“Uma criança que deveria gostar do isolamento, agora está sofrendo com isso”, relata mãe de autista - Revista Esquinas

“Uma criança que deveria gostar do isolamento, agora está sofrendo com isso”, relata mãe de autista

Por Isabella Gomes e Nicoly Bastos : janeiro 13, 2021

Mães contam as dificuldades na educação de crianças autistas durante o ensino remoto

“Ele chora, ele olha para a tela e fala ‘eu não quero uma aula de Skype, eu quero ir para a escola’. Aí eu tenho que fechar a câmera e o som”. Nídia Maria de Oliveira, 44 anos, é advogada e mãe de Thomás, 9 anos, que foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e é uma das crianças que teve que se adaptar por conta da pandemia do novo coronavírus.

Segundo dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulgados em 2019, existem mais de 37% de alunos autistas estão matriculados em escolas comuns. Agora, no período de pandemia e isolamento social, onde a educação está por meio virtual, pais e mães de crianças dentro do espectro relatam dificuldades.

“Lucca já estava totalmente adaptado. E agora, como ele fica só em casa, isso começou a afetar nele também”, conta Emily Santos Niz de Souza, 37 anos, costureira, com um filho de 8 anos de idade também diagnosticado com TEA. “As crianças autistas por gostarem do regular e do previsível, procuram sistemas mais seguros de rotina e de estabilidade. A mudança na rotina é desastrosa na vida dessas crianças”, explica a fonoaudióloga doutora em educação Lucila Pastorello, 54 anos.

ADAPTAÇÃO

“A rotina dele mudou totalmente. Ele ia para escola, psicóloga, depois vinha para casa, tirava um soninho, e tinha terapia. E isso tudo hoje mudou. Não tem mais nada, nem a terapia. O desenvolvimento dele parou”, conta Emily.

Ao questionada sobre o ensino pelo computador, Emily explica como a concentração do filho é limitada: “Acho que ele não conseguiria assistir a aula online, ele não segue esse sistema. Teria que ter uma pessoa junto com ele para ajudar. A gente faz uma atividade por dia, por exemplo, e tenta deixar ele fazer sozinho, e quando ele não consegue, a gente pega na mão, estimula ele a fazer”

A professora do Lucca, Judite Bernardo de Oliveira, 53 anos, é psicopedagoga e desenvolveu um método para seus alunos “Final de semana monto todo o material, coloco em saquinhos plásticos esterilizados e entrego na segunda. Na sexta-feira volto nas casas, porque não posso perder o vínculo, importante para a criança especial”.

O acompanhamento de um profissional na área de educação especial é de extrema importância para o desenvolvimento da criança autista. No caso de Emily, a terapeuta ocupacional e a fonoaudióloga passam alguns exercícios para ela e o marido fazerem com o filho, “mas não é a mesma coisa, porque não tem como a gente fazer a parte de uma pessoa que estudou para isso”, desabafa.

Ao contrário de Lucca, Thomás, se adaptou através de aulas ao vivo pelo Skype. “No começo de março até meados de abril, eles mandaram um roteiro através do WhatsApp, porque ainda não sabiam como ia ficar. Foi muito pior”, conta a mãe. Uma melhor adaptação veio através da plataforma on-line, mas somada a outros desafios. “Todo dia ele chora, reclama e fala que quer bater no coronavírus”, completou.

O comportamento do Thomás teve muitas alterações: “Tem hora que ele não quer ninguém perto, aí você sai, ele vê que não vai dar conta e começa a gritar ‘manhÊÊÊÊ’, chorando. Ele chora muito mais do que antes, e quando ele se sente frustrado é terrível”, conta. “Quando começa a aula ele fica muito agitado, balança a mãozinha e começa a falar, a atropelar a professora. Aí a gente tem que pedir para ele ficar calmo”

Para Pastorello, apesar de crianças autistas precisarem estar em constante movimento, é importante que se estabeleçam horários de descanso, a fim de evitar maior propensão à ansiedade.

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SAUDADE

“Ele viu a foto dos amigos e ficou conversando, na foto era o Mu, o amiguinho dele. Ele ficava conversando com os amigos pela foto”, narra a mãe do Lucca.

As mães alegam que o isolamento marcou de forma negativa o desenvolvimento social de seus filhos. “Uma criança que deveria gostar do isolamento, agora está sofrendo com isso. Essa parte da falta de socialização é muito difícil”, desabafa Nídia. “A professora vem aqui entregar as atividades, e ele quer que ela entra, quer mostrar as coisas que ele tem, que ele gosta”, completa Emily.

Pastorello diz que a falta de socialização é um dos grandes obstáculos desse ensino. “A criança perde a oportunidade de estar com os outros, de aprender a estar no mundo, se relacionar, entender limites, adquirir repertórios. Crianças autistas precisam de ênfase nos processos de interação social, e a comunicação através do virtual atrapalha muito”

SOBRECARGA

A presença dos pais torna-se extremamente importante no ensino remoto. As olheiras escuras e a face cansada mostram o resultado de uma quarentena sendo mãe e “educadora” ao mesmo tempo. “Me sinto perdida. A gente só não chora todo dia porque não dá”, desabafa Nídia. Emily também relata sobre Lucca: “Ele sempre tá chamando a gente, toda hora, então tem que ficar 24 horas em função dele”.

“Eu passo os dias lavando roupa, cozinhando. Chega um ponto que os pais estão prejudicando um pouco os filhos, porque a gente também está no limite”, diz Nídia. Além disso, relata que a criança autista não enxerga os pais como educadores, dificultando mais o processo.

UM ANO PERDIDO?

Nídia acredita que a grade escolar precisa ser revista após a pandemia, uma vez que o ensino foi passado de forma “maçante” aos alunos e eles têm que absorver o conteúdo de uma vez. O ano sem ir para a escola também prejudicou a socialização com o autista. “Tenho preocupação sobre o futuro, porque cada dia que ele fica em casa, ele perde a convivência com o mundo. É muito importante para a criança autista ter esse contato e ser independente”, conta Emily.

Em contrapartida, Nídia conta que muitos pais passaram a enxergar melhor a educação dos filhos. Emily também ressalta uma maior valorização do professor: “É o tempo da gente reconhecer isso, porque tem muitos professores que estão ali por gostar de ensinar”

Lucila Pastorello desenlaça a importância de saber que nem todas as crianças autistas são iguais e que são crianças como qualquer outras. “A gente não tem um autista igual ao outro, são crianças muito diversas. É como se também fosse um espectro de cores, você tem um colorido de crianças”, finaliza.

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