Sem rodinha no boteco, missa pela televisão: o isolamento em uma cidade pequena do interior - Revista Esquinas

Sem rodinha no boteco, missa pela televisão: o isolamento em uma cidade pequena do interior

Por Pietra Bastos : agosto 23, 2020

Durante o mês de agosto, ESQUINAS traz relatos sobre idosos em isolamento social. O depoimento do funileiro João Batista Vergilato é a sexta reportagem da série

Com uma fresta do portão pesado de metal aberta, João Batista Vergilato, de 70 anos, trabalha cabisbaixo em sua funilaria. Na companhia de seu filho e de seu cunhado, todos apreensivos. Sua esposa, Aparecida Maria Ferreira Vergilato, de 65 anos, é a mais preocupada: “Tenho medo da polícia aparecer e fechar a oficina”.

Natural de Urupês, cidade com 13 mil habitantes do interior paulista, João Marim, como é popularmente conhecido, nunca ficou mais de dois dias sem sair de casa. Gosta de encontrar seus amigos no boteco todos os dias, ir à missa aos sábados e pescar aos domingos. Mas o frágil isolamento social da pequena cidade trouxe mudanças em seu cotidiano. Triste, lamenta: “Os botecos estão fechados. Não pode fazer rodinha com os amigos. Estão abrindo só uma janelinha para vender as bebidas”.

João, que não consegue ficar parado, teve que se adaptar à sua maneira: às 10 da manhã sai para dar uma volta de carro ou vai a pé para o sacolão comprar verduras. A missa, que antes acompanhava na igreja, agora é pela televisão. Quando não está trabalhando, procura se ocupar com outras atividades como limpar o quintal ou cuidar da horta.

Não é apenas a mudança da vida social que chateou Marim.  Para não perder clientes e pagar as contas, ele tem que continuar trabalhando. A funilaria, que fica em frente à sua casa, está recebendo em torno de duas pessoas por dia. Um movimento bem menor comparado à quantidade de clientes que normalmente recebe. “Para quem precisa trabalhar para pagar aluguel está sendo complicado”, afirma.

Outros estabelecimentos de Urupês também mudaram de ritmo: “Só estão abertos os postos de saúde, as farmácias e os mercados. Entra um grupinho de quatro pessoas por vez, e as outras esperam do lado de fora”, diz. Nem todos estão contentes. Segundo ele, muitas pessoas estão reclamando que querem abrir logo as portas. O que algumas inclusive já fizeram na tentativa de normalizar a situação.

Mesmo com esse cenário trazendo certas dificuldades à sua vida financeira e social, ele percebe a importância do isolamento: “Com certeza é bom para o momento, para a pessoa tomar cuidado. Sempre tem aquele relaxado, tem gente que não liga. Mas quem tem mais condições financeiras, que não precisa sair para trabalhar, é para ficar em casa”.