Ensino remoto na quarentena: alunas de instituições públicas e privadas tecem críticas às aulas online - Revista Esquinas

Ensino remoto na quarentena: alunas de instituições públicas e privadas tecem críticas às aulas online

Por Beatriz Cristina e Lara Castelo : abril 24, 2020

Dificuldades com a conexão, concentração e adequação são alguns dos pontos levantados por estudantes com dificuldades de acompanhar seus cursos

Nicoly Soares é estudante de Ciências Sociais da USP e, desde que suas aulas presenciais foram suspensas, não consegue ter acesso às atividades propostas pelo curso. “Na minha casa tem internet, mas é uma conexão muito ruim. Não tenho computador e é praticamente impossível fazer as matérias”, explica. Ela conta que morava no Conjunto Residencial da USP, mas decidiu voltar para a casa da mãe devido à pandemia. “Eu usava as dependências da universidade para estudar e prosseguir com a graduação, mas não tenho mais essa estrutura. Agora, só consigo assistir às aulas se eu sair de casa e for para algum lugar que tenha um bom sinal de internet, mas acabo me expondo ao vírus”.

Thamires Ribamar, também aluna de Ciências Sociais da USP, relata outros problemas. “Não se trata apenas de ter um celular ou não para poder ver as aulas, mas outras condições, como espaço e tempo”. Ela conta que tem dificuldade para se concentrar nas atividades acadêmicas: “Eu moro na periferia de Taboão da Serra e as ruas, mesmo com o isolamento, permanecem cheias, com muitos carros passando, o que atrapalha meus estudos”.

Em março, o Ministério da Educação autorizou que as instituições públicas e privadas de ensino superior realizassem as aulas das disciplinas presenciais de forma virtual. Porém, a medida não alcança os estudantes de baixa renda que não têm condições materiais para acompanhar as aulas remotas ou moram em bairros onde o sinal é escasso.

A fim de quantificar quem não possui acesso à internet, seja em casa ou no Conjunto Residencial, a Universidade de São Paulo disponibilizou formulários online para que os alunos apontassem dificuldades de conexão. A partir das repostas, a pró-reitoria da universidade pretende distribuir kits de internet para que os estudantes possam acompanhar as matérias da faculdade.

Queixas em relação ao ensino a distância também têm ocorrido em faculdades particulares. Segundo Natália Magalhães, estudante de Design de Moda da Faculdade Estácio Santo Amaro, problemas relacionados à conexão de internet têm dificultado muito — ou até impossibilitado — suas aulas. “Sinto que meu ensino está sendo muito prejudicado e tenho medo que a situação fique ainda pior”, diz. Ela conta, também, que os alunos estão organizando um abaixo-assinado para solicitar à instituição a redução da mensalidade durante o período da pandemia, já que não estão frequentando as dependências da faculdade. Entretanto, nada foi formalizado até agora.

Além disso, há a preocupação em relação à qualidade do ensino, já que várias matérias não foram pensadas, originalmente, para serem aplicadas de forma remota, sem o auxílio presencial dos professores. Samya Araújo, que também cursa Design de Moda, diz que principalmente para os cursos com trabalhos práticos, como o dela, o ensino a distância é muito prejudicial. “As aulas online de desenho de observação, por exemplo, estão perdendo muita qualidade em relação às presenciais. Normalmente desenhamos os colegas da turma e agora só usamos os objetos que temos em casa para realizar os trabalhos”, explica. Além disso, a aluna destaca grandes empecilhos em relação às aulas online de draping — que ensinam o manuseio e a modelagem de tecidos —  já que, segundo ela, só é possível entender e aprender de fato como usá-los na prática.

Como muitos docentes não foram preparados para essa situação atípica, outras questões acabam surgindo, como desconfortos causados pela comunicação via internet. Natália desabafa sobre a falta de empatia de alguns professores que, segundo ela, não compreendem a complexidade da situação: “Não é má vontade dos alunos, muitas vezes a conexão falha e precisamos que o professor tenha paciência, mas isso nem sempre acontece”.

Ainda, é preciso se atentar à saúde mental de professores e estudantes. “Não é só porque estamos em casa que estamos bem”, pontua Thamires. Ela diz que muitos alunos estão sobrecarregados por conta de seus trabalhos, juntamente com a preocupação de não estarem conseguindo assistir às aulas. “Temos que ter sanidade mental para passar por esse momento porque precisamos ajudar nossos familiares, além de estarmos preparados para possíveis perdas”, completa a estudante de Ciências Sociais.

A jovem acredita que a suspensão do semestre seja a melhor saída para a situação. “Devemos lidar com a nossa realidade: estamos no meio de um cenário que não tem data certa para acabar”. Ela explica que “se um aluno é prejudicado, todos temos de ter empatia para chegarmos juntos a um denominador comum. Hoje, acredito que a melhor saída seja essa”, finaliza.

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