“Resolveria para comprar comida por três meses”, diz trabalhador informal com auxílio emergencial negado - Revista Esquinas

“Resolveria para comprar comida por três meses”, diz trabalhador informal com auxílio emergencial negado

Por Camila Nascimento e Eduardo Reis : abril 23, 2020

Demora de análises e atraso nos pagamentos preocupam aqueles que dependem do coronavoucher

Gilberto da Silva, natural de Franca, interior de São Paulo, trabalha de forma autônoma como boleiro e teve o auxílio emergencial do governo negado depois de 14 dias de análise de seu cadastro. Por não ter idade suficiente para se aposentar e ter sofrido um infarto em 2018, perdeu 70% da sua capacidade laborativa. “Não consigo mais desempenhar meu trabalho nem para me sustentar, então seria de grande ajuda receber a ajuda do governo”, diz. Gilberto enfatiza a necessidade e a urgência no pagamento: “Resolveria para comprar comida por três meses.”

O auxílio, popularmente conhecido como coronavoucher, foi aprovado em 30 de março pelo governo federal e tem como objetivo diminuir a vulnerabilidade econômica causada pela pandemia de covid-19 no Brasil. Ele prevê ajuda financeira de R$ 600,00 para até duas pessoas da mesma família ou de R$ 1.200,00 para mães solo com pelo menos um filho menor de idade. Dentre os beneficiários estão desempregados, microempreendedores individuais, contribuintes individuais da previdência social e trabalhadores informais, como Gilberto.

Apesar da Dataprev — empresa pública de tecnologia e informação da previdência associada ao Ministério da Economia — apontar que há 45,2 milhões de pessoas com cadastro aprovado para receber o auxílio, muitos internautas se queixaram de ainda estarem em análise desde antes do começo do pagamento da primeira parcela do benefício (09/04) e subiram a #auxilioemergencialnegado.

A paratiense Tamara Nunes completa 16 dias na espera pela aprovação de seu cadastro. Mãe de 3 filhos, de 2, 6 e 7 anos de idade, é autônoma e seu marido, que trabalha em um restaurante, teve a renda afetada pela pandemia. “Dependo de ajuda para comprar alimento e pagar as contas”, relata.

A dúvida sobre a aprovação do cadastro também preocupa a paulistana Adriele de Cássia Pereira, mãe solo de duas crianças, de 1 e 9 anos. Adriele, que trabalhava sem registro em um restaurante e complementava sua renda vendendo sacolé gourmet, está com seu cadastro em análise desde 7 de abril. Sem ter a quem recorrer, só resta uma alternativa: “Esperar”.

Tamara e Adriele não entendem a demora. Elas fizeram o pedido entre 7 e 10 de abril e, portanto, estão entre os cadastros que teriam suas análises finalizadas até 21 de abril, segundo o Ministério da Cidadania, a Dataprev e a Caixa Econômica Federal. Além disso, como ambas se cadastraram pelo aplicativo Auxílio Emergencial, elas não conseguem ser atendidas pelo telefone de apoio oferecido pela Caixa (111), já que o ramal de atendimento é exclusivo para os que se inscreveram pelo Cadastro Único.

Outro problema é a contemplação de pessoas que não possuem contas digitais, o que traz à tona a discussão sobre pobreza extrema, analfabetismo e o não-acesso à internet no País. A recomendação da Caixa é não ir a uma unidade física do banco, o que torna o saque inviável.

Nesta segunda-feira, 20 de abril, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, afirmou que iria adiantar o pagamento da segunda parcela do benefício, que estava previsto para o dia 27 de abril. Porém, o governo voltou atrás na decisão e o Ministério da Cidadania disse, em nota, que faltam recursos para realizar o pagamento e que o cronograma da segunda parcela será anunciado em maio. Até o momento, 12 milhões de brasileiros ainda não receberam a primeira parcela do auxílio.

Procurados por ESQUINAS, o Ministério da Cidadania e a Caixa Econômica Federal responderam sem dar maiores esclarecimentos.

Segundo o Ministério, “a segurança das operações é uma premissa desde a concepção do auxílio emergencial. Os níveis de cruzamentos de dados de todo o processo são complexos e trata-se da maior operação de pagamento de um auxílio da história. Respeitando os requisitos legais, o auxílio emergencial vai chegar às famílias trabalhadoras e aos mais vulneráveis.”

A Caixa afirma que “a responsabilidade pela análise de quem tem o direito ao Auxílio Emergencial é da Dataprev com homologação do Ministério da Cidadania. A CAIXA está recebendo o resultado do enquadramento ou não dos cidadãos nas regras do Programa Auxílio Emergencial em partes, procedendo então a atualização das informações no site/app. Dessa forma, orientamos que os cidadãos na situação ‘em análise’ verifiquem não mais que uma vez ao dia a atualização da situação. Caso o cidadão tenha o direito ao benefício reconhecido, a CAIXA efetuará a liberação dos recursos em até 3 dias úteis após o recebimento das informações pela Dataprev.”

Até o momento, não obtivemos resposta da assessoria de comunicação da Dataprev. Caso tivermos, vamos inseri-la na matéria.

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