Envelhecer ou acolher: o dilema que a Europa não quer enfrentar

Envelhecer ou acolher: o dilema que a Europa não quer enfrentar

Por Júlia Duarte e Julia Padua : setembro 30, 2026

Manifestações por direitos de imigração/ Imagem: Pexels

A queda do crescimento populacional na Europa e a hesitação em abrir portas para imigrantes.

Em 2024, a taxa de fecundidade na União Europeia caiu para 1,34 filho por mulher, bem abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável sem migração, segundo a ONU.

A própria Comissão Europeia já admitiu, pela voz da comissária Dubravka Suíça, que “a migração é uma necessidade”, mas é também, cada vez mais, um tabu político.

A ascensão da extrema direita pelo globo desafia cada vez mais a paz dos imigrantes, uma vez que a Europa que precisa de gente nova é a mesma que trava suas portas, e a recente vitória do partido AfD (Alternativa para a Alemanha) na Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, é o exemplo claro disso.

O partido possui uma forte retórica anti-imigração. Seus líderes falam, inclusive, de adotar políticas de “remigração”, ou seja, de mandar os estrangeiros de volta para seus países de origem. Eis o paradoxo: como um continente que depende da imigração pode ser o mesmo que tenta expulsá-la?

Os trabalhadores estrangeiros representavam apenas 8% da força de trabalho em 2021, mas foram responsáveis por mais da metade do crescimento do mercado laboral nos últimos quatro anos, adicionando 4,2 milhões de novos trabalhadores, chegando a quase 10% da força de trabalho em 2025.

O continente mais velho do mundo

O declínio populacional e o envelhecimento da mão de obra presente na Europa, levantam alertas sobre o futuro econômico do país. De acordo com o relatório sueco, “Perceived Relational Diversity: Moving Beyond Demographic Attributes”,  aproximadamente quatro indivíduos em idade ativa sustentam uma pessoa com mais de 65 anos. Antes de 2050, essa proporção será de apenas dois para um.

europa

Pirâmide etária da Europa – 2026/ fonte: PopulationPyramid.net
PopulationPyramid.net

europa

Projeção da pirâmide etária da Europa-2050 /fonte: PopulationPyramid.net
PopulationPyramid.net

Segundo o relatório citado anteriormente, os cidadãos da União Europeia têm, em média, uma expectativa de vida de 75 anos para homens e de 82 anos para mulheres, e os números não param de aumentar. Esse crescimento, no entanto, é acompanhado pela baixa nas taxas de fertilidade. “Hoje quase todas as sociedades da Europa Ocidental e Central têm menos de dois filhos por família”, indica o estudo sueco.

Esse paradoxo faz com que os governos europeus invistam em políticas de incentivo à natalidade e capacitação dos trabalhadores para as transformações da modernidade.

Porém, sem grandes resultados evidentes e diante da urgência da implementação de novos trabalhadores no mercado, o relatório aponta para a necessidade do engajamento com a imigração de mão de obra qualificada.

A rejeição aos estrangeiros

A própria União Europeia reconhece que precisa de trabalhadores estrangeiros. Em junho de 2026, a Comissão Europeia afirmou que a força de trabalho europeia enfrenta escassez em razão das mudanças demográficas e que a economia da União depende cada vez mais de trabalhadores de fora da UE.

Apesar da solução parecer lógica, a xenofobia dentro da Europa é um dos principais fatores para que a questão do envelhecimento populacional se torne algo ainda mais desafiador.

Um levantamento da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia mostra a dimensão do problema: 45% das pessoas de ascendência africana entrevistadas relataram ter sofrido discriminação racial nos cinco anos anteriores à pesquisa. 34% nos últimos 12 meses, o que indica que a realidade não se trata de episódios isolados. A situação demonstra gravidade à medida  que apenas 9% das vítimas haviam denunciado ou apresentado reclamação no ano anterior.

Esses dados revelam que a discriminação no continente, ainda que considerada crime, funciona como uma barreira à inserção dos imigrantes na sociedade, afastando-os do sentimento de pertencimento, da possibilidade de contribuir com o trabalho e da chance de reconstruir uma nova vida.

Nesse contexto, os estrangeiros precisam se proteger judicialmente e emocionalmente diante dos ataques e riscos enfrentados. Em entrevista para o Esquinas, a advogada pós-graduada em Direito Internacional e Mobilidade Global, Rita Silva, compartilhou a tríade que considera fundamental para a mobilidade internacional dos imigrantes na Europa: segurança jurídica, segurança financeira e segurança emocional.

“A segurança jurídica envolve a legalização do processo migratório, o qual considera a forma como o indivíduo entra, trabalha e reside no país estrangeiro. A segurança financeira trata da forma como aquele imigrante pretende se sustentar financeiramente, considerando tributação, custo de vida e previdência social. Por último, a segurança emocional aborda o enfrentamento das diferenças na cultura, idioma e, principalmente, no estabelecimento de novos relacionamentos, uma vez que a mudança também significa o distanciamento da família no Brasil”, segundo a Doutora

Para o futuro, a advogada ressalta que os imigrantes buscam a integração na sociedade europeia como sujeito de direitos, deveres e dignidade, o que ultrapassa as questões de fronteira ou demandas político-econômicas:

“Os acordos e tratados internacionais existem justamente porque os Estados compreenderam, há muito tempo, que as pessoas atravessam fronteiras, mas os seus direitos não podem simplesmente desaparecer na fronteira“, conclui ela

VEJA MAIS EM ESQUINAS

Ato de Sobrevivência: o aumento das barreiras migratórias diante do fluxo global de refugiados

Do Panfleto ao Algoritmo: a nova jornada do eleitor na busca por informações políticas

Geografia da Imunidade: Como o surto de Ebola na África evidencia a desigualdade humanitária do continente

A realidade de quem vive na pele

Mas, como os imigrantes se sentem?

O engenheiro, macroeconomista e imigrante iraniano, Beny Fard, trouxe sua análise de que “o problema não é a imigração, é a falta de integração do imigrante”.

Fard fala com autoridade, porque já viveu os dois lados da equação. Muçulmano nascido no Irã, chegou ao Brasil em 1987 ainda criança, em uma época em que praticamente não existiam políticas públicas de acolhimento a refugiados. Quem cumpriu esse papel foi a comunidade libanesa de São Paulo, que o recebeu “de braços abertos”:

“Na falta do Estado nos acolher eventualmente ou nos apoiar, a comunidade local sino-libanesa, que comunga da mesma religião, os muçulmanos, nos acolheu super bem, e ali a gente teve o nosso ponto de partida para construir uma vida nova” , relembrou o entrevistado

As políticas de integração são a chave para um mundo seguro para imigrantes, e a boa notícia é que na Europa isso vem melhorando aos poucos. Segundo o Eurostat, em 2022 a taxa de emprego da população ativa da UE foi maior para os cidadãos da UE (77,1%) do que para os estrangeiros (61,9%) além do fato que em Portugal, a taxa de desemprego dos imigrantes de fora do bloco era mais do dobro da média nacional (14,3% vs 6,1%). Porém, a  taxa de emprego de imigrantes na UE atingiu um recorde histórico em 2025: 68,2%.

Mas o que, na prática, significa “política de integração”? Segundo a Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, os pilares centrais desses programas são educação inclusiva, participação no mercado de trabalho e aprendizado de idioma. Países como Holanda, França e Alemanha, por exemplo, adotam cursos cívicos obrigatórios para recém-chegados, que combinam ensino de idioma com noções de direitos, deveres e funcionamento das instituições locais.

Além disso, existem os problemas no meio desse percurso: a rejeição da população europeia aos imigrantes vem crescendo, e esse sentimento anti-imigração é alimentado por eventos geopolíticos, pela incerteza econômica e pelo avanço de movimentos populistas. Além disso, a mídia amplifica a percepção do imigrante como concorrente por vagas de trabalho e recursos, uma leitura que se sustenta independentemente do que os números de emprego realmente mostram.

O resultado desse ciclo é um efeito cascata que Fard descreve com precisão: sem acolhimento real, o isolamento se aprofunda:

“Quanto mais distante é o acolhimento franco, verdadeiro, mais os imigrantes se fecham em guetos e mais você tem a exploração desse tema por políticos.” aponta Fard

A discriminação no mercado imobiliário, a disparidade socioeconômica e a preferência dos próprios nativos por viver longe de quem é diferente aparecem, na literatura acadêmica, como causas tão relevantes quanto qualquer ausência de política pública.

Em outras palavras: o gueto não nasce apenas de quem chega, mas também da forma como quem já está ali decide recebê-lo (ou não).

É nesse ponto que a fala de Fard ganha um peso maior do que a de um analista distante desse problema, uma vez que ele mesmo atravessou esse abismo entre chegar e pertencer a um lugar, e sabe que a diferença entre as duas coisas raramente depende só do imigrante: “Você precisa mais do que nunca de uma rede de apoio lá naquele local, que pode ser de uma comunidade, de uma política pública, do trabalho, ou até da cultura”, resume.

A Europa hoje se vê diante de uma equação sem solução simples: precisa de mãos que sustentem sua economia envelhecida, mas hesita em abrir espaço, de fato, para quem a quem essas mãos pertencem. Enquanto o continente adia essa escolha, entre envelhecer sozinho ou acolher de verdade, o relógio demográfico segue correndo, e com ele, o tempo de decidir que tipo de Europa as próximas gerações vão herdar.

Editado por Mariana Lima

Encontrou algum erro? Avise-nos.