Atletas comentam com exclusividade a volta do futebol feminino no Brasil, que já tem data marcada - Revista Esquinas

Atletas comentam com exclusividade a volta do futebol feminino no Brasil, que já tem data marcada

Por Gustavo Vasco Silva e Leonardo Cavallaro : julho 7, 2020

A pandemia do novo coronavírus afetou a modalidade de diversas maneiras. Jogadoras e especialistas apresentam principais desafios

A Copa do Mundo de Futebol Feminino ocorrida na França, em 2019, foi um enorme sucesso de audiência em todo o mundo. No Brasil não foi diferente. Transmitida pela primeira vez na história na televisão aberta, a competição teve um índice de telespectadores brasileiros altíssimo. Com um nível de visibilidade nunca antes visto e com este torneio tão evidenciado no campo das discussões e pautas por parte dos torcedores e dos principais veículos midiáticos do País, estava aberto o caminho para uma evolução mais do que necessária em todos os aspectos do futebol feminino no Brasil. Entretanto, a pandemia do novo coronavírus está atrasando este progresso.

Para Gláucia, eleita a melhor atacante do Brasileirão Feminino 2019, essa interrupção das partidas veio em péssima hora. “Estávamos no meio do Campeonato Brasileiro, em uma sequência forte de jogos, com transmissão pela TV, internet e com as pessoas se interessando pela modalidade”, disse. “Infelizmente, por uma questão de saúde pública, tivemos que dar um tempo”, completa a camisa 9 do tricolor paulista.

 

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Contratação mais badalada do time feminino do São Paulo para 2020, Gláucia foi considerada a melhor atacante de 2019 em eleição feita pela CBF e terminou a temporada com 19 gols e 18 assistências pelo Santos. As conquistas e os números já seriam suficientes para não haver contestações sobre a jogadora. Mas não é bem assim que acontece. Gláucia recebeu críticas nas redes sociais por sua forma física em 2019, e uma dessas mensagens a abalou. ”Mexeu quando eu estava no Santos. As pessoas são muito maldosas, e isso daí mexe bastante. Eu acabei vendo a publicação de um torcedor falando da minha parte física, mas não do que eu faço em campo, do que eu fiz no Santos. Isso mexeu comigo, porque me chateou bastante, me deixou muito pra baixo”, afirmou Gláucia. . “Graças a Deus, eu tenho uma pessoa que eu vou levar para sempre, que jogou junto comigo, que foi a Maurine. A gente era muito parceira. Quando aconteceu essa situação, eu liguei pra ela e chorei bastante. Ela falou: “Para com isso, você tem muita qualidade”. Ela me fez olhar mais para dentro de mim, do que eu sou, da minha índole, então as coisas começaram a funcionar novamente, porque deu um branco naquele momento”, completou. #SPFCFEMININO🇾🇪

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Não há dúvidas de que a evolução que vinha sendo feita na modalidade foi atrasada. Segundo Juliane Santos, comentarista e especialista em futebol feminino, a expectativa era enorme para 2020, e a Confederação Brasileira de Futebol terá papel fundamental na retomada da modalidade. “A CBF terá que dar passos largos para essa recuperação do futebol feminino e, junto com os dirigentes de clubes, terá que fazer uma força-tarefa para que as meninas possam permanecer com os seus auxílios”, pontua.

E esse amparo econômico por parte da entidade máxima que controla o futebol brasileiro veio. Em abril, a CBF anunciou medidas de apoio financeiro a clubes e Federações Estaduais. Para cada um dos 16 times da Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, o auxílio foi de 120 mil reais. Para as 36 equipes da Série A2, a ajuda foi de 50 mil reais, aos 20 clubes da Série C, 200 mil reais, e aos da Série D,  120 mil reais, totalizando o desembolso de R$ 19.120.000,00.

Essa ajuda disponibilizada pela CBF está sendo essencial para que os clubes consigam se manter durante a paralisação dos campeonatos. Contudo, essa prática escancara o amadorismo das autoridades e dos dirigentes em relação à modalidade, uma vez que tais verbas não foram repassados integralmente para as atletas em muitos times Brasil a fora. Foi o caso, por exemplo, do Sport Club do Recife, que recebeu o auxílio de 50 mil reais para a equipe feminina, porém apenas 10 mil reais foram utilizados na categoria. O restante do dinheiro teria sido destinado às despesas de outros setores.

“Preconceito, desvalorização, falta de apoio e dificuldade financeira são algumas das adversidades que enfrentamos. Nosso desejo é que nos olhem com igualdade em relação ao futebol masculino‘’, desabafa Letícia Mauro, atleta Sub-17 com passagens no São Paulo e Centro Olímpico. Se no futebol profissional a situação já é difícil, nas categorias de base o despreparo das autoridades em relação à modalidade fica ainda mais evidente.

É imprescindível que a modalidade seja gerida com maior responsabilidade e seriedade por parte de quem comanda os clubes, as Federações e as Confederações. Além disso, também é de suma importância uma mídia que esteja dispostas a discutir com mais frequência o assunto.

E, acima de tudo, é fundamental uma mudança cultural no País. As pessoas precisam ser ensinadas a tratar o futebol feminino com igualdade em relação ao masculino desde cedo, para que as próximas gerações cresçam inseridas na modalidade, com o objetivo de alcançar os mesmos direitos e valorização entre os sexos. E isso há de se ressaltar, não engloba só o futebol, abrange todos os esportes e, principalmente, toda a esfera social.

Rogério Caboclo, presidente da CBF, disse em entrevista para o jornal O Globo que as partidas já tem data marcada para voltar a acontecer. O retorno está agendado para o dia 8 de agosto, com o início das Séries B e C. Já a elite do futebol feminino só volta a entrar em campo no dia 26 de agosto, com a retomada da Copa do Brasil e a abertura da Série A do Campeonato Brasileiro. “Que seja breve, mas com todos os cuidados possíveis”, disse Juliane.