chegar o momento em que seria obrigada a parar, já se planejava para fazer a transição. A notícia do término de sua carreira veio também com uma grande mudança em sua vida: a Rainha do Basquete seria mãe. Estava abdicando de seu tempo em quadra para se dedicar e construir sua família, outro grande sonho.

Apesar do ponto final no basquete, Hortência nunca parou de se movimentar. Após anunciar a aposentadoria, tomou a decisão de investir em sua educação. Frequentou aulas de Gestão do Esporte na Faculdade São Marcos, o que afirma ter sido importante para seu desenvolvimento profissional, visto que pôde gerenciar uma empresa de eventos esportivos. Mesmo com a agenda corrida, fez daquilo seu foco e prioridade. Queria estar preparada para qualquer oportunidade que aparecesse em seu caminho.

A carreira como palestrante não estava em seus planos. Ela começou com convites casuais de companhias que queriam ouvir suas experiências. “As empresas me perguntavam se eu não gostaria de bater um papo com as equipes e contar um pouco sobre o que aprendi dentro de quadra”, lembra. Começou chamando alguns profissionais para fazerem parte de sua equipe. Seu objetivo era pegar tudo aquilo que sabia como atleta e trazer para o lado corporativo. Logo, havia mudado seu ambiente de trabalho das quadras para os palcos.

Durante sua vida, sempre gostou de fazer tudo com excelência. O segredo para isso, revelou, é a preparação — palavra que repete quase como um mantra. Esse valor reflete diretamente em sua trajetória como palestrante. Inicialmente, revelou que o número de palestras que realizava por ano não passava de cinco. Hoje, a rotina de Hortência conta com duas a três por semana em todo o Brasil, aumento que só foi possível por conta de sua preparação.

“Eu me profissionalizei. Pensei: é isso que vou fazer? Então vou fazer bem feito.”

SUA TRAJETÓRIA NO ESPORTE

Hortência Marcari começou a desenhar sua trajetória ainda muito jovem. Experimentou modalidades como o handebol e o atletismo, mas nenhuma a cativou tanto quanto o basquete. Com apenas dezesseis anos, já estava na seleção brasileira. “Foi ali que eu aprendi a ter disciplina. E a disciplina envolve muita rotina.” Após todos os treinos, relembra que não saía de quadra até acertar mil arremessos. Entre muita prática e horários regrados, já dava sinais de que seria um fenômeno.

Hortência discursa sobre a importância da preparação, tanto na vida pessoal, quanto na vida profissional
Foto: Letícia Machado (2025)

Seu primeiro título na seleção veio em 1978, quando venceu o Campeonato Sul-Americano. Os Jogos Pan-Americanos de 1983 e 1987 trouxeram o bronze e a prata, respectivamente. Já a medalha de ouro foi conquistada em 1991, nos Jogos Pan-Americanos de Havana. Tornou o Brasil campeão no Mundial da Austrália, em 1994, e, em 1996, levou a prata em sua última partida pela seleção, nos Jogos Olímpicos de Atlanta.

Além desses e de outros títulos, Hortência se consagrou como a maior pontuadora da história da Seleção Brasileira, deixando uma marca que vai além das medalhas. Em 2005, entrou para o Hall da Fama do Basquete. “Este é o troféu mais importante que um atleta pode ganhar individualmente. Não tem mais que isso”, compartilha em entrevista.

Por trás de cada conquista, também existia uma parceria que a impulsionava ainda mais: a relação com Paula, sua maior concorrente da época. Quando jogavam pela seleção brasileira, sabiam exatamente o momento de deixar a rivalidade de lado e se aliar por um objetivo maior: a vitória do coletivo.

Juntas, elas atingiram o ápice do basquete brasileiro e se tornaram um dos maiores exemplos de respeito e admiração no esporte. “Paula foi a pessoa mais importante da minha vida profissional. Eu trouxe a minha adversária para ser a grande motivadora do meu dia a dia.” Foram duas atletas que treinaram a vida toda para se superar e, assim, chegar ao topo.

A Rainha do Basquete aprendeu cedo que o talento deve andar lado a lado com a disciplina. “Nada pode atrapalhar o seu sonho, você não deve se distrair por nada. Esse é o preço da vitória. Ser a melhor do mundo custou muito.” O resultado? Um fenômeno que todos nós conhecemos.

FORA DAS QUADRAS

Aos 66 anos, Hortência vive uma fase focada em aproveitar a vida. Ela mesma se declara como uma pessoa “topa tudo”, que adora estar rodeada dos amigos e da família. Apesar de ser uma pessoa discreta e reservada sobre sua vida pessoal, nas redes sociais mostra um pouco de como é sua rotina atrás dos holofotes. Entre uma palestra e outra, a ex-jogadora faz questão de encontrar um tempo para as atividades físicas, prática da qual afirma não abrir mão.

Para Hortência, o tempo fora das quadras é um momento para viver sem preocupações, cercada de boas companhias e risadas. Em seu perfil, destaca-se o apreço que tem pelas amizades. Fotos que vão desde uma simples caminhada no domingo à tarde até uma viagem para a praia mostram como valoriza momentos singelos e intimistas. Ela sente orgulho de toda a sua trajetória e diz se sentir uma pessoa abençoada por tudo o que já viveu. “O que eu posso querer? Sempre fiz tudo aquilo que queria e tudo que deixei de fazer foi em prol do meu objetivo”, disse em entrevista à Esquinas.

Hortência Marcari abre as portas de seu apartamento para uma entrevista exclusiva
Foto: Laís Bamonte (2025)

Ao falar sobre a família, transparece o orgulho que sente pelos seus filhos. “Fico muito feliz quando penso na minha família. Tenho dois filhos que estão muito bem, no caminho certo e contentes naquilo que se propuseram a fazer.” João Victor e Antonio Oliva decidiram seguir os passos da mãe no esporte. Porém, ao contrário dela, que se encontrou entre as quadras e as bolas de basquete, os filhos dedicam a vida aos haras e aos cavalos. Hortência lembra que, desde que eram pequenos, tinha a preocupação de que eles se tornassem jogadores de basquete devido à alta cobrança que sofreriam. Para ela, é um alívio terem seguido um caminho diferente, em que pudessem construir sua própria identidade.

Hortência também comenta com bom humor sobre seu ex-marido, José Victor Oliva, empresário brasileiro apelidado carinhosamente de “Rei da Noite”. Mesmo após o divórcio, com rotinas e responsabilidades distintas, a ex-jogadora revelou que eles mantêm uma relação cordial e de amizade.

“Apesar de sermos separados, convivemos muito juntos. Somos amigos e uma grande família. A minha, com meus dois filhos, e ele com a família dele. Nos misturamos e formamos uma só. Sou grata a isso.”

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O LEGADO

Além das palestras, Hortência também faz parte de quatro instituições: a Comissão de Atletas do Comitê Olímpico do Brasil, a Comissão de Atletas do Ministério do Esporte, o Pacto pelo Esporte e o Atletas pelo Esporte. Todos esses projetos visam fortalecer a luta pela proteção dos atletas brasileiros e garantir a execução de todas as leis que envolvem o esporte.

Para a ex-jogadora, participar desses projetos é uma maneira de retribuir tudo o que o basquete trouxe para sua carreira. “Sempre ajudei minhas atletas, desejei que elas também brilhassem. Nunca quis ser mais que elas, e eu acho isso muito importante.” Hoje, traz consigo histórias que não cabem apenas na memória, mas que ecoarão por muitas outras gerações.

A Rainha está eternizada no basquete mundial e carrega um peso muito maior do que o das medalhas e troféus: o de ser uma inspiração. Seja como mentora ou apenas como ídola, faz questão de transmitir tudo o que aprendeu durante sua trajetória. O que fica para as futuras lendas do esporte é a imagem de uma mulher que sempre batalhou pelo que queria. Dentro e fora das quadras, continua sendo exemplo e segue escrevendo novas páginas de sua história.

Editado por Enzo Cipriano

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