Do Panfleto ao Algoritmo: a nova jornada do eleitor na busca por informações políticas

Do Panfleto ao Algoritmo: a nova jornada do eleitor na busca por informações políticas

Por Beatriz Egreja, Giovanna Guedes, Julia Miranda, Julia Moura, Raffaela Menta : setembro 25, 2026

Formas de pesquisar sobre política (Imagem: Pexels)

Informações políticas, que antes eram obtidas por formatos analógicos, agora são movidas pela internet, o principal meio de consumo de conteúdo.

A pesquisa sobre assuntos relacionados às eleições por meios digitais representa uma mudança completa na jornada de busca por dados políticos. E, para os eleitores, a transformação de percepção e interesse sobre o assunto ocorre tanto de forma positiva quanto negativa.

“Aconteceu alguma coisa, você já tá sabendo, você é capaz de investigar, diferente de antes, onde não tinha tantas oportunidades e facilidades para pesquisar profundamente, era apenas o que se declarava na imprensa”, afirma Magaly Pestana, professora e eleitora de 65 anos, engajada em política, sobre a diferença na busca por informação com o passar dos anos

O novo caminho até a informação

Para a nova geração de eleitores, o caminho para informações e debates políticos deixou de ser unicamente pelos telejornais tradicionais e pela imprensa. O consumo que antes era tomado por notícias e redações televisionadas agora leva a um novo formato de vídeos para plataformas digitais.

Em vez de apurar diretamente em veículos e fontes primárias, os atuais eleitores consomem o que é impulsionado nas páginas iniciais e recomendações de algoritmos. Isso faz com que não haja pluralidade na exibição de novos conceitos, ou seja, fecha as portas para visões divergentes, moldando a ideologia do usuário dentro de uma bolha.

O fluxo constante de vídeos e debates que tomam o feed agora dita quais nomes e pautas ganham visibilidade. O jovem estudante de economia, Arthur Cavalcanti, 19 anos, vai votar pela primeira vez e relata que perdeu o hábito de aprofundar o conhecimento político pelos conteúdos que aparecem em suas redes sociais.

“Hoje eu vejo que as redes sociais têm cada vez mais influenciado minha opinião política. Não tenho a vontade de investigar em outras fontes que estão além da plataforma”, comenta o entrevistado.

Essa mudança não é um caso isolado: dados da pesquisa Genial/Quest revelam que as mídias sociais são a principal fonte de informação política para 38% dos brasileiros. Essa migração trouxe uma alteração na forma como o conteúdo chega ao público: a busca por notícias se transformou em um consumo passivo, fortemente guiado por algoritmos de recomendação e impulsionamento pago. Se no passado a disputa pelo voto começava nos panfletos distribuídos pelas ruas, hoje ela se dá pela criação de conteúdo digital com o propósito de chamar atenção a qualquer custo, nem sempre priorizando a qualidade da informação transmitida.

O eleitor antes do digital

A internet nem sempre foi o principal caminho da política brasileira. Antes das mídias sociais se tornarem recorrentes na vida do cidadão brasileiro, a informação de importância pública era obtida por meio de canais físicos e analógicos, tais como rádio, jornal impresso, panfletos políticos e, ainda muito utilizada atualmente, a televisão. Mesmo não existindo alternativas tão fáceis como o meio digital no passado, isso não impedia o eleitor de buscar por informações.

Um exemplo disso é a professora Magaly, que viveu a época da ditadura militar, desde aquele período nunca deixou de ser engajada politicamente. “Tudo era combinado por panfleto. A gente não tinha celular, a gente não tinha internet, e dava tudo certo”, relatou ela sobre a organização de atos políticos em uma época com menos disponibilidade de recursos tecnológicos.

Apesar de poderem buscar os dados políticos pelos meios citados, ela explica os problemas que as antigas opções de pesquisa geravam entre os eleitores:

“Como a gente ainda tinha ditadura, não se publicava nada, era disponível apenas o que eles queriam que se publicasse. Hoje você tem mais variedade de instrumentos para pesquisar”, diz Magaly

É inegável, para a professora, como as mudanças facilitaram que o leitor acompanhe os acontecimentos dentro da política, em tempo real e de várias perspectivas. Ela afirma que hoje em dia é possível pesquisar a circulação de notícias sobre projetos e informações de políticos e verificar a veracidade do que é divulgado.

Segundo Magaly, no passado, o eleitor acabava mais dependente do que era declarado pelos grandes veículos, numa quantidade muito menor comparada ao padrão da imprensa atual. Era possível antes da internet obter informações políticas, mas as mudanças atuais contribuíram para a democratização do cenário partidário nacional.

A política em novos espaços

A transição para o digital fez com que políticos adaptassem a logística de suas campanhas. O investimento que antes era feito em comitês presenciais, equipes e passeatas, hoje, é destinado às equipes de marketing digital, social media e tráfego pago.

Esse novo cenário eleitoral permite que os políticos fragmentem sua imagem, alcançando diferentes grupos sociais através da internet. Os discursos que antes eram feitos para a massa da população, abordando temas como salário mínimo, segurança pública e saúde, hoje, se ampliam, com propostas sobre inclusão, violência contra a mulher, saúde mental e proteção digital. Esse fenômeno ocorre através das ferramentas digitais, que permitem campanhas mais segmentadas e direcionadas, exigindo estratégias de comunicação e narrativas compatíveis com o público que é desejado atingir.

O cientista político Aldo Fornazieri, Doutor em Ciência Política pela USP, afirma que outros fatores também contribuíram para a mudança logística das campanhas eleitorais, como a implementação da Lei Cidade Limpa em São Paulo (nº 14.223/06), que apresenta limitações às propagandas políticas no município, como a distribuição de panfletos e santinhos, a instalação de toldos e carros de som.

“A panfletagem geral de rua que se tinha antigamente não funciona mais. A internet tornou-se um instrumento muito mais eficaz, ágil e barato para fazer campanha.” complementa Aldo

O uso das redes sociais como principal ferramenta para as propagandas políticas permite que o acesso às propostas políticas alcance um público maior que as propagandas feitas fisicamente, democratizando o contato com as propostas eleitorais.

Entretanto, quando a publicidade se mistura com o algoritmo, é mais favorável à criação de bolhas fechadas que estimulam o individualismo e a opinião política do eleitor, ao invés da disseminação de informações e notícias de diversos políticos e partidos.

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Os novos caminhos do eleitor

A mudança no consumo de informação política também alterou a relação entre candidatos e eleitores. Se antes a comunicação dependia de meios como panfletos, rádio e televisão, as redes sociais permitem que políticos falem diretamente com públicos específicos e adaptem suas mensagens de acordo com os interesses de cada grupo.

Segundo Aldo, as campanhas passaram a utilizar pesquisas e ferramentas da internet para direcionar conteúdos a diferentes segmentos. Para o eleitor, a variedade de fontes facilita o contato com propostas, projetos e posicionamentos. A pesquisa, porém, divide espaço com um novo comportamento, em vez de procurar pela notícia o usuário muitas vezes recebe o conteúdo enquanto navega pelas plataformas.

A facilidade de acesso convive com o excesso de informação. O mesmo ambiente que permite consultar diferentes fontes em poucos segundos também favorece a circulação de conteúdos falsos e de informações apresentadas de forma superficial.

A disputa política passa a atenção por vídeos curtos e chamativos, mais fáceis de se compartilhar ganham espaço. Para Aldo, “há muita superficialidade no debate virtual”, o que pode reduzir a reflexão crítica no processo de decisão do voto. Nesse cenário, o comportamento do eleitor também muda de acordo com a forma como a informação chega até ele e com aquilo que é selecionado para aparecer em seu feed.

Esse comportamento aparece principalmente entre os jovens eleitores. De acordo com a pesquisa tvpontanegrarn de agosto de 2026, 52% dos brasileiros de 16 a 34 anos apontaram as redes sociais como principal fonte de informação sobre a política do país, com a televisão vindo logo em seguida com 20%.

As plataformas digitais como principal fonte de busca por informação trazem novos desafios para o processo eleitoral. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece medidas específicas para combater a desinformação e determina que conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial sejam identificados nas propagandas eleitorais.

A organização das campanhas também acompanha esse novo ritmo. Segundo Aldo, “há um nítido deslocamento da rua para a rede”, com candidatos priorizando investimentos em influenciadores digitais e profissionais especializados no funcionamento da internet. Um exemplo disso foi a campanha de Pablo Marçal à Prefeitura de São Paulo, em 2024. Conhecido por sua atuação como influenciador, ele já possuía mais de 12 milhões de seguidores no Instagram antes das eleições, transformando sua audiência nas redes em campanha política. A panfletagem que antes buscava alcançar grandes públicos na rua tem que dividir espaço com estratégias mais direcionadas.

Entre algoritmos, diferentes plataformas e novas estratégias de campanha, o acesso à informação passou a acontecer em um ritmo mais rápido. O público encontra mais possibilidades para acompanhar o debate e comparar informações, mas também precisa lidar com formas distintas de direcionamento. A relação entre campanhas e a sociedade, que antes dependia principalmente dos meios tradicionais, agora acontece dentro das telas e das mídias sociais.

Editado por Mariana Lima

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