Democracia pelos corredores universitários - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Democracia pelos corredores universitários

Por Larissa Basilio : setembro 26, 2018

Centro Acadêmico encerra semana de comemoração com bate-papo de sua história

Na sexta-feira (21), o Centro Acadêmico Vladimir Herzog (CAVH) reuniu ex-membros do grupo para discutir e contar suas experiências na Faculdade Cásper Líbero nos seus anos de graduação. A conversa encerrou a semana de comemoração dos 40 anos do centro acadêmico.

O bate-papo se iniciou com uma “palhinha” da banda Língua de Trapo, que surgiu nos anos que Laert Falci, um dos fundadores do CAVH, e seus amigos estudaram na faculdade. Igor Fuser, da gestão de 1978, hoje é professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e contou sua relação com o movimento estudantil e com o crescimento que aconteceu no ano em que se matriculou. O episódio que marcou sua vivência como militante foi a invasão ao prédio da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), onde presenciou momentos de forte repressão policial. No episódio, duas estudantes da Faculdade Cásper Líbero foram agredidas. Já Paulo Elias, da terceira gestão do centro acadêmico— a Reconstruir o CA —, afirmou que viveu um momento importante ao se envolver na luta democrática. Em 1979, segundo ele, as pessoas ainda tinham medo de ir às ruas, mas o movimento estudantil e o operário eram os que mais mobilizavam as pessoas. “O centro acadêmico serve para unir as pessoas para mudar as coisas”, completou.

Silvério Rocha formou-se em Jornalismo e pertencia à mesma gestão de Elias. “Para mim, participar do Centro Acadêmico foi impactante”, afirmou. Nos anos de repressão da Ditadura, a maior parte dos estudantes era contra o regime militar e os jovens buscavam restaurar a democracia. A faculdade era composta por pessoas que se opunham ao cenário imposto pelo governo. Para Rocha, há semelhanças entre o período atual e o da ditadura e acredita que a missão dos jovens é prezar pela democracia.

Moa Palmeira, conhecido na Cásper como Moacir e companheiro de sala de Laert, se referiu como um “estranho no ninho”. Diferente dos colegas, Palmeira vinha da periferia paulistana e entrou na graduação após trabalhar quatro anos em banco. Nos corredores da Cásper, Moa entrou de cabeça no movimento estudantil e encontrou ali uma forma crítica e política de pensar o mundo. O que mais o emocionou era a forma como os estudantes se uniam por diversas questões — do aumento das mensalidades à luta pela anistia.

Edmundo Nogueira, presidente do CAVH em 1987, ano do surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT), uniu a classe estudantil e operária. Em frente à Paulista 900, acontecia o ponto de encontro dos movimentos sociais que protestavam por melhorias. “O jornalismo tornou-se um instrumento. Poucos querem opinar”, lamentou Nogueira.

Carlos Dias participou da gestão de 1988 e sintetizou seu período como estudante dizendo ser um período “criativamente fértil”, em que, graças à técnica jornalística e ao humor, foram criados diversos trabalhos, como o jornal A Chinfra. Para ele, esses elementos subvertem e questionam a ordem. Dias contou que o debate e a conversa foram a régua e o compasso de seu pensamento.

Melina Sternberg, diretora pedagógica da gestão Comunica de 2012, conta que, quando participou do CAVH, o centro acadêmico possuía uma estrutura diferente, sem presidentes. Para ela, a gestão foi marcada por uma retomada do CAVH. “Tínhamos que colocar todos os cursos para conversar”, completou. Giulia Afiune participou da mesma gestão e disse estar emocionada por voltar à Cásper e conhecer gestões anteriores. Agradeceu à atual gestão por continuar com essa missão e explicou que, na gestão Comunica, aconteceu uma reconexão com o centro acadêmico, revitalizando o espaço do CA — como chamavam o canal de contato com os alunos. Foi em 2012 que o espaço físico do centro acadêmico foi reinaugurado.

Priscila Kesselring, da gestão Interação, de 2013, iniciou sua fala questionando a presença das mulheres nos tempos antigos. Kesselring afirmou que o ano de sua gestão foi intenso e disse que a Interação possuía uma gestão plural politicamente, visando o diálogo. Foi nesse período que aconteceu a fundação da Frente Feminista Casperiana Lisandra e a primeira Semana de Mulher e Mídia.

Usar a comunicação a seu favor foi a grande dica da noite para levar lutas e posicionamentos avante. Da criação do Centro Acadêmico Vladimir Herzog, na Ditadura, às falas atuais, a noite de sexta-feira ficou marcada para a história de 40 anos do CAVH.

Depois da conversa, os atuais integrantes do Centro Acadêmico levaram os convidados para uma exposição montada no 5º andar da Faculdade. Os estudantes aproveitaram o espaço para fazer uma emocionante homensimples porém agem a Vladimir Herzog, buscando dar um frescor às imagens que o público remete ao pensar no jornalista executado pela ditadura. As múltiplas faces de Herzog foram mostradas em diferentes conjuntos de fotografias, mostrando tanto seu lado profissional, mais conhecido, quanto recuperando seu lado mais cotidiano, familiar, como pai e marido.

Foi também uma cabine de memórias, reunindo registros da Cásper nas décadas de 70 e 80, com fotos dos estudantes, dos corredores, das carteirinhas, entre outros momentos que despertaram a nostalgia dos casperianos convidados.

A experiência, porém, remete também a uma atmosfera outra, de luta. Filtros vermelhos foram colocados sob as lâmpadas para tirar os visitantes do olhar corriqueiro, da mesma iluminação do dia a dia das aulas. A mesma sala, frequentada todos os dias pelos estudantes, transformou-se por um curto período – de 17/09 a 26/09 – em um espaço de reflexão digno, apesar das adversidades de um País em crise, sem a presença física de Herzog ou Marielle, mas, sobretudo, vivo pelo ímpeto e a paixão estudantis que armaram essa semana de celebração e que mantêm a chama da resistência acesa.