Quarentena dos idosos: “todos os dias são tristes, até quando não são ruins” - Revista Esquinas

Quarentena dos idosos: “todos os dias são tristes, até quando não são ruins”

Por Laura Slobodeicov Ribeiro : agosto 9, 2020

Durante o mês de agosto, ESQUINAS traz relatos sobre idosos em isolamento social. O depoimento de Marlene à repórter – e neta – Laura Slobodeicov Ribeiro inaugura a série

“Eu estava no mesmo lugar de sempre, na Serra do Japi, sentada na grama e tomando Sol com o meu marido. O vento suave batia nos meus cabelos e no meu rosto de forma suave – era um fim de dia e estava encantador. Mas a sensação não era a mesma, talvez eu não fosse mais a mesma. É difícil pensar que há alguns meses eu fazia esse passeio sem preocupações, sem uma máscara, sem precisar de um carro e sem evitar contato. Nem parece real.

Sou Marlene Irene Ribeiro, tenho 64 anos e há nove optei por uma vida calma em um bairro tranquilo de Jundiaí. Desde então, minhas maiores preocupações sempre foram cuidar da minha família, testar deliciosas receitas e ir todas as terças-feiras no Copercica, um mercado aqui da região, para não perder as promoções do hortifrúti. Até que me vejo proibida de fazer boa parte disso e, o mais surpreendente, por um vírus!  Com todos esses anos de vida, nunca presenciei nada igual.

Todos os dias são relativamente tristes, até quando não são tão ruins. Foi em mais um desses dias que aconteceu algo nunca esquecerei. Meu filho mais velho me ligou bem cedinho me informando que deixou uma sacola com compras na frente da porta do meu apartamento. Nem acreditei! Sai correndo na esperança de poder ver o rosto dele. Sem sucesso. Corri para a varanda e, depois, para todas as janelas. Nem sinal do carro. Comecei a recolher os itens da sacola, com lágrimas nos olhos. Era emoção pelo cuidado que ele está tendo conosco. Eu chorava e falava para o meu marido: ‘Não vi o filho’.

Sei que sair de casa só faria mal para mim e para as outras pessoas da cidade. Por isso fico triste quando vejo as ações que o Presidente do Brasil está tomando. Só pensa na economia, não se preocupa com os seres humanos. Isolamento vertical? Quando penso nas minhas netas indo estudar e correndo risco de serem infectadas, vejo que essa não é a melhor opção. O raciocínio é mais claro quando imaginamos alguém da família.

Todos os dias rezo pedindo a Deus que proteja a todos. Queria acordar um dia com ele abrindo uma janelinha dizendo que o vírus foi embora e que, mesmo tomando cuidado, agora poderia abraçar e estar com os meus queridos novamente. Reflito sobre isso também enquanto tomo sol na varanda ou caminho por meu pequeno apartamento. Aguardo ansiosa por notícias melhores, acredito que o mundo será um lugar mais solidário e amoroso depois que tudo passar.

Agora tenho que me despedir. Minha neta está me ligando para conversar.”

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