Entre filhos, trabalho e pais idosos, mulheres enfrentam uma sobrecarga silenciosa que transforma afeto em exaustão
“A mulher, eu acho que por si só, já tem uma sobrecarga, né? Então, ela tem que trabalhar fora nos dias de hoje, aí tem os cuidados com a casa e, além disso, os cuidados com o filho e com a família, né? Então, a gente já sai de casa preocupada com as rotinas, se tá tudo certinho para não faltar nada”, comenta Aline Tironi, fisioterapeuta, que realiza a jornada de trabalhar fora, cuidar do filho e da mãe.
A NATURALIZAÇÃO DE UM PAPEL
Essa reflexão feita por Aline mostra que a mulher carrega um papel institucional de cuidado. Com o aumento da expectativa de vida, essa responsabilidade se torna cada vez mais comum na realidade de muitas mulheres, que se dividem entre cuidar dos filhos, da casa, do trabalho e dos pais idosos.
Desde a infância, muitas meninas são ensinadas a exercer funções ligadas ao acolhimento e à responsabilidade doméstica. Esse cuidado em tempo integral, sem apoio, para muitas mulheres, não acontece de forma livre, mas pressionada por uma exigência que associa o ato de cuidar ao papel feminino.
Em entrevista, o sociólogo Liráucio Girardi Jr. reflete sobre esse papel:
“No caso das mães e seus pais, na verdade elas são filhas. E é sobre essas filhas mulheres que recai o cuidado, sobrecarregando elas. […] Ainda mais se há irmãos homens, que normalmente não foram preparados para assumir esse cuidado.”
Essa divisão do cuidado vem mudando rapidamente pelo cenário de aceleração do individualismo. Em comparação, Liráucio apontou:
“Antes, o cuidado acabava sendo distribuído pela comunidade de algum modo. As mulheres tinham o apoio de vizinhas, tias, primas e amigas. Hoje, há um certo individualismo que faz você terceirizar esse cuidado.”
Essa terceirização do cuidado vem através de cuidadores, técnicos de enfermagem, casas de repouso, entre outras formas de lidar com uma jornada extra, mostrando uma sobrecarga na mulher, que já tinha a jornada de cuidado da casa, dos filhos e dos pais, além, claro, da jornada de trabalho.
JORNADA DE TRABALHO – IMPACTO
A jornada de trabalho no mundo feminino não chega como uma alternativa, mas como uma responsabilidade que a sociedade espera que a mulher carregue junto com o papel de cuidadora.
Com a necessidade de cuidar dos pais, muitas mulheres deixam de lado suas carreiras para conseguir mais tempo para cuidar de seus entes, perdendo uma renda que, muitas vezes, é crucial para custear os cuidados de um idoso, como consultas, exames e remédios, fazendo a mulher se sentir pressionada a escolher entre a carreira e o cuidado.
Esse é o caso de Camila Rocha, enfermeira que negou um cargo de técnica de enfermagem para conseguir cuidar da mãe em tempo integral. “Foi uma decisão extremamente difícil, afinal, o aumento que eu ganharia ajudaria muito nas contas. […] Mas eu não tenho coragem de deixar a minha mãe sozinha por muito tempo, ela precisa de mim.”
Com a escolha de cuidar de seus parentes, as mães enfrentam desafios para conseguir apoio e/ou auxílio financeiro da família e do governo.
Odeva Pinto, assistente social há 40 anos, descreve que a falta de auxílio impacta diretamente a qualidade de cuidado dessas mulheres, considerando que não existem políticas públicas que as ajudem.
“Eu já vi casos de mulheres que tiveram que deixar os pais sozinhos o dia inteiro porque tinham que trabalhar. Elas não tinham condições de pagar alguém para cuidar. […] A única lei que existe é o direito de acompanhante, mas esse acompanhante não tem nenhum direito garantido.”
Considerando que o cuidado com o idoso vai além das tarefas cotidianas, Kelen Cristina Mendes, que trabalha como cuidadora, demonstra certa preocupação com essa sobrecarga feminina. “O comportamento do idoso muda muito quando recebe diferentes tipos de cuidado. Então, a nossa prioridade é sempre garantir o melhor cuidado humanizado. Infelizmente, isso não acontece quando a mulher não está bem psicologicamente, dificultando tudo.”
A sobrecarga interfere no rendimento do trabalho feminino e nas relações pessoais com os pais cuidados, saindo de uma questão financeira para o emocional.
EMOCIONAL DA MULHER
A saúde mental feminina é afetada quando a mulher assume uma quantidade maior de trabalho do que seu corpo suporta, ficando dividida entre cuidar dos filhos e dos pais idosos ao mesmo tempo, o que as desgasta emocionalmente, somado à falta de apoio, ao julgamento social e às intensas comparações nas mídias sociais.
Com o peso de ter que aguentar mais de uma jornada em suas rotinas diárias, as mães passam a enfrentar desafios emocionais. A maioria costuma lidar com cansaço extremo, estresse e preocupação constantes e, pela falta de tempo para se cuidar, com um declínio em sua autoestima.
Em entrevista, Aline Tironi descreve a sua preocupação acerca de suas emoções, destacando seu cuidado em relação ao filho e à mãe:
“Eu sou extremamente preocupada. Quero resolver rápido as coisas e nem sempre é possível no tempo que eu tenho. […] Tem vezes que me sinto muito culpada por focar muito no trabalho e não perceber que meu filho e minha mãe precisavam da minha ajuda. Minha vida são eles.”
Além disso, a sobrecarga física e emocional gera conflitos psicológicos marcados por culpa, dúvida e pressão social. Em meio aos desafios simultâneos de cuidar dos filhos e dos pais já idosos, surge um questionamento sobre os limites do cuidado, levando a um “modo de sobrevivência”, mantendo essas mulheres em constante estado de alerta e preocupação.
Durante uma conversa sobre o psicológico dessas mulheres, a psicóloga Tatiana Zuccari comentou sobre os primeiros sintomas da sobrecarga:
“Assim como existe burnout no trabalho, existe um burnout doméstico. Então, primeiro tem um sintoma de exaustão, porque elas dormem menos. Às vezes, elas não se alimentam adequadamente porque têm que garantir a alimentação da criança e do idoso. E isso vai deteriorando a saúde mental e a saúde física também.”
Ela também comenta sobre mães que, com o tempo, passam a não enxergar outro objetivo de vida além de cuidar de seus familiares:
“Elas costumam ficar mais deprimidas porque, como estão nessa função apenas de cuidar, começam a perder um pouco desses objetivos próprios.”
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A RELAÇÃO COM OS PAIS
Quando a mulher cuida de seus pais, eles ainda estão em uma relação de parentalidade, um vínculo afetivo que pode mudar a forma como ambos se viam. Afinal, o idoso passa de uma figura que cuidava para uma figura vulnerável, que precisa de cuidado o tempo todo.
Podem surgir diferentes relações após o início dos cuidados, como a relação de Rosana Tiepo Arévalo com seu pai, Rubens Arévalo. Fonoaudióloga e mãe, Rosana mudou toda a sua rotina ao trazer o pai para morar com ela:
“Eu acho que foi um prazer enorme e uma oportunidade poder ter uma convivência com ele um pouco maior, porque eu tenho uma coisa assim de gratidão com os pais. Acho que eles me criaram e me deram tudo o que eu precisei, e agora essa retribuição é uma coisa bem natural para mim, e é muito gostoso ter ele por perto.”
Por outro lado, há casos como o de Adriana Martins com sua mãe, Ivanilde, em que o isolamento social gerado pela pandemia desgastou a relação, causando um peso emocional:
“Antes da pandemia, a nossa relação era boa, mas veio a covid e minha mãe veio morar com a gente. Ela ficou irritada com o isolamento e começou a atrapalhar os estudos da minha filha, que, por sua vez, ficou irritada. Então, eu tive que mediar muito a relação das duas, e isso desgastou meu relacionamento com minha mãe.”
Adriana também relatou que, após a quarentena, Ivanilde voltou a morar sozinha, fazendo com que o vínculo entre mãe e filha voltasse a melhorar. “Hoje em dia, a nossa relação é boa. Ela ainda não aceita que precisa de ajuda, mesmo estando quase cega, mas estamos levando na medida do possível”, comenta.
Não há como definir um padrão de relação nas famílias, pois o cenário muda quando a história muda. Mas, de fato, a transformação aparece nas dinâmicas familiares, mesmo que de forma mínima.
O desafio de equilibrar os cuidados com os filhos e com os pais idosos vai muito além de uma simples reorganização da rotina doméstica. Trata-se de uma profunda sobrecarga física, financeira e emocional que recai, de forma histórica e cultural, sobre os ombros das mulheres, na transição do papel de filha para cuidadora principal.