A agonia de brasileiras que tentam voltar do Canadá: “Eu tenho uma filha de 3 anos e não sei como colocarei comida na mesa” - Revista Esquinas

A agonia de brasileiras que tentam voltar do Canadá: “Eu tenho uma filha de 3 anos e não sei como colocarei comida na mesa”

Por Pedro Alvarez : junho 19, 2020

Voos cancelados e instabilidades econômicas e de saúde são obstáculos enfrentados por brasileiras para se manter em solo canadense enquanto aguardam reabertura da ponte aérea

Assim como o resto do mundo, o Canadá sofreu impactos graves com a pandemia de covid-19 e adotou o isolamento social em suas províncias. No dia 13 de março, as daycares (creches) pararam de abrir em Montreal, maior cidade da província de Quebec. Na semana seguinte, tudo estava fechado. “Foi muito rápido”, lembra a brasileira Natali Rodrigues, 31 anos, que vive no município canadense desde 2018.

Comércios e empresas não puderam manter suas atividades e, então, começaram as demissões. “Em março, faltando três dias para o visto do meu marido vencer, ele foi dispensado do emprego”, conta Natali. “Teríamos, então, três dias para voltar para o Brasil. Mas pedimos uma extensão com um visto de turista para entregarmos o apartamento, vendermos nossas coisas e nos organizar.”

A população brasileira no Canadá aumenta cada vez mais. Segundo a Pesquisa Selo Belta 2019, são 14 anos seguidos em que o país ocupa o primeiro lugar como destino de intercambistas brasileiros. E, de acordo com o censo demográfico canadense, cerca de 100 mil brasileiros solicitaram o visto temporário para viver por lá em 2016.

O motivo da mudança é geralmente o mesmo: a busca por mais oportunidades e maior qualidade de vida. Porém, em meio à pandemia, muitos brasileiros no país vivem situações angustiantes.

“Se eu tiver um problema de saúde, morrerei aqui”

Natali e sua família tentaram o regresso ao Brasil, mas todos os voos haviam sido cancelados. Procuraram o Consulado Brasileiro em Montreal, que, a princípio, não resolveu a situação. “Nos informaram que não poderiam fazer nada, pois o Canadá está com a doença controlada e tem um sistema de saúde bom”.

De acordo com o Consulado, a prioridade para voos de repatriação é de países em situação crítica. No entanto, segundo Natali, o sistema de saúde canadense não é tão bom quanto afirma o consulado. “Já tive diagnóstico errado e estou esperando por uma cirurgia há seis meses”, revela.

Sem o visto, o problema se agrava. “Como meu visto de trabalho venceu, eu não tenho mais acesso à saúde gratuita. Se eu tiver um problema de saúde, morrerei aqui, pois não tenho como pagar um hospital”, afirma a brasileira. A situação fica ainda pior já que, sem a documentação, Natali não pode ir ao médico pedir receita para seus remédios contra asma.

A medida que passam os dias sem conseguir voltar para o Brasil, as economias da família se tornam insuficientes para mantê-los seguros. “Nós só conseguiremos pagar mais esse mês de aluguel e contas, toda a nossa reserva já gastamos. Não podemos trabalhar sem o visto de trabalho e a cidade está toda fechada, não contratam ninguém. “Eu tenho uma filha de três anos e não sei como colocarei comida na mesa daqui um mês.”

Como se as complicações financeiras já não bastassem, problemas com a vizinhança também têm atormentado sua família. “Estou com síndrome do pânico atacada, pois meu vizinho esmurra constantemente minha porta a cada vez que minha filha chora. Ele já veio aqui completamente nu, jogou nossas coisas e gritou comigo”. Natali denuncia que por essas e outras situações, recorreu à polícia canadense, que “nada fez”.

A urgência da “Volta ao Brasil”

Em busca de apoio nas redes sociais, ela encontrou o grupo Volta ao Brasil, no qual mais de 200 brasileiros compartilham a mesma necessidade de regressar ao seu país natal.

A comunidade reúne diferentes relatos, como os de “senhoras que vieram conhecer seus netos recém-nascidos, não podem voltar para casa e estão sem seus remédios”. Esse é o caso de Dulce Lopes. Ela teve seu voo remarcado e cancelado três vezes, o que descobriu por meio de conhecidos, já que sua linha aérea, a Air Canada, não a avisou.

Dulce faz tratamento de câncer e precisa retornar ao País para fazer seu acompanhamento médico trimestral, que já foi comprometido. Além disso, ela já não tem mais acesso a um medicamento do qual faz uso contínuo. Seu marido conseguiu enviar os remédios uma vez, mas eles foram detidos pela alfândega na segunda tentativa.

Procurado por ela, o Consulado disse que senhora deveria tentar retornar ao Brasil da forma mais rápida possível. Com os voos do Canadá ao Brasil cancelados, a única opção seria uma ponte aérea na Europa, o que está fora do orçamento da maioria dos brasileiros nessa situação. Além disso, há o risco de não conseguir o regresso ao Brasil a partir da Europa.

Repatriação seletiva

Com o aumento das manifestações de brasileiros que buscam a repatriação, o Consulado do Brasil no Canadá começou a tomar providências. Em nota publicada no dia 27 de maio, o Consulado-Geral do Brasil em Toronto afirmou que “a Embaixada do Brasil em Ottawa, com a colaboração dos demais consulados brasileiros no Canadá, já iniciou tratativas para verificar a possibilidade de realização de voos especiais para levar brasileiros que se encontram no Canadá de volta ao Brasil”.

No dia seguinte, em seu Facebook, foi publicado um formulário destinado aos sem status de residente que não poderiam aguardar a reativação das rotas aéreas regulares, prevista para julho ou início de agosto, para voltar ao País. Porém, segundo Natali, “eles só estão pensando em quem já comprou passagens pela Air Canada, das outras cias não.”

ESQUINAS contatou o Consulado-Geral do Brasil em Toronto por e-mail e pelas redes sociais, mas não obteve resposta até o momento de publicação desta matéria.