O Retorno do Sarampo: Como o negacionismo ameaça décadas de avanço na Saúde Pública

O Retorno do Sarampo: Como o negacionismo ameaça décadas de avanço na Saúde Pública

Por Elisa Nuñez : setembro 3, 2026

Após voltar a registrar casos da doença, o Brasil enfrenta um desafio que vai além da disponibilidade de vacinas: combater a desinformação, recuperar a percepção de risco e convencer uma população que já não se lembra do perigo do sarampo.

Em 2016, o Brasil recebeu uma certificação da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela eliminação do sarampo, após a interrupção da circulação endêmica da doença no país. Contudo, o título foi perdido em 2019, com a queda na cobertura vacinal e a importação do vírus. A certificação foi novamente restabelecida em 2024, mas, em 2026, novos casos voltaram a acender o alerta: até o momento, 23 casos foram registrados no estado de São Paulo.

Dentro desses casos, apenas dois foram classificados como importados: um da Bolívia e outro da Guatemala. O restante não é relacionado à importação, o que indica que o vírus passou a ser transmitido localmente, a partir de uma introdução vinda do exterior.

O sarampo é altamente transmissível, podendo contagiar pessoas próximas ao infectado, até mesmo antes das manifestações físicas, como manchas e vermelhidões na pele, se tornarem evidentes.

Os precedentes de um surto viral

O sarampo foi uma das doenças que o Brasil eliminou através da vacinação. Há mais de 60 anos, a vacina é utilizada como método de prevenção e possui uma longa história de eficácia e segurança para a saúde pública. Diante disso, surge o questionamento: o que explica o retorno do sarampo em 2026?

A pergunta possui algumas explicações, mas, uma das principais é de que a vacina é vítima do próprio sucesso. Por meio da vacinação, várias doenças foram eliminadas do país, como a rubéola congênita, o tétano neonatal e o próprio sarampo, e deixaram de oferecer uma ameaça constante. A população, portanto, deixou de ter motivos para se alarmar sobre essas doenças, e as próximas gerações não receberam a mesma noção de perigo das épocas anteriores. Quando ocorre um surto infeccioso, muitas vezes é o desespero por uma solução que leva as pessoas em direção ao método de prevenção.

Com o aumento dos discursos antivacina e da desinformação, principalmente no ambiente digital, o receio quanto aos efeitos colaterais pode se tornar mais forte do que a preocupação com a própria doença, tornando parte da população mais hesitante e, assim, contribuindo para o enfraquecimento da cobertura vacinal.

Mônica Levi, atual presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e integrante do Comitê Técnico Assessor de Imunizações do Ministério da Saúde, afirma que a politização da vacinação durante o período da pandemia de Covid-19 contribuiu para o crescimento desses discursos:

“Profissionais da saúde, o Programa Nacional de Imunizações, calendários de vacinação, foram muito afetados por conta da politização da Covid. A vacina se tornou objeto de opinião própria, gerando um distanciamento da ciência. O que houve na pandemia respingou nas demais vacinas, logicamente”, afirma Mônica

A presença da desinformação

Mesmo atualmente, contando com milhares de estudos nacionais e internacionais, pesquisas, laboratórios, divulgadores científicos e profissionais se posicionando a favor da vacinação, discursos anticiência continuam sendo disseminados e ganhando cada vez mais espaço.

Um erro comum relacionado à discussão sobre a confiança nas vacinas é associá-la diretamente aos níveis de escolaridade ou renda, como se pessoas com maior acesso à educação e à informação fossem, necessariamente, mais conscientes sobre a importância da imunização. Partindo dessa ideia, o gráfico abaixo relaciona o nível médio de escolaridade e a cobertura vacinal contra o sarampo nos estados brasileiros, buscando observar se existe, de fato, uma relação entre os dois fatores.

Para a produção do gráfico, o fator educação foi baseado na média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais, por estado, segundo a PNAD Contínua/IBGE. Já o de vacinação, foi utilizada a cobertura da primeira dose da tríplice viral (D1) em 2022, por estado, segundo dados do SI-PNI/OPAS, em percentual.

sarampo

(Fontes: IBGE/PNAD Contínua 2022 e OPAS/OMS, com dados do SI-PNI. A associação observada não implica causalidade)

Os resultados, no entanto, não indicam uma relação entre maior escolaridade e maior cobertura vacinal. A linha de tendência horizontal demonstra que, ao comparar os estados nacionais, o aumento da média de anos de estudo não acompanha, necessariamente, um aumento na vacinação contra o sarampo.

Enquanto alguns estados com médias educacionais elevadas apresentam coberturas vacinais abaixo do ideal, outros com menor média de anos de estudo alcançam índices mais altos.

Isso não significa que a educação não tenha importância para a saúde pública, nem que seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre os dois indicadores. O gráfico evidencia que o acesso à educação formal, isoladamente, não explica a decisão de se vacinar. A hesitação vacinal é um fenômeno mais complexo, atravessado pela percepção de risco, pelo acesso aos serviços de saúde, pela circulação de desinformação e pela confiança nas instituições científicas.

A análise também ajuda a questionar a ideia de que o movimento antivacina é consequência exclusiva da falta de informação. Segundo Mônica Levi, a recusa também está presente entre grupos com maior acesso à informação:

“Quem mais tem recusa é a classe A, que possui maior acesso a esse tipo de informação. A negação parte, muitas vezes, mais do que comparado com quem não tem amplo acesso à informação”, afirma

Os discursos antivacina também podem estar associados a interesses comerciais, como a venda de tratamentos naturais apresentados como milagrosos ou métodos sem eficácia comprovada para substituir a prevenção de doenças infecciosas.

Segundo Levi, existe um mercado que se beneficia da propagação do medo em torno das vacinas, com produtos e tratamentos vendidos como formas de “purificar” o organismo ou evitar supostos efeitos causados pela imunização.

Ao mesmo tempo, nem todas as pessoas que propagam esse tipo de discurso possuem interesses financeiros. Muitas realmente acreditam nas informações que compartilham. É justamente essa mistura entre desinformação, medo, interesses comerciais e convicções pessoais que torna o fenômeno mais difícil de combater.

O movimento de vacinação nos últimos anos

Em 2009, houve a pandemia de influenza, que atingiu muitas pessoas no mundo inteiro, principalmente aquelas enquadradas nos grupos de risco, como idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas. Em 2010, havia filas quilométricas para receber a vacina contra o H1N1. Atualmente, ela é gratuita e possui uma procura menor do que a recomendada pelos profissionais da área da saúde.

A memória da gravidade das doenças é um dos traços mais perceptíveis na mudança de perspectiva da população sobre as vacinas nos últimos anos, e esse fenômeno vem de antes da pandemia.

Quando uma enfermidade deixa de fazer parte do cotidiano, a prevenção contra ela também pode deixar de ser vista como necessária. A presidente da SBlm cita justamente essa mudança como um dos fatores que contribuem para a queda da cobertura vacinal:

“As pessoas são movidas pela percepção do perigo. Se tiver um surto de meningite em uma escola, você pode ter certeza de que os postos da região vão ficar lotados no dia seguinte”, explica Mônica

O desafio, portanto, está em convencer a população sobre a importância de se proteger de uma ameaça que, muitas vezes, nunca chegou a ter contato com ela.

A prevenção funciona de maneira diferente do tratamento. Quando uma pessoa está doente, existe uma urgência evidente para procurar ajuda. Mas quando uma criança está saudável, faltar ao trabalho ou alterar a rotina para levá-la até um posto de vacinação pode parecer menos prioritário, e esse problema não está relacionado unicamente à desinformação.

A especialista também aponta questões de acesso como parte da explicação para a queda da vacinação: ‘Às vezes a mãe leva uma criança ao posto e recebe uma negativa. Ou ela simplesmente não tem tempo de ir no horário comercial por conta do trabalho’. Esses são fatores que podem fazer com que o processo de imunização seja adiado.

Por isso, combater a queda da vacinação não depende apenas de convencer quem possui medo ou desconfiança, mas também exige adaptar os serviços à realidade da população.

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Por que é necessário se vacinar?

A tríplice viral, vacina contra o sarampo, é estabelecida e utilizada há anos na população brasileira. Além da eliminação do sarampo, ela contribuiu para a diminuição de casos de rubéola e caxumba. É um imunizante acessível, e está sendo distribuída não apenas em AMAs e UBSs, mas também em Guarulhos, São Bernardo do Campo e São Paulo, em metrôs, igrejas, mercados e escolas.

Mesmo não estando no grupo de risco, é essencial que haja uma imunidade em rebanho que atinja, no mínimo, 95% da população vacinada, o que garante uma cobertura vacinal eficiente e uma proteção daqueles que não se vacinaram.

O paradoxo é que o sucesso da vacinação pode tornar a própria doença invisível: quanto menos casos existem, menor parece ser o risco. É justamente nesse espaço que a desinformação encontra terreno para crescer.

Em um cenário de retorno do sarampo no país, manter a memória sobre os riscos da doença e garantir o acesso à informação científica se torna tão importante quanto garantir o acesso à própria vacina.

Editado por Mariana Lima

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