Buraco sem fundo: pandemia escancara diferença entre escolas privadas e públicas - Revista Esquinas

Buraco sem fundo: pandemia escancara diferença entre escolas privadas e públicas

Por Bruno Mezzomo, Gabriel de Assis e Rafael Lara : janeiro 18, 2021

Professores da rede pública e privada relatam dificuldades do ensino remoto e explicam a disparidade educacional do país

A rotina dos professores brasileiros nunca foi fácil. Com a pandemia do novo coronavírus, o cotidiano dos educadores ficou ainda mais complicado, especialmente daqueles que conciliam empregos nos ensinos público e privado. Sérgio Martins, professor do Colégio Marista Arquidiocesano, um dos colégios mais caros e tradicionais de São Paulo, e da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Raul Leoni, explica como tem sido as suas experiências com aulas remotas.

“O Arquidiocesano já tinha uma plataforma, na qual conseguimos marcar reuniões. Você dá aula 7:15 da manhã e, em tese, está todo mundo lá. Com duas aulas de 75 alunos, 60 estão lá. Todo santo dia. Para quem era bolsista, o colégio conseguiu emprestar notebook, tablet, deu todo o suporte necessário. Fazem monitoria para quem tem dificuldade com os computadores. As provas e simulados são online e com hora marcada. Esse é o mundo da escola privada”, conta.

Contudo, a dinâmica do ensino para alunos da rede pública não se aplica tão facilmente. “Na escola pública, eu tenho me desdobrado para fazer vídeos, apresentações de slides e atividades toda semana. Alguns assistem os vídeos, mas é uma absurda minoria. A maioria não tem acesso a um telefone celular, computador, internet ou nem sabe como acessar. No final de setembro, um aluno começou a ver os materiais, sendo que começamos em abril. Forneceram a eles um livro com todas as matérias e textos com as orientações e atividades. Coloco a aula no Youtube, leio junto [os exercícios] e deixo tudo bonitinho. Em uma sala de 30, você tem 4, 8, no máximo 12 visualizações”, diz Sérgio.

Nesse sentido, em dados coletados em maio pelo governo do Estado de São Paulo, 53% dos alunos de colégios estaduais não conseguiram acessar as aulas online. Além da não inclusão tecnológica, “os alunos do estado trabalham”, ressalta Márcio Rodrigues Alves, professor do ensino médio do Colégio Sagrado Coração de Jesus e coordenador de uma escola estadual na capital paulista.

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O dia a dia da educação infantil pode ser ainda mais complicado. A pedagoga Gabriella Oliveira, funcionária de um Centro de Educação Infantil (CEI) na zona leste da capital paulista, relata que o seu horário de trabalho é, na prática, maior que o estipulado. “Nossa carga horária foi reduzida para três hora e meia, mas é muito maior que isso”. Ela posta atividades para seus alunos, além de enviar pelo menos três tipos de relatórios diferentes, sendo que alguns deles são individualizados por criança, diariamente para sua diretora.

Como se não bastasse a alta demanda de trabalho, Gabriella ainda precisa lidar com dificuldades técnicas. “Enviamos todos os documentos para o Google Classroom, o que é ruim. Ele trava, não aceita todas as mídias, não funciona sempre. Por isso, decidimos manter o atendimento aos pais pelo WhatsApp. É uma plataforma mais fácil e algumas famílias ainda são analfabetas”, explica.

Márcio Rodrigues lembra que muitos docentes não estavam nem preparados para lecionar por meios digitais. “Os professores tiveram que se formar por si mesmos para dar aulas online”, afirma. Uma pesquisa do Instituto Península, que ouviu 2.400 docentes da educação básica no setor público e privado, indicou que 88% dos educadores entrevistados não haviam realizado ensino remoto antes e 83,4% se sentiam despreparados para essa tarefa.

A experiência de Gabriella endossa esse discurso. “No começo a gente estava muito nervoso, com medo, porque nunca ensinamos dessa forma. Com o tempo fomos desenvolvendo nossas habilidades e conseguindo. Onde eu trabalho, somos bem unidos, então ajudamos uns aos outros e vem dando certo”, celebra.

A crise na educação no Brasil, de acordo com Márcio, só será entendida se lembrarmos do contexto pré-pandemia. “Estamos no período do neoliberalismo, do esvaziamento de políticas públicas. O Estado Brasileiro trabalha com um orçamento gigantesco, o problema é que ele não é administrado a ponto de você proporcionar uma melhor qualidade de vida e de aula para os professores. Muitos têm que dar tripla jornada. A pandemia deixa ainda mais cristalino um problema que já existia”, diz.

Diante de tantas dificuldades, a saúde mental dos professores piorou no período de isolamento. O mesmo estudo do Instituto Península concluiu que 67% dos entrevistados teve problemas de ansiedade, 38% relatou muito cansaço e 36% se queixou de tédio.

“Estamos cansados, exaustos. Eu preferia estar em sala de aula. Os professores não estão acostumados a ficar horas e horas em frente ao computador. Além disso, é decepcionante para o professor não ter a interatividade. Às vezes você chama um aluno e ele não aparece, você está falando para uma tela. É frustrante”, desabafa Márcio.

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