Entre longos deslocamentos e falhas no transporte público, paulistanos enfrentam os desafios de deixar o carro de lado
Circular por São Paulo é um desafio diário para milhões de habitantes, além do fluxo constante de trabalhadores, estudantes e visitantes que passam pela capital. Em uma cidade com mais de 1,5 mil km² de extensão, os deslocamentos fazem parte da rotina e colocam lado a lado diferentes alternativas: de um lado, o transporte público, formado principalmente por metrô, trem e ônibus; do outro, os veículos particulares, como carros e motos.
Quem escolhe o transporte individual precisa lidar diariamente com congestionamentos e lentidão. A cidade possui uma frota de milhões de veículos e, dependendo do dia e do horário, percorrer poucos quilômetros pode levar vários minutos. Diante dessa realidade, muitas pessoas preferem utilizar o transporte público no dia a dia. A alternativa, porém, também enfrenta problemas, como superlotação, atrasos e falhas na operação. Recentemente, por exemplo, ocorrências nas linhas 8-Diamante e 12-Safira voltaram a colocar em debate as condições da rede ferroviária.
Diante de uma cidade marcada por longos deslocamentos e dificuldades tanto no transporte individual quanto no coletivo, fica a questão: é possível viver sem carro em São Paulo?
Uma cidade conectada, mas ainda insuficiente
Para Sandro, técnico de manutenção do metrô, é possível. “Sim, dá para viver, porque São Paulo é uma cidade bem completa em relação aos transportes. Ainda falta muita coisa, mas, com o que tem, já dá para não precisar do veículo.”
Atualmente, a rede metroferroviária de São Paulo, formada pelo metrô e pelos trens metropolitanos, possui centenas de quilômetros de extensão. Apesar de não alcançar todas as regiões da cidade com a mesma facilidade, consegue atender uma parcela significativa da capital. Segundo Sandro, os ônibus ajudam a preencher as lacunas deixadas pelos trilhos, ainda que muitas vezes operem lotados.
Para ele, o sistema ainda precisa avançar, especialmente em manutenção e desenvolvimento.
“Apesar de suprir, precisa desenvolver muito ainda, e o Estado não dá aquela atenção que o transporte e os equipamentos realmente merecem. Então, vai ficando sucateado. Mas, na iniciativa privada, existe uma cobrança bem forte, principalmente do Estado, em relação a essa manutenção e desenvolvimento”.
A individualização dos deslocamentos
Vivemos em uma sociedade cada vez mais marcada por hábitos individuais. Home office, studios e compras por aplicativo são alguns exemplos de uma rotina em que diversas atividades podem ser realizadas sem a presença de outras pessoas. O transporte também faz parte dessa lógica: enquanto metrôs, trens e ônibus exigem o compartilhamento do espaço, o carro particular oferece uma experiência individual.
Para a socióloga Stella Schrijnemaekers, essa lógica ajuda a explicar a relação das pessoas com os veículos. “Há uma hierarquia entre um veículo que me permite andar sozinho e um veículo em que eu preciso estar acompanhado.”
Segundo ela, essa individualização chegou até mesmo aos aplicativos de transporte, que também oferecem possibilidades de compartilhamento de corridas e caronas, mas são utilizados, em grande parte, para viagens individuais.
“Ainda que existam muitas pessoas que compartilhem as suas corridas ali com outras pessoas e até aplicativos de carona, sabemos que a maior parte das viagens são feitas individualmente.”
Para a socióloga, apesar de não representar necessariamente a mesma ideia de ascensão social de décadas anteriores, o carro ainda está associado a status e individualidade.
“Os preços dos veículos dispararam nos últimos anos e os antigos modelos de entrada praticamente desapareceram do mercado. O que torna o carro um símbolo cada vez mais restrito a poucos, mesmo sendo cultuado por muitos”, afirma Stella.
“O status sempre joga como uma maneira de exclusão social.”
Por que ainda há resistência ao transporte público?
Segundo Stella, a resistência de parte da população ao transporte público e, consequentemente, a preferência pelo carro não podem ser explicadas apenas por uma questão cultural. Também pesam as experiências de quem utiliza metrô, ônibus e trem diariamente e enfrenta veículos lotados, demora nos deslocamentos e outros problemas de infraestrutura.
Para ela, as respostas não estão apenas na valorização cultural do transporte coletivo, mas também em políticas públicas capazes de tornar os modais cada vez mais eficientes e dignos. A expansão das redes de transporte e a melhoria da segurança para quem se desloca a pé, por exemplo, poderiam ajudar mais pessoas a deixar o veículo próprio em casa.
A relação dos passageiros com os espaços do transporte público também pode ser transformada. Stella cita como exemplo as exposições de arte realizadas nas estações do metrô.
“Acho muito interessantes, por exemplo, as iniciativas do metrô de colocar obras de arte nas estações. Eu acho que isso estabelece uma outra relação com aquilo que é o espaço público, com aquilo que era para ser só um lugar de passagem e se torna um lugar de inserção na cidade, de apreciação estética, de descanso de uma vida corrida”, ponderou.
Para a socióloga, mesmo diante dos problemas existentes, viver sem carro em São Paulo já é uma realidade possível — e praticada diariamente por grande parte da população.
“Você precisa se permitir experimentar esse transporte e ter essa experiência. Então, é claro que dá para viver sem carro. Seria até leviano falar que não. A maior parte da população faz isso. Por que uma outra parte não poderia pensar: ‘A gente tem que se abrir para outras atividades e para outras formas de transporte assim como eles?’”
Uma cidade construída sobre trilhos e rodovias
No século XX, São Paulo já concentrava parte importante da atividade econômica do país, mas foi ainda durante o ciclo do café que a concentração de riquezas e pessoas começou a transformar profundamente o estado. A expansão da produção cafeeira impulsionou a construção de uma extensa rede ferroviária, responsável por conectar o interior paulista ao Porto de Santos. Foi nesse contexto que também começaram a surgir os primeiros projetos de rodovias.
Mesmo com uma atividade ferroviária intensa, havia regiões que poderiam ser mais bem atendidas pelas estradas, que inicialmente funcionavam como complemento à rede de trilhos. A ideia de que as rodovias deveriam servir apenas à circulação do café, porém, não durou muito. Com a urbanização e o crescimento econômico de São Paulo, as estradas passaram a assumir um papel cada vez maior na circulação de pessoas e mercadorias, acompanhando a expansão da cidade e a popularização de novas formas de transporte.
O impacto de uma cidade voltada aos carros
A prioridade dada aos projetos rodoviários afetou o desenvolvimento de outros modais importantes, como metrô, ônibus e bicicletas, além da infraestrutura destinada aos pedestres. Com uma demanda cada vez maior por deslocamentos, a expansão do transporte passou muitas vezes a acompanhar fluxos de origem e destino que já estavam estabelecidos, em vez de antecipá-los por meio do planejamento urbano.
Segundo o urbanista Luís Felipe Schwandner Sobreiro, não basta que existam diferentes opções de transporte se elas não funcionarem de maneira integrada. Ônibus, metrô, trem, bicicleta e deslocamentos a pé precisam estar conectados para que uma viagem não dependa de um único modal do início ao fim.
Entre as possibilidades estão a instalação de bicicletários próximos às estações de metrô, a ampliação das linhas de ônibus e uma integração maior entre os diferentes meios de transporte, sem tratar o ônibus como um concorrente do metrô. Além disso, também é necessário melhorar a infraestrutura destinada a pedestres e ciclistas, com medidas como iluminação pública adequada e expansão das ciclovias e ciclofaixas para além das regiões centrais.
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Afinal, dá para viver sem carro em São Paulo?
Dá para viver sem carro em São Paulo. Viver bem sem ele, porém, ainda depende de condições que não estão disponíveis da mesma forma para todos. As grandes distâncias entre moradia, trabalho, estudo e serviços fazem do deslocamento uma necessidade diária, enquanto a forma como a cidade se expandiu torna mais difícil realizar determinados trajetos sem depender de diferentes meios de transporte.
Por isso, mudar a mobilidade paulistana também significa repensar a própria maneira como a cidade funciona. Aproximar empregos, serviços e equipamentos públicos das regiões onde as pessoas moram poderia reduzir a necessidade de grandes deslocamentos.
Ao mesmo tempo, seria necessário transformar a cultura do carro como escolha automática para diferentes trajetos. Não se trata de eliminar o automóvel da cidade, mas de criar condições para que ele deixe de ser indispensável — especialmente em viagens curtas e intermediárias, que poderiam ser realizadas a pé, de bicicleta ou por transporte público.