O impacto das abelhas na agricultura - Revista Esquinas

O impacto das abelhas na agricultura

Por Giovanna Bicalho e Yasmin Luara : novembro 20, 2019

Como esse inseto interfere diretamente na produção alimentícia mundial

Tem se tornado cada vez mais comum vermos notícias relacionadas à queda da população de abelhas no mundo, seja por conta do mau uso dos agrotóxicos, da introdução de novas espécies de animais e insetos sem o estudo das consequências dessa introdução ou das mudanças climáticas. Dados sobre essa queda têm assustado boa parte das pessoas, que começam a falar sobre a falta de alimentos no mundo devido à diminuição do número de abelhas. Será que essa história é realmente verídica?

As abelhas são sim muito importantes para a agricultura. Graças a elas, a produtividade de certas culturas pode ser ampliada de um modo que as ações humanas dificilmente conseguiriam. Outras culturas são praticamente dependentes desses insetos, como é o caso do morango e do maracujá. No entanto, em um cenário onde as abelhas não mais existem, ou seja, reduzidas a um número muito menor que a atualidade, ainda haveria uma produtividade suficiente para lidar com a necessidade da população.

Culturas como o arroz, o feijão, o milho, o tomate e a uva possuem pouca dependência (incremento de 0 a 10 por cento na produção) da ação de grande parte dos agentes polinizadores, segundo o 1º Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimento no Brasil, lançado em 6 de fevereiro deste ano. Elaborado por 12 especialistas, em uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), a pesquisa analisou 289 plantas cultivadas e silvestres, utilizadas direta ou indiretamente na produção de alimentos. Foi possível analisar o nível de dependência da polinização de agentes animais em 91 delas, chegando ao seguinte resultado:

  • 32 plantas (35% do total) têm a polinização como essencial (acerola, castanha do Brasil, maçã, maracujá, melancia, melão, tangerina, etc);
  • 22 plantas (24%) têm alta dependência (entre elas abacate, ameixa, cebola e goiaba);
  • 9 plantas (10%) têm dependência modesta (entre eles a soja);
  • 6 plantas (7%) estão na faixa de pouca dependência (como feijão, tomate e uva).

(BPBES/REPPIB Sumário para Tomadores de Decisão do Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil)

 

Com base nesses dados, é possível ter noção do panorama atual: 35% das plantas analisadas dependem de um agente polinizador para manter sua produtividade, e poderiam desaparecer se não houvesse tal ação. Outro fator a ser levado em conta é que alguns alimentos, como a vagem e a pimenta, apesar de não dependerem da polinização, são melhor desenvolvidos com ela. No entanto, é preciso lembrar que as abelhas não são os únicos agentes polinizadores: há ainda os besouros, moscas, vespas, mariposas, além de pássaros e morcegos.

De acordo com Cristiano Menezes, doutor em Entomologia e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, “não podemos ignorar a situação das abelhas. Elas são o principal agente polinizador, não só no Brasil, mas em diversas outras partes do mundo. A queda da população desses insetos deve ser tratada com seriedade e servir como um indicador de que algo está errado. Mas é preciso ter em mente que o mundo não ficará sem alimento por conta dessa queda.”

Menezes aponta que é possível conscientizar os agricultores sobre a importância das abelhas por meio de amostras reais nas plantações. “Demarcamos uma determinada área da plantação e soltamos uma colmeia de abelhas que criamos. No fim do período de colheita, o agricultor pode ver que aquela área que teve a atuação das abelhas tem uma produção maior e de qualidade superior à do resto da plantação”, diz o pesquisador. Outras maneiras de conscientizar a população geral são iniciativas independentes, como o Projeto Kombee, criado pela empresa KombiLab para promover a educação ambiental principalmente em escolas, utilizando como ferramenta o incrível mundo das abelhas sem ferrão, nativas do Brasil.

A Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.), outro exemplo de iniciativa independente, é uma associação civil sem fins lucrativos ou conotação político-partidária e ideológica, com o objetivo de liderar a criação de uma rede em prol da conservação de abelhas e outros polinizadores. Em seu site e aplicativo, a associação divulga notícias referentes às abelhas e tem ferramentas lúdicas para o conhecimento das diferentes espécies de abelhas. Além disso, trabalha para possibilitar a convivência harmônica e sustentável da agricultura com elas e com outros polinizadores.

Dificuldades no Brasil

No Brasil, existem cerca de 300 espécies de abelhas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos, segundo a associação A.B.E.L.H.A. Toda essa variedade de espécies vem sendo aplicada de forma lenta nos campos brasileiros. Muitos agricultores já perceberam a importância do inseto e começaram a colocar colmeias perto de suas plantações. Assim, as abelhas, ao saírem para coletar pólen e néctar, acabam ajudando o desenvolvimento da plantação.

No entanto, com relação ao uso delas para a produção agrícola, o Brasil ainda está muito atrás da de outros países, como os Estados Unidos, por exemplo.  Por aqui, a prática não é pouco conhecida. Para Menezes, o mais difícil é convencer o agricultor da utilização das abelhas nos campos.

Outro fator que afeta a implementação delas na agricultura é o pouco estudo que se tem sobre o tema, além do baixo número de profissionais na área de agronomia, zootecnia e engenharia florestal.

Algumas regiões do País já utilizam em grande escala o aluguel das colmeias de abelhas nas plantações, o que beneficia tanto o agricultor como o apicultor, porém, não existe nenhuma regulamentação sobre a atividade.

 Frutos que precisam da polinização de abelhas

Frutos não polinizados
Yasimn Luara

 

Frutos polinizados
Yasimn Luara

Para que algumas culturas se reproduzam, é necessária a polinização animal, que é quando um animal faz a transferência do pólen (gameta masculino) de uma planta para a estrutura feminina de outra da mesma espécie.

Apesar de existir uma grande variedade de animais que possam realizar a polinização, nenhum é tão eficiente como as abelhas, que, ao realizar a coleta do pólen e do néctar das flores, proporcionam a reprodução das flores e a melhor qualidade dos frutos. As culturas mais dependentes da polinização animal são aquelas com alto valor nutricional, como frutas e legumes.

Um bom exemplo de fruta que depende da polinização das abelhas para se desenvolver é a maçã, que sem a ajuda do inseto não se reproduz, o que leva à ausência de frutos. Outros exemplos são o pêssego, com dependência de 90% da polinização, e a amêndoa, que depende 100% da polinização para o desenvolvimento do fruto.

Há ainda, frutos que até conseguem se desenvolver sem a polinização. Contudo, o fruto acaba não sendo dos melhores. Esse é o caso do tomate, que, sem a polinização, acaba não crescendo tanto.