Quando o progresso deixa pessoas para trás - Revista Esquinas

Quando o progresso deixa pessoas para trás

Por Antonio José de Paula Sellare, Fábio Barreto de Almeida, Fábio Soares Mansi, João Víctor Renção e Rafael Di Giorgio : outubro 22, 2026

Em meio às transformações urbanas, famílias enfrentam o desafio de preservar suas histórias e garantir o direito de permanecer onde construíram suas vidas. Foto: Tho-Ge/Pixabay

Em nome do desenvolvimento urbano, famílias perdem suas casas e enfrentam a ameaça de ver suas histórias e memórias apagadas

“Para onde vou?”

A pergunta parece simples. Três palavras que, para milhões de brasileiros, carregam o medo de perder não apenas um endereço, mas tudo o que foi construído ao redor dele. Segundo levantamento da Campanha Despejo Zero, mais de 2 milhões de pessoas vivem sob ameaça de despejo no Brasil. Para elas, o futuro não é uma promessa de dias melhores, mas uma incerteza que começa pela possibilidade de não ter onde dormir.

Quando uma família é obrigada a deixar sua casa, o que exatamente está sendo retirado dela? As paredes podem ser avaliadas, os terrenos podem receber um preço e os imóveis podem ser reduzidos a números em planilhas. Mas como calcular o valor de uma infância vivida naquele lugar? De uma família criada entre aquelas paredes? Ou de uma vida inteira que não cabe em uma indenização?

Na lógica burocrática, essas perguntas nem sempre encontram espaço. O que aparece nos documentos são prazos, custos, cronogramas e a necessidade de liberar terrenos para a execução de projetos. A moradia, antes um espaço de pertencimento, transforma-se em um obstáculo a ser removido.

Em Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt desenvolve o conceito de banalidade do mal ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela organização logística do Holocausto. Sua reflexão evidencia os perigos de uma burocracia na qual o cumprimento de ordens e a execução de tarefas podem se sobrepor ao julgamento moral das próprias ações.

A dimensão histórica dos acontecimentos é incomparável, mas a reflexão de Arendt permite formular uma pergunta sobre o presente: o que acontece quando decisões administrativas deixam de considerar as consequências humanas que produzem?

Em nome do desenvolvimento, a resposta muitas vezes parece estar pronta antes mesmo que os moradores sejam ouvidos.

O progresso para quem?

Em novembro de 2025, Belém recebeu a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30. Para sediar o encontro, a capital paraense passou por intervenções urbanas e obras de infraestrutura destinadas a preparar a cidade para receber representantes de diferentes países.

Entretanto, enquanto o mundo discutia sustentabilidade e o futuro do planeta, moradores de regiões periféricas enfrentavam dúvidas sobre o próprio futuro.

Nos bairros do Guamá e da Terra Firme, famílias foram atingidas por processos de remoção associados às obras de macrodrenagem da bacia do Tucunduba. Segundo reportagem da Agência Carta Amazônia, as intervenções conduzidas pelo poder público foram justificadas, entre outros motivos, pela necessidade de retirar moradores de áreas sujeitas a alagamentos e inundações.

A promessa era melhorar as condições de vida da população. Para parte dos atingidos, porém, a saída de casa representou o início de outra situação de vulnerabilidade.

Moradores relataram indenizações insuficientes para adquirir novos imóveis e dificuldades para reconstruir suas vidas em outras regiões. O problema, portanto, não estava apenas na necessidade das obras, mas nas condições oferecidas àqueles que precisavam deixar suas casas.

Um levantamento publicado pelo InfoAmazonia estimou que, até agosto de 2025, entre 200 e 500 famílias haviam sido desalojadas ou removidas, com compensações que variavam, em muitos casos, de R$ 5 mil a R$ 40 mil.

Para quem passou décadas construindo um patrimônio, esses valores levantam uma questão inevitável: quanto custa recomeçar?

A resposta se torna ainda mais complexa quando observamos quem são as pessoas atingidas. Guamá e Terra Firme estão entre os bairros populares de Belém, marcados pela presença expressiva da população negra. Não se trata de uma característica isolada. Dados do Censo de 2022 mostram a predominância de pessoas pretas e pardas nas favelas e comunidades urbanas brasileiras.

A distribuição dos impactos das transformações urbanas, portanto, não pode ser compreendida sem considerar as desigualdades raciais e econômicas que atravessam a formação das cidades.

O preço de uma vida

Creusa Caetano da Silva, de 81 anos, havia iniciado uma reforma em sua casa. Depois de tantos anos, queria mais conforto, mais tranquilidade e melhores condições para viver. O projeto, no entanto, foi interrompido pela notícia de que o imóvel precisaria ser removido para a realização das obras no rio Tucunduba.

A casa de Creusa não era apenas uma construção. Era o lugar onde sua família havia acumulado experiências, enfrentado dificuldades e construído lembranças. Sua filha, Odineia Caetano, recorda o episódio com tristeza e receio de que a mesma situação alcance sua própria moradia.

“Uma assistente social lá chegou a me dizer que, de um jeito ou de outro, a obra ia continuar, ou a gente aceitava o valor que eles queriam pagar, ou iam pra Justiça, que ia mandar tirar as casas mesmo assim. E o pior: pagam só o que acham ‘justo’, como se a gente não tivesse passado a vida toda ali, aterrando quintal, criando filhos, enfrentando violência e tudo o mais. Vou pra onde com esse valor? Não somos contra o projeto, somos contra o desrespeito, porque nessas horas só quem sofre são os pobres”, relatou.

A fala de Odineia expõe uma contradição que os números, sozinhos, não conseguem traduzir. Os moradores não necessariamente se opõem à melhoria da infraestrutura urbana. O que questionam é a possibilidade de serem excluídos dos benefícios de um desenvolvimento que também deveria contemplá-los.

A indenização pode estabelecer um valor para a propriedade, mas não restitui os vínculos construídos com a vizinhança, a proximidade com o trabalho ou a rede de apoio formada ao longo de décadas.

Quando uma família perde sua casa, não perde apenas o espaço físico que ocupava. Pode perder também as condições que tornavam possível sua permanência naquela comunidade.

E, para quem já vive em situação de vulnerabilidade, recomeçar raramente significa partir do mesmo ponto.

Os corpos que a cidade expulsa

Em Pele Negra, Máscaras Brancas, o psiquiatra e filósofo Frantz Fanon analisa como o racismo colonial constrói representações sobre a população negra e condiciona sua existência a partir do olhar do outro. O corpo negro, em sua reflexão, é submetido a uma estrutura social que o inferioriza e restringe sua liberdade.

Embora sua obra trate de um contexto histórico e filosófico específico, as reflexões de Fanon ajudam a compreender como desigualdades raciais podem permanecer inscritas na organização dos espaços urbanos.

No Brasil, a população negra está historicamente mais exposta à precariedade habitacional, à ausência de infraestrutura e à segregação territorial. Quando intervenções urbanas atingem comunidades já vulnerabilizadas, existe o risco de aprofundar desigualdades que deveriam ser combatidas.

É nesse cenário que o caso de Belém ultrapassa os limites da capital paraense.

A cidade que se preparava para receber lideranças internacionais e discutir soluções para a crise climática também precisava responder às demandas de seus próprios moradores. Afinal, de que adianta defender um futuro sustentável se parte da população não encontra condições dignas para viver no presente?

A contradição não está necessariamente na realização das obras, mas na maneira como o desenvolvimento é planejado e executado. Uma intervenção urbana pode ser necessária e, ainda assim, produzir injustiças quando aqueles que serão diretamente afetados não encontram alternativas adequadas de moradia.

O progresso não deveria exigir que determinados grupos sacrificassem suas histórias para que outros desfrutassem de uma cidade renovada.

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O direito de permanecer

A pergunta que dá título à reflexão inicial ultrapassa a dimensão geográfica. “Para onde vou?” não significa apenas procurar outro endereço. É também questionar quem tem o direito de permanecer na cidade, quem participa das decisões sobre seu futuro e quais vidas são consideradas quando o poder público define suas prioridades.

Casas deixam de ser reconhecidas como espaços de memória, pertencimento e afeto quando passam a existir apenas como números em relatórios. Nesse processo, o direito à moradia corre o risco de ser subordinado à urgência de entregar obras, cumprir prazos e apresentar resultados.

A história de Belém não é isolada. Ela revela tensões presentes em diferentes cidades brasileiras, nas quais o crescimento urbano nem sempre é acompanhado pela garantia de direitos à população que já ocupa esses territórios.

Enquanto grandes eventos internacionais apresentam discursos sobre sustentabilidade, dignidade e futuro, famílias atingidas por remoções continuam tentando descobrir onde poderão reconstruir suas vidas.

Há uma distância entre a cidade exibida ao mundo e aquela vivida por seus moradores. De um lado, os projetos, as obras e as promessas de transformação. Do outro, pessoas que carregam consigo o que não pode ser transportado por caminhões de mudança: a história de uma casa, os vínculos de uma comunidade e a memória de uma vida.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas para onde essas famílias irão, mas por que são sempre elas que precisam partir.

Porque uma cidade que avança deixando seus moradores para trás precisa se perguntar a quem, afinal, pertence o progresso.

Editado por Enzo Cipriano

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