Desmonte ambiental deve piorar, diz presidente da SOS Amazônia - Revista Esquinas

Desmonte ambiental deve piorar, diz presidente da SOS Amazônia

Por Julia Maciel : março 23, 2021

Miguel Scarcello critica política negacionista que favoreceu o desmatamento na pandemia

O pano de fundo da conversa era o Dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, 16 de março, e as frequentes polêmicas envolvendo condutas negacionistas do presidente e de seus apoiadores. Ainda que a data seja fundamental para a reflexão e o debate sobre temas ambientais, ela passou batido, sem que houvesse algum ato do governo ou do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo Scarcello, as mudanças climáticas e seus efeitos irão demorar a aparecer. Enquanto isso, “baseado em uma política negacionista, o governo culpabiliza o trabalho de ONGs como a SOS Amazônia pela catástrofe ambiental que assola o País”, declarou em live com o Centro Acadêmico Vladimir Herzog (CAVH), da Faculdade Cásper Líbero.

Diante do que ele chama de “conduta normal do atual governo”, referindo-se a ataques e intimidações a ONGs (como a invasão e investigação da ONG Saúde e Alegria no fim de 2019), ele se diz amedrontado. “Mas a gente não pode ficar mais surpreso ou intimidado, sabemos que eles atuarão sempre assim”, completa.

Na tentativa de driblar as ameaças, organizações têm se unificado e adotado sistemas de monitoramento direto nas Câmaras e no Congresso para fiscalizar as ações do governo.

O presidente da SOS Amazônia também enfatiza que o apoio da população e a divulgação midiática de projetos prejudiciais ao meio ambiente e às comunidades locais são fundamentais. “A gente faz um trabalho de expor ao público, da melhor maneira possível, para que a população se posicione e nos ajude a enfrentar tais projetos”.

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Avanço do desmatamento

Frente à passada de boiada do governo, Scarcello tenta manter a esperança sobre o futuro da floresta Amazônica e das comunidades que dependem dela, mas é realista: “A gente não desanima nunca, mas manter a floresta de pé é muito complicado”.

Segundo ele, no Sul e Sudeste existe a possibilidade de reflorestamento e recuperação de áreas devastadas, além da promoção de educação ambiental nas áreas urbanas. No Norte, as chances são menores. O presidente afirma que existem muitos críticos à manutenção da floresta, principalmente na população urbana de várias cidades dentro do bioma.

Outros obstáculos também são citados: a visão negacionista defendida pelo governo federal e o apoio ao avanço do desmatamento, o enfraquecimento de órgãos de controle ambiental e a existência do agronegócio como única forma de desenvolvimento econômico na região.

De acordo com o geógrafo, se esses posicionamentos não mudarem com as pressões nacionais e internacionais, “há uma tendência de crescimento do desmatamento na mesma proporção que se viu nos últimos dois anos”.

Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na Amazônia cresceu 34% entre agosto de 2019 e julho de 2020 em comparação com o mesmo período anterior.

“Ao contrário do que se pensa, em 2020, mesmo com a pandemia, o total de áreas desmatadas aumentou, até porque houve a desmobilização do Ibama, o enfraquecimento dos órgãos de controle e ações limitadas por falta de técnica do exército. Então a pandemia favoreceu o avanço do desmatamento e prejudicou as comunidades que vivem na região. É uma tendência bastante perigosa, muito preocupante”.

Para Scarcello, ações como o programa Adote um Parque, criado pelo governo para atrair recursos do setor privado e proteger áreas de conservação, como Parques Nacionais, não são suficientes. O geógrafo afirma que o poder público não tem capacidade de administrar essas áreas protegidas. “Para se ter uma ideia, a média de funcionários por unidade de conservação, como Parque Nacionais na Amazônia, é de uma a duas pessoas”.

De acordo com ele, deveriam ser estudadas formas de gerenciar as áreas de conservação com a ajuda de populações locais e organizações que atuam na região. “O governo não abre essa porta, já vem com essa medida de concessão para empresas e órgãos que não têm estrutura de monitoramento”.

A tendência é piorar

Por fim, o presidente da SOS Amazônia diz é preciso chegar a um equilíbrio. “A floresta faz parte de um sistema planetário que tem uma importância na dinâmica climática muito grande, e ignorar isso é preocupante. Estamos alterando o ambiente natural que nos possibilita viver hoje”.

Ele se diz esperançoso com as novas gerações, mas alerta: “Se continuar do jeito que está, a tendência é piorar. A qualidade da água só piora e a oferta também, oceanos estão poluídos, encontramos lixo em todos os cantos do planeta. Isso me amedronta muito”.

Para assistir à entrevista na íntegra, clique aqui.

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