Entretenimento televisivo na pandemia: Válvula de escape ou distração viciante? - Revista Esquinas

Entretenimento televisivo na pandemia: Válvula de escape ou distração viciante?

Por João Pedro Acra Peracini, aluno do projeto Redação Aberta #1* : maio 28, 2021

Consumir conteúdo de entretenimento significa mais diversão para manter equilíbrio emocional; mas só até o episódio dois

Apreensão, angústia, inquietação, insônia, desânimo. Esses são alguns sentimentos que passaram a conviver com os brasileiros desde março de 2020. Estudos da Fiocruz, em parceria com a Unicamp e UFMG mostram que 52,6% dos entrevistados já experimentaram sensações de ansiedade. O entretenimento, nesse sentido, aparece como válvula de escape para aliviar os sintomas.

Para Raquel Torres Ignoto, psicóloga com formação em Transtorno do Controle do Impulso, o isolamento social contribuiu para agravar os sintomas de depressão e ansiedade nos cidadãos: “De uma hora para a outra, perdemos nosso ‘mundo presumido’. Tudo o que era conhecido mudou, as pessoas precisaram achar novas formas de se relacionar. Houve perda de experiências presenciais e a falta de contato social pode ter como consequência sentimentos de solidão e entristecimento”.

Aliado a isso, o trabalho se torna cada vez mais maçante. Para a Doutora em história e jornalista formada na Faculdade Cásper Líbero, Fabiana Beltramim, o home office fez cada um se tornar seu próprio chefe na maior parte do tempo. Por isso, muitos trabalhadores são levados à exaustão, gerando a chamada síndrome do burnout. Ela também afirma: “É necessário estabelecer limites e criar uma postura individual para entender que precisamos de descanso. Agora, o tempo todo é tempo do trabalho. Isso não é saudável”.

Entretenimento para alcançar o equilíbrio emocional

Para buscar a estabilidade mental, Raquel destaca o lazer como um tópico importante. Para ela, o consumo de entretenimento é uma boa atividade para ocupar o tempo. “Ajuda muito [a se ocupar] de um modo geral. Assim como livros e exercício físico”.

Foi observado que os brasileiros tendem a buscar em programas de TV sua dose de lazer. Enquanto por um lado há o fechamento de diversas livrarias renomadas e uma queda na prática de esportes (dados da FAPESP mostram que 18% da população fisicamente ativa deixou de se exercitar), por outro há um aumento médio diário de 1 hora e 45 minutos de consumo de TV.

Regina Fagundes, 67 anos, é exemplo disso. A aposentada afirma que com a pandemia, o entretenimento foi uma das saídas encontradas para ficar mentalmente saudável: “Isso me distrai, vejo como uma grande oportunidade de não pensar muito nos vários problemas que enfrentamos.  Agora inclusive aprendi a alugar filmes e mexer na Netflix, isso com certeza contribuiu para enfrentar esse difícil período de isolamento”.

O outro lado da tela

Embora importante, esse consumo deve ter limites. O pedagogo e professor de filosofia e sociologia Fábio Cavalcante vê problemas quando o entretenimento deixa de ser um passatempo. Segundo ele, alguns reality shows afloram o desejo das pessoas de se esquecerem dos problemas da vida real: “Se assistidos demais, esses programas se tornam anestésicos para a consciência, tanto da que pensa quanto da que sente”.

Já Eudóxia Astrath, psicóloga especializada em terapia familiar pela PUC-SP, alerta para consequências de exagerar no período que passamos na frente da televisão. “Ficar ‘maratonando’ séries, por exemplo, muitas vezes pode se tornar algo prejudicial, já que gera uma sensação de demora para pegar no sono. Dar muita atenção para uma tela de TV ou de celular te deixa indisposto e no dia seguinte você vai demorar mais para ‘pegar no tranco’ das atividades”, diz. A especialista completa: “O entretenimento é vantajoso desde que você tenha a noção de que o tempo que você está dedicando para aquilo não pode gerar estresse. Curta o momento com moderação”.

Além das potenciais consequências citadas pela psicóloga, pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, estimaram que a cada hora diária que passamos sentados assistindo à televisão, o risco de ter diabetes aumenta em até 3,4%. Essa forma de se distrair possui vantagens e desvantagens e procurar balanceá-la com outras mais saudáveis é “o X da questão”.

O show da vida

Para muitos, as vantagens do entretenimento não se resumem a uma forma de lazer. Eudóxia afirma que reality shows ajudam alguns de seus pacientes: “Falamos toda hora sobre o BBB. Juliette, Gil, Karol, Projota. Alguns pacientes se identificam com os participantes e se espelham neles. Quando uma pessoa está falando sobre outra, muitas vezes ela também está falando de si mesma”.

entretenimento

“Há um tempo, eu diria que reality shows são uma futilidade. Hoje, eu ressignifiquei a relevância deles e assim ampliei a forma de escutar o outro”, afirma a psicóloga.

Já a historiadora Fabiana vê nos programas uma oportunidade de compreender a sociedade. “Existe uma relevância em reality shows. Muitas vezes, ao acompanhá-los, você consegue saber o que o Brasil está pensando, sentindo. Acho muito interessante a gente assistir o BBB com um olhar crítico. Entender o que faz um participante ficar na casa, ser eliminado e até ser ‘cancelado’ mostra muito do pensamento coletivo. É preciso entender o entretenimento para entender a cultura de massas”.

*Redação Aberta é um projeto destinado a apresentar o jornalismo na prática a estudantes do ensino médio e vestibulandos. A iniciativa inclui duas semanas de oficinas teóricas e práticas sobre a profissão. A primeira edição ocorreu entre 17 e 28 de maio. O texto que você acabou de ler foi escrito por um dos participantes, sob a supervisão dos monitores do núcleo editorial e de professores de jornalismo da Cásper Líbero.

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