Eu escolhi esperar o meu tempo - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Eu escolhi esperar o meu tempo

Por Deborah Kovesi, Helena Rinaldi, Isabela Thurmann, Isabella Tagliapietra e Letícia Rodrigues : abril 2, 2019

Mitos e erros relacionados a virgindade. O que é certo e o que é errado na primeira vez?

Ano vai, ano vem, e o sexo e as questões envolvidas por ele – como virgindade, gênero, sexualidade e prazer –, continuam sendo grandes tabus. Para desconstruir esses conceitos e ajudar a desmistificá-los, listamos os principais medos e inseguranças, descobertos a partir de uma pesquisa feita com 1872 pessoas, que muitos jovens têm quando se trata da tão falada “Primeira Vez”. Confira:

Quando sei que realmente perdi a virgindade?

Em primeiro lugar, precisamos nos fazer a pergunta proposta pela sexóloga Bruna Zimmermann: “o que seria virgindade? Romper o hímen? Mas e o sexo oral e o anal?”. A verdade é que o sexo vai muito além da penetração. É bem complicado falar o que é virgindade, afinal, na nossa cultura machista muitas vezes a definição é romper o hímen. Mas e o homem? Quando ele sabe que não é mais virgem? E as mulheres que só têm relações sexuais homoafetivas? Relacionar a virgindade diretamente com o rompimento do hímen é, além de tudo, um conceito totalmente heteronormativo.

Nem mesmo biologicamente essa lógica faz sentido algum. á que o famigerado “hímen” nem sempre se rompe, pois existem vários formatos que impedem generalizações. Outro ponto importante é o fato de que o ato de transar é composto por momentos e práticas diversas que, juntos, constroem o que realmente é essa relação íntima.

Preciso esperar pela ‘pessoa iluminada’?

De acordo com o que ouve de seus pacientes, a psicóloga e sexóloga Ana Canosa acredita que a maioria das pessoas ainda prefere ter sua iniciação com uma pessoa conhecida, com alguém que tenha alguma relação afetiva, seja de amizade ou de compromisso. Já Bruna Zimmermann e a sexóloga Thais Plaza opinam que a situação se difere para homens e mulheres. As mulheres, por crescerem em meio a uma cultura de precisarem ser recatadas, se apoiam na ideia de achar alguém que confie para serem mais compreendidas.

Além disso, por terem medo de não serem boas no sexo elas muitas vezes acabam recorrendo à amigos que possam “ensiná-las” na “broderagem”, ou acabam idealizando o príncipe encantado e terceirizando seu prazer, colocando todas as suas expectativas em cima daquela pessoa. No caso dos homens, muitos mais impacientes nesse sentido, podem acabar perdendo a virgindade com ‘qualquer uma’, inclusive se envolvendo com prostituição. A menina vai para o lado da repressão e menino da pressão, do excesso.

Preciso amar a pessoa?

“Não necessariamente. Mas é importante que haja um sentimento de afeto, de responsabilidade, respeito e cuidado entre os envolvidos”, opina Canosa. Ao contrário do que parece ser o senso comum, sentimentos não se limitam ao amor. Existe essa ideia que mulher faz amor e homem transa, mas isso é uma coisa machista de se pensar. “A sexualidade é quase uma coisa sagrada, viver uma experiência sexual tem que ter sentimento, você tem que viver o seu corpo, mas isso não significa que não se pode ter sexo casual ou sair transando por aí. Sempre envolve sentimento que é, em primeiro lugar, com você mesmo”, explica Zimmermann. Para a sexóloga não tem como dissociar sexo de afetividade – alguém que vive sua sexualidade é uma pessoa empoderada e isso envolve sentimentos.

Dói?

Como qualquer outra sensação, a dor é relativa e única para cada pessoa. A penetração pode acabar sendo dolorosa para alguns por causa da tensão e, para certas meninas, por causa do rompimento do hímen. O importante é estar o mais confortável que conseguir com a situação para que ela seja o mais prazerosa possível.

E se eu não gozar? E se a outra pessoa não gozar?

Thais Plaza diz que, geralmente, as meninas acabam tendo uma dificuldade maior para perder a virgindade, por conta da educação mais severa que elas recebem e os medos do que pode acontecer com ela durante a relação, por causa do próprio medo do desempenho. “Por não ter com quem conversar e compartilhar esses medos muitas meninas acabam postergando isso para um momento em que se sintam mais seguras”, explica. A primeira vez pode não ser tão boa, mas é ela que abre um universo de possibilidades para experiências incríveis. É legal você contar com alguém, uma amiga uma mãe ou até mesmo uma terapeuta, para que você possa trabalhar com as expectativas e ansiedades. Quanto mais ansiosa você vai para a cama com essas experiências, mais frustrante ela pode ser.

Preciso contar para os meus pais?

Saber que se pode contar com o apoio de alguém pode melhorar a experiência. Canosa alega que já há medo e insegurança envolvidos na iniciação sexual e que quando os adolescentes podem falar sobre o assunto, tirar dúvidas, compartilhar a experiência, sentem-se amparados e sem culpa. Zimmermann opina que é muito importante se falar de sexualidade, sexo e os limites do corpo com os pais e argumenta que as coisas, como a própria pornografia, vão continuar ao acesso dos adolescentes. “É como um jogo de videogame, você vai criando esse comportamento de contar as pequenas coisas e mudando de fase – preparando seu pai ou mãe para receber a notícia e se preparando para contar”, aconselha Plaza sobre maneiras de criar uma relação aberta de confiança. A falta de diálogo pode fazer com que a experiência se torne traumática

Zimmermann acrescenta ainda que a educação sexual não deve ser apenas dentro de casa, mas também dentro das escolas, desde cedo. “Sempre me questionam se eu quero ensinar sexo para uma criancinha, mas não é a questão do sexo, e sim a da sexualidade, de aprender o que seu corpo faz”. É preciso conversar sobre isso, e isso é sexualidade.

Ele não quer colocar a camisinha, e agora?

A camisinha é sim um direito seu. Ela não serve somente para diminuir o risco de gravidez, mas também para proteger tanto você quanto seu parceiro de doenças sexualmente transmissíveis. Por isso, é importante que, mesmo sendo com uma pessoa que você confie, você se proteja.

Religião X Sexualidade

De um lado a religião funciona para normatizar valores: o que é certo, o que é errado, bom ou ruim. Ela pensa o ser humano em comunidade, no desenvolvimento da pessoa e em sua relação com as demais, em prol de um bem comum. Canosa entende que há muitos preceitos que também envolvem o exercício da sexualidade. Então, é difícil que as religiões não opinem sobre o assunto, mas que, por outro lado, há muitas regras que funcionam de maneira estrita e desigual, e que não leva em conta os avanços sociais, nem as escolhas individuais. “O que parece inequívoco é o quanto uma pressão que se coloque diante do natural pode ser catastrófica para os indivíduos, que começam a sentir-se culpados por terem desejos absolutamente saudáveis. Isso complica a escolha: eu faço ou não algo porque acredito nesse preceito ou porque minha religião manda?”.

Zimmermann alega que a religião influencia completamente a maioria de seus pacientes com alguma disfunção ou transtorno sexual – seja a religião deles próprios ou do resto de sua família. Essa questão também depende muito do viés que é colocado para o assunto, se as pessoas vão seguir ao “pé da letra” ou adaptar aos valores de hoje. “A sexualidade é uma coisa muito natural, a gente é puro corpo. Precisamos ter essa descarga da sexualidade, seja pela masturbação ou pelo sexo. É uma coisa natural que independe da religião”, explica a sexóloga. A religião é uma “verdade” que é colocada através da fé, se ela faz sentido para a pessoa e ela a vive de uma forma natural, como uma escolha, e não traz nenhum sofrimento, não tem porque um interferir no outro. “Não pode ter alguém sofrendo. Tem que ter a cumplicidade – a religião e a fé são escolhas”, completa.

Existe momento certo?

Tudo o que se fala sobre o momento certo de perder a virgindade é absolutamente teórico e ideal. Podemos citar alguns fatores a serem levados em conta: a pessoa ter confiança emocional no parceiro, ter vontade (e não para satisfazer o outro ou por pressão), que seja realizado em algum local confortável e “seguro”, evitar o uso de álcool ou drogas e usar algum método contraceptivo e camisinha. “Mas certamente nem sempre a iniciação sexual acontece assim”, confirma Canosa. Por isso que é importante falar sobre sexualidade, para que as pessoas tenham consciência de como fazer sexo de maneira prazerosa e responsável. “Acho que avançamos bastante nos últimos anos, mas ainda há um duplo padrão moral, baseado no gênero”, opina Canosa.

Para Zimmermann o momento certo é, na verdade, quando chega o tesão. “A educação sexual da mulher é reprimida e a do menino é muito mais incentivada. Não existe um momento certo, o momento é quando aquele jovem sente vontade e a segurança de falar que quer e deseja outra pessoa”. O que existe, entretanto, é o momento errado, que é quando a outra pessoa decide que é o momento certo por você.

Preciso conhecer meu corpo?

A menina desde cedo é ensinada a ser quietinha, não falar palavrão, a ser uma “menininha”. Essas coisas acabam inibindo um pouco a sua sexualidade. A menina é “podada” e isso tem muita influência. Zimmermann diz que as mulheres ainda hoje têm muita dificuldade de falar que se masturbam e de assumir suas preferências, o que acaba gerando até disfunções sexuais, porque na hora de se relacionar com alguém acaba sendo de “qualquer jeito”, porque elas não sabem o que gostam e não gostam.

E se eu tiver que recorrer ao lubrificante?

Muitas meninas se sentem inseguras por não estarem molhadas o bastante, como se isso, de alguma forma, seja algo de errado com elas. Elas acham que a falta de lubrificação é um problema, mas na verdade o lubrificante tem que ser usado sempre porque ele diminui o atrito e aumenta o prazer. “Principalmente na primeira vez, a menina vai para a cama com muitas dificuldades e essas dificuldades interferem na lubrificação”, afirma Thais Plaza.

O que os outros vão pensar de mim?

Em muitos casos, é a sociedade que dita a hora. É muito importante trabalhar com grupos de jovens para discutir a pressão social, que atropela os adolescentes e os faz ir para a relação não por escolha, mas para provarem-se a si mesmos e aos outros. Para o menino a maior pressão é a da lógica da masculinidade tóxica, que pressiona o homem sempre a transar, a não chorar, a bater, a ser agressivo. Já no caso das mulheres é a própria repressão, de ter que se guardar, ter que encontrar o cara certo, ter que perder a virgindade com um cara que a ame.

E depois?

Acima de tudo, o sexo tem que ser bom, por isso, não tenha medo de experimentar e vivenciar coisas diferentes. Mas claro, sempre respeitando suas vontades e seus limites. Da primeira vez para a frente só tende a melhorar, então, relaxa e goza!