A corrente como missão - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A corrente como missão

Por Henrique Artuni : maio 8, 2019

Já passava das 11h quando a rotina do “Bom dia!” foi rompida. Naquela manhã, até então, eu não havia recebido nenhuma imagem de flores, bebês, corações, praias, chocolate, pandas, terços, abelhas ou formigas antropomórficas.

Naquele início de sexta-feira, nenhuma montagem em baixa resolução – que provavelmente circula na internet desde o começo do século – havia sido resgatada do Google Imagens.

Certamente, naquele dia, vários bordões espirituosos já haviam lotado o WhatsApp de minha mãe, assim como vários senhores e senhoras de todo o Brasil já haviam se unido na pregação diária que, nos termos “bom dia frases”, soma para o Google quase cem mil pesquisas mensais. Esse número não equivale ao montante de boas almas em busca da melhor mensagem matutina: a procura pelas palavras “bom dia amor” e “bom dia meu amor” atingem a cifra campeã de um milhão de buscas por mês. Há ainda alta procura por “mensagem bom dia”, “imagem bom dia”, “bom dia especial”, “bom dia amor whatsapp”, além, é claro, da fórmula mais sintética: “bom dia”.

Por alguma façanha do destino – ou mera desatenção (hipótese mais provável) –, naquela ocasião, minha mãe havia escapado dessa prática que insiste rimar “manhã” e “bom humor”. Não que, na hora, eu houvesse sentido essa ausência.

Mas as horas seguiram… E o dia, ainda que bom, é sempre impiedoso.

Às 11h18 uma nova mensagem chegou, preto sobre branco, em um extenso balão. Era uma corrente, dessas que pulam de grupo em grupo, de tia para vô, de cunhado para nora, aflorando ânimo, preocupação e vergonha alheia.

Qual não foi a minha surpresa de encontrar, nesse alarme ingênuo, uma poesia do mais alto calibre que poderia repousar, ao lado da história do Lazarillo de Tormes, como uma obra-prima de autoria anônima. Segue na íntegra, na formatação original:

A L E R T A    G E R A L

Lá no “Assaí”, alguém me ofereceu um “folheto de teste”, mas eu estava com pressa e recusei de cheirar…, mas, foi um “livramento” da graça de Deus!
Agora, preste bem ATENÇÃO nas pessoas no Brasil:
Se alguém te “parar” em alguns estacionamentos, como vê aqui abaixo:
No Extra, no
Assai, no
Makro, no
Walmart, no
Carrefour, no
Atacadão, no
Americanas, nos
Shoppings e nas esquinas em geral . . ., te
oferecendo na plaqueta de papel, o tal de  “perfume” para cheirar…, NÃO CHEIRE !!
Pois é um NOVO golpe; e a NOVA forma de dar um laço para  roubar !!
O papel está preparado com “droga sonífera”,
que te fará ‘desmaiar’; e logo aproveita por sua vez,
eles “roubam”,
“sequestram”,
“estupram”, “injetam” para esquecer de tudo o que aconteceu! E ainda fazem outras coisas piores com a sua vida !!
São “papéis iguais” como
das lojas de perfumarias. Mas,
NÃO ACEITEM!
Encaminhe e passe essas mensagens  para seus amigos e à todos  familiares.
SALVE UMA VIDA!
Mensagem recebida do DEPARTAMENTO de POLÍCIA.
Estamos vivendo nos tempos difíceis, onde o conhecimento e a informação é a melhor proteção para toda humanidade!”

Não pude deixar de lembrar, apesar de já ser fato morto para a História do País, dos áudios de Gustavo Bebianno, secretário-geral de Bolsonaro até fevereiro de 2019, ao seu capitão. Nessas declarações, que vazaram à época para a imprensa, Bebianno e sua interminável sequência de apostos lembrou à moda da balbúrdia tupiniquim os famosos versos de Walt Whitman: “Ó Capitão! meu Capitão! Finda é a temível jornada,/ Vencida cada tormenta, a busca foi laureada”. Arrisco-me a formatar um trecho de seu discurso:

Capitão,
há várias formas de se falar.
Nós trocamos mensagens ontem
três vezes ao longo do dia,
capitão.
Falamos da questão do institucional do Globo.
Falamos da questão da viagem.
Falamos por escrito,
capitão.
Qual a relevância disso,
capitão?
Capitão,
as coisas precisam ser analisadas de outra forma.”

Da mesma forma, o “A L E R T A    G E R A L” disparado pela vítima não vitimada do “NOVO golpe” trouxe de volta uns versinhos de Manuel Bandeira, conhecidos na época do colégio:

“Teresa, se algum sujeito
bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA.”

Por acaso, essa composição do autor de Libertinagem foi feita como tradução modernista de uma poesia de Joaquim Manuel de Macedo, Adeus Teresa:

“Mulher, Irmã, escuta-me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são gotas da mentira
E o juramento manto da perfídia.”

Naquele dia chegava para mim não uma imagem qualquer, mas uma tataraneta do Romantismo brasileiro. Explico.

No começo de “A L E R T A    G E R A L”, há um claro esforço de se aproximar do destinatário pela informalidade do cotidiano, nomeando um supermercado popular (“Lá no ‘Assaí’”) e a situação corriqueira da pressa.

Com sorte, o eu-lírico escapou da cilada! Percebemos que não se trata de um cidadão sem cultura. Um malandro, não um mané. Sabe, por providência, que os golpistas que estão espalhados pelos estacionamentos de todas as grandes lojas estão tramando algo NOVO – tempos de partidos novos, nova política… –, mas nada NOVO o suficiente para enganar esse macaco velho.

Perceba também como a listagem das marcas é feita como uma estacada, de maneira tão abrupta que o conectivo “no” sempre fica no verso anterior. Ou ainda a profusão de aspas e letras maiúsculas, dando destaque aos pesadelos urbanos: o roubo, o sequestro, o estupro, a droga, os “papéis iguais”. E coisas piores! E, no final, você que foi golpeado nem saberá. Tudo desemboca na miséria e no esquecimento.

A você, hipócrita leitor, fica o aviso. Não aceite!

Recebida a dádiva da informação, resta a tarefa de converter: “Encaminhe e passe essas mensagens  para seus amigos e à todos  familiares”. E pode confiar: não é a apenas a voz de uma vítima que escapou por pouco, essa mensagem tem autoridade, foi recebida do “DEPARTAMENTO de POLÍCIA”.

Sinta-se orgulhoso! Por que não começar o dia espalhando essa mensagem que só fará bem ao mundo? Estamos vivendo nos tempos difíceis…