Perda dos pais na Primeira Infância: impactos na saúde mental - Revista Esquinas

Perda dos pais na Primeira Infância: impactos na saúde mental

Por Beatriz Egreja : março 27, 2026

A Teoria do Apego, de John Bowlby, nos ajuda a entender a importância da abordagem positiva com a criança. Foto: Henning_W/Pixabay

A perda precoce dos pais na infância pode gerar traumas e impactos duradouros na saúde mental ao longo da vida adulta

“Tive vários ‘pais’ que fizeram papel de pai, mas nunca tive realmente um pai”. Para Clara Pires Geromel, hoje estudante de 19 anos, a infância foi marcada pela ausência. Seu pai morreu quando ela tinha apenas dois meses de vida.

De acordo com uma pesquisa da organização ANDI Comunicação e Direito, cerca de 43,9 mil crianças e adolescentes de até 17 anos ficaram órfãos de pelo menos um dos pais por ano, no Brasil, desde 2021. Essa realidade atinge muitos brasileiros, especialmente na Primeira Infância (0 a 6 anos), e pode deixar marcas profundas ao longo da vida, a depender de como é vivida.

O sentimento de luto

O psicanalista Sigmund Freud descreveu o luto como “a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido […]. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto”.

“[…] A maior crise na vida de uma criança é, sem dúvida, aquela provocada pela morte de um dos pais”, diz Wilma Torres, graduada em Psicologia pela UFRJ. “A partir daí, o mundo nunca mais será o mesmo lugar seguro de antes.” A perda é dolorosa para qualquer ser humano, independentemente da sua idade; porém, pode influenciar de formas diferentes a maneira de lidar com o sentimento.

Em particular para as crianças que vivem o luto na Primeira Infância, a perspectiva da morte pode ser alterada, mas sem apagar a dor do ocorrido, até porque, como aponta Clara Pires, “querendo ou não, faz falta; para qualquer pessoa faria”.

O impacto da Primeira Infância

Quando o significado de “morte” é introduzido dos 0 aos 6 anos, período central do desenvolvimento, o impacto tende a ser mais intenso. Freud atribuiu a relação primitiva do bebê com sua mãe ao protótipo de todas as relações posteriores e fundadora do ego, que se constrói ao longo do desenvolvimento.

No início da vida, a base da existência se constitui em torno dos pais, principal rede de apoio no período, formando a ideia destes como “super-heróis” na mente da criança. Ela, por sua vez, se sente protegida e inalcançável, pois seus genitores estarão sempre à disposição. Assim, quando ocorre a perda de um ou ambos desses protetores, o mundo que a criança conhecia desmorona por completo.

A Revista UNINGÁ, em um artigo sobre luto infantil, deu destaque às especialistas Franco e Mazorra (2007), que constataram que “com os pais, morre também a ilusão narcísica da onipotência infantil em um momento em que ela é necessária como fonte de segurança”. Inevitavelmente, “a morte de um dos pais é uma das experiências mais impressionantes na vida de uma criança”.

Em conjunto com a sensação de segurança e controle típica da infância, de acordo com a revista científica FAEMA, caso a convivência com o genitor fosse ambivalente emocionalmente, ou seja, de certa forma conturbada, a criança pode associar os embates como causa do falecimento e sentir culpa ao deduzir que foi responsável pelo acontecimento.

Além disso, as crianças com idade anterior aos 6 anos entendem a morte como algo reversível, sem compreender o conceito real dela. Ao questionar a psicopedagoga Millis Pereira, que atua na área infantojuvenil, se, na percepção das crianças durante a Primeira Infância, existe dimensão da perda, ela relata:

“Já temos pesquisas que comprovam que, na vida uterina, a criança já estabelece vínculos com a mãe. […] Nasci, estou no mundo, e esse vínculo mais poderoso, mais orgânico, que se funde comigo, não está mais. Como se entende isso? Posso não entender como uma perda, mas entendo como uma ausência; tem uma lacuna.”

Assim, a ausência é percebida, mas a criança não compreende que a morte é definitiva. Na Revista UNINGÁ, também, especialistas analisam que somente a partir dos oito anos a criança passa a entender a irreversibilidade da morte. Dessa forma, na perda até os 6 anos de idade, novamente na revista citada acima, Franco e Mazorra informam: “[…] Diante da ausência irreversível de um vínculo provedor de sustentação, a criança se depara com profundos sentimentos de desamparo e impotência”.

Reações possíveis à perda

As reações que os pequenos podem ter após a morte dos pais são variadas. Essas variações dependem de cada pessoa e do contexto após a perda. Clara relata que seu luto foi saudável, porém diversas crianças possuem reações negativas. “Tudo que somos na vida adulta é consequência do que vivemos na infância”, explica Millis sobre a relação do passado, marcado pela ausência, com o futuro da criança. “Dos 0 aos 6 anos, é um período importantíssimo para que você possa viver a infância da maneira como deve ser vivida, para que ela possa te fortalecer e construir recursos para lidar no futuro.”

Assim, vários transtornos psiquiátricos em adultos têm sido relacionados a algum trauma na infância; o que muda é a magnitude do problema. Estudos internacionais observam 26 tipos de adversidades, incluindo as situações de perda parental. Essas dificuldades estavam associadas de forma consistente com o início, mas não com a persistência dos transtornos.

Em outra apuração, registrada no Brazilian Journal of Psychiatry, especialistas examinaram 255 mulheres separadas de suas mães na infância. De acordo com o artigo, as mulheres que desenvolveram depressão tiveram experiências turbulentas no período pós-perda, enquanto as outras descreveram cuidados contínuos após a perda.

Além disso, uma análise com mulheres que lidaram com o falecimento da mãe antes dos 17 anos apontou um risco dobrado para depressão e transtornos de ansiedade. Houve um índice particularmente alto para aquelas que perderam suas mães antes dos seis anos. A experiência da criança com a mãe antes da perda possivelmente explica a ligação entre a depressão, a ansiedade e a perda prematura.

Esses e outros diversos estudos indicam que a perda dos pais na Primeira Infância pode desencadear adversidades mentais. Em sua maioria, as consequências são o desenvolvimento de transtornos de depressão (em destaque, de maior incidência), ansiedade e dificuldades de vínculo.

Wilma Torres percebe comportamentos esperados:

“A perda da mãe, por exemplo, no caso do menino mais velho, se percebida como uma rejeição, poderá mais tarde levá-lo a romper antecipadamente os relacionamentos com a figura feminina, na tentativa de evitar que as mulheres possam fazer com ele o mesmo que sua mãe fez. Já a morte do pai e, portanto, a perda de um modelo poderão trazer dificuldades na construção de sua autoimagem e na conquista de sua identidade”.

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A ocorrência de transtornos e traumas, no decorrer da vida da criança, após o falecimento dos pais antes dos 6 anos, é uma realidade possível. Porém, não é uma realidade obrigatória. Com certos cuidados e diferentes formas de lidar com a situação, o futuro do bebê pode ser menos conturbado. Essa chance de leveza após o evento depende dos responsáveis pela criança órfã e de qual será a abordagem estabelecida.

A Teoria do Apego, de John Bowlby, nos ajuda a entender a importância da abordagem positiva com a criança. Nela, explica-se que o apego com os pais é uma necessidade biológica para o desenvolvimento saudável do ser humano. A partir disso, declara que a forma com que a criança se recupera da perda varia de acordo com o momento em que recebe cuidados. Se o tratamento for realizado da forma correta, o vazio da criança pode ser parcialmente preenchido pelo afeto da família em vida e aceito de uma forma mais leve no interior da criança.

“Na minha percepção, a dor vai existir, ela vai estar lá, mas a gente pode minimizar da maneira como cuidamos dessa dor quando ela chega”, analisa a psicóloga Millis. Uma das principais coisas de que o pequeno necessita é o espaço para se expressar, para desabafar a dor que está sentindo.

“Permitir a criança falar, permitir a criança chorar, os abraços e os ‘colinhos’ sempre fazem efeito.”

No entanto, em diversos casos, esse espaço não é permitido pelos responsáveis, por não entenderem que os mesmos sentimentos que um adulto sente após a perda também são sentidos na infância, mesmo que interpretados de forma diferente.

Em seus estudos, a revista Brazilian Journal of Psychiatry informa que os adultos frequentemente não toleram a angústia da criança, como a saudade e o sofrimento, pois, para eles, ela não sofre desses dissabores. “Às vezes, queremos fugir do assunto, não queremos falar sobre com a criança. Mas devemos abrir espaço para a fala. A fala pode vir em um berro, uma explosão de choro, mas ela precisa sair”, analisa Millis.

Além disso, a forma com que a morte é informada na infância também altera o cenário do futuro. Clara Pires, que vivenciou a perda de seu pai, revela que sua forma de lidar com o fato foi mais leve por conta da abordagem familiar. “Nunca foi uma coisa que antes eu não sabia que ele tinha morrido e depois foi um choque de realidade, […] acho que até hoje eu levo de uma forma mais leve por causa disso, porque para mim sempre foi normal”.

Assim como foi exemplificado por Clara, especialistas afirmam que as crianças devem ter conhecimento de duas informações o quanto antes: a irreversibilidade da morte e que o corpo está enterrado ou incinerado. A criança, por meio dessa explicação, compreende corretamente que a pessoa não voltará.

Editado por Enzo Cipriano

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