Após o Grande Prêmio do Japão, a Fórmula 1 sai de cena por um mês, mas deixa questionamentos e pedidos de mudanças em aberto
No mês de março a Fórmula 1 realizou o último Grande Prêmio antes do recesso de um mês provocado pelo cancelamento das corridas em Bahrein e Abu Dhabi devido às guerras no Oriente Médio. A competição foi marcada não só pelo sentimento de despedida temporária do esporte, mas também de dúvidas e indignações por parte das equipes, pilotos e, sobretudo, da audiência.
Grande parte da má recepção do GP de Suzuka foi causada pelo acidente do piloto da Haas Oliver Bearman, de apenas 20 anos. O piloto, evitando bater no carro de Franco Colapinto – que estava mais lento pelo novo modo de carregamento de bateria -, desviou o carro e perdeu o controle, batendo na área de escape com uma força de 50G (o que, para um peso de uma pessoa de 70kg, seria o equivalente a ser amassado por um outro corpo de 3500 kg). Bearman saiu mancando no carro, mas felizmente, não ficou gravemente ferido.
O acidente do jovem piloto chama atenção para um detalhe que tem sido discutido pelos times e admiradores do esporte desde o começo da temporada de 2026: o novo regulamento proposto pela FIA (Federação Internacional do Automobilismo) é adequado para a F1?
A reforma técnica da categoria foi proposta e aceita pela federação em outubro de 2025 sob a justificativa de aumentar a sustentabilidade no esporte e garantir novidades tecnológicas em comparação ao regulamento antigo. Essa foi a maior mudança dentro da regulamentação da Fórmula Um desde 2022.
Conhecida nas redes como Maluela Balela, a criadora de conteúdo esportivo e fã do automobilismo afirma que a aplicação prática do regulamento não faz jus às vantagens criadas com as mudanças.
“Existe um limite do quanto que a gente não perde a identidade do esporte ao realizar essas alterações. É preciso cuidar para que a essência do esporte não se perca pela sustentabilidade necessária atualmente”.
Uma nova equipe, um novo carro, e um esporte reinventado: a Fórmula Um promete uma temporada de readaptações de todos, colocando as decisões do piloto e dos engenheiros em destaque.
Entretanto, desde seu anúncio, os espectadores questionaram a eficiência dessas modificações, alegando a mudança da essência das corridas, como pontuado por Malu. Tal discussão ganhou ainda mais proporções quando os próprios atletas começaram a reclamar do carro, culpando as alterações do motor.
“O dia todo foi um desastre em questão de ritmo. Sem aderência. Honestamente, este é o maior problema […]”, reclamou o piloto da Red Bull, Max Verstappen, em sessão após o treino de qualificação na China. “Perdemos muito tempo nas curvas. E depois, claro, por causa disso, outros pequenos problemas vão aparecendo”.
Todos esses “problemas”, como pontuado por Verstappen, culminaram em Suzuka, necessitando de um pronunciamento oficial da FIA sobre o acidente de Bearman e até mesmo do próprio piloto da Red Bull, considerando aposentar-se no final do ano devido a essas mudanças.

A audiência também aponta que a promessa de maior equilíbrio não se cumpriu, mantendo a hegemonia da Mercedes e tornando as provas previsíveis.
Foto de Abhinand Venugopal /Unsplash
Por dentro do carro: entendendo o manual Override
Uma das maiores mudanças para a nova temporada de 2026 é a retirada do DRS (Drag Reduction System). Presente nos carros desde 2011, esse sistema foi substituído pelo Manual Override, que oferece um impulso extra de velocidade para ultrapassagem através de dois modos: Boost e Overtake.
O Boost pode ser usado em qualquer momento da corrida com o objetivo de extrair o máximo de performance do motor. Já o Overtake Mode é principalmente utilizado durante as ultrapassagens. Com a distância de 1s entre os carros, quando esse modo é acionado, o sistema libera uma quantidade extra de energia, possibilitando a ultrapassagem.
O Manual Override coloca o gerenciamento de energia como uma questão diferencial para os pilotos e suas equipes. Durante a corrida, é preciso ponderar estrategicamente o uso desses modos, já que se o Boost for utilizado, não é possível acionar o Overtake. No entanto, se o Overtake for usado, uma vez que o “impulso” acaba, o carro entra em gripping: ou seja, mantém a sua velocidade – muito inferior ao normal – para que a bateria seja recarregada. Assim, o veículo corre mais devagar para fornecer carga ao sistema elétrico.
Dessa forma, cabe às escuderias saberem quando é produtivo usar esses modos, já que, ao cumprirem sua função, eles fazem com que o carro perca impulso, provocando diferença de velocidade entre os adversários para a recarga da bateria.

Nas últimas décadas, a Fórmula 1 consolidou-se como um dos ambientes mais avançados tecnologicamente do esporte mundial.
Foto de George Dagerotip /Unsplash
Por dentro do acidente: o caso Ollie Bearman
Considerada uma das batidas mais fortes da última década, o acidente com o piloto da Haas ocorreu por volta da vigésima segunda volta.
Ollie Bearman estava na entrada da curva Spoon em alta velocidade quando se depara com o piloto da Alpine, Franco Colapinto. O carro do argentino estava sem energia, já que havia usado o Modo Overtake anteriormente, causando lentidão para recuperação de carga na bateria. Para evitar uma batida traseira, Bearman desvia com o seu carro, toca na grama e perde o controle, resultando em uma batida à uma velocidade de 262km/h.
A perda de potência e a grande diferença de velocidade entre os carros foram fatores essenciais para o acidente de Bearman, elementos que foram ampliados com o novo modelo Override no regulamento.
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Apesar da força do impacto, o jornalista da MotorSport Guilherme Longo ressalta que o novo regulamento não compromete a integridade estrutural dos veículos. Ele explica que, embora os carros estejam mais leves, a tecnologia de materiais como fibra de carbono e titânio garante padrões de segurança altíssimos:
“O acidente de Bearman parece ter sido mais uma questão circunstancial do que uma falha do modelo do carro. Os monopostos atuais são extremamente seguros e muito mais robustos do que os de décadas passadas”.
“Um acidente como esse era questão de tempo. Eu espero que a F1 reconsidere e ouça os pilotos, porque esses problemas precisam de solução antes de irmos a Miami. Aqui tivemos sorte pela área de escape, mas imagine ir para Baku, Singapura ou Vegas e ter isso?”, critica o piloto da Williams, Carlos Sainz, em entrevista após a corrida.
Em nota, a FIA afirma que qualquer potencial de ajuste, especialmente aqueles relacionados com gerenciamento de energia, necessita de uma cuidadosa simulação e análise. Por isso, marcou uma série de reuniões para o mês de Abril com o objetivo de rever e refinar alterações. A Federação reforça que a segurança no esporte continua sendo o seu principal objetivo e que qualquer rumor sobre alguma mudança ainda é prematuro.
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Como a audiência tem refletido com o novo?
“Acredito que a mudança foi muito necessária, porque o esporte tem que evoluir o tempo todo. A F1 é um esporte que usa muita tecnologia, então já era esperada essa evolução: ainda mais com a FIA se comprometendo a reduzir as emissões de gases até 2030. Só que talvez nesse primeiro ano, eles tenham se perdido um pouco! A teoria desse novo regulamento é muito boa, mas acho que eles não se deram conta que na prática as coisas talvez não fossem funcionar dessa forma”, afirma Malu.
Após entrevistas exclusivas realizadas pela revista Esquinas com alguns espectadores, foi possível notar que o cenário atual é de insatisfação generalizada com o novo regulamento. O consenso é que as mudanças focadas em sustentabilidade comprometeram a essência do esporte e a segurança, com o acidente de Ollie Bearman sendo citado como prova da instabilidade dos novos carros.
Além disso, critica-se o silenciamento dos pilotos, que, apesar das queixas de nomes como Max Verstappen sobre o caráter “artificial” das corridas e as limitações dos motores elétricos, continuam sem poder de voto nas decisões.
No aspecto técnico, Guilherme Longo destaca o sobressalto que escuderias, como Mercedes e Ferrari, alcançaram no começo dessa “nova era”. Para ele, o novo regulamento reafirma a vantagem competitiva das montadoras:
“Estamos vendo novamente as equipes de fábrica saindo na frente, enquanto equipes como a McLaren ainda sofrem para encontrar consistência sob as novas regras”.
A audiência também aponta que a promessa de maior equilíbrio não se cumpriu, mantendo a hegemonia da Mercedes e tornando as provas previsíveis. Existe a sugestão de que a FIA aproveite as pausas no calendário para corrigir as brechas regulamentares. Apesar do pessimismo de muitos, há otimismo em relação a novos talentos como Gabriel Bortoleto e Kimi Antonelli, indicando que o futuro da emoção na categoria depende de ajustes que priorizem a performance real acima de regras burocráticas.
Questionado sobre o impacto dessas mudanças na dinâmica das provas, Longo aponta uma tendência de previsibilidade após as paradas nos boxes. Ele observa que, embora as largadas em locais como Austrália e China tenham sido movimentadas, o cenário muda na segunda metade do GP:
“A tendência atual é de um início de prova acirrado e com muitas trocas de posição, mas, conforme a corrida avança, os pilotos se estabilizam em suas colocações, tornando o resultado previsível enquanto o regulamento não for rediscutido”.
Entretanto, apesar das críticas à previsibilidade e ao domínio das grandes fábricas, Malu enxerga uma oportunidade de mudanças no grid:
“Acho que as equipes menores podem se aproveitar dessas alterações, já que todos estão perdidos. Todos estão começando do zero, com o mesmo teto de orçamento. Pode ser o momento de equiparação das equipes menores e maiores, possibilitando as pequenas a ocupar posições melhores que no passado, algo que já aconteceu nas primeiras corridas desse ano”.

No aspecto técnico, Guilherme Longo destaca o sobressalto que escuderias, como Mercedes e Ferrari, alcançaram no começo dessa “nova era”.
Foto de Marc Kleen/Unsplash
Protagonismo do piloto ou automatização do esporte?
A Fórmula 1 sempre foi apresentada como o ápice da habilidade humana; no entanto, essa narrativa vem sendo transformada pelos avanços tecnológicos. Uma pergunta que se impõe e divide os fãs é se a categoria ainda é dedicada ao talento do piloto ou reflete apenas a superioridade das máquinas e dos algoritmos.
Nas últimas décadas, a Fórmula 1 consolidou-se como um dos ambientes mais avançados tecnologicamente do esporte mundial. Cada carro conta com cerca de 300 sensores que captam mais de 1 milhão de informações, enviadas em tempo real para o box da equipe, onde são analisadas por engenheiros de Inteligência Artificial capazes de interpretar dados complexos em segundos.
“Isso também me ajuda como piloto, porque os engenheiros conseguem ver imediatamente o que estou fazendo em comparação com os outros e me dizer onde posso melhorar”, disse o piloto Yuki Tsunoda em entrevista ao SB Nation.
Tal volume massivo de informações gerou uma mudança na dinâmica das corridas. Hoje, estratégias de pit-stop, gerenciamento de pneus e até o comportamento do carro em cada curva são definidos com base em simulações. Além disso, esse avanço tecnológico abre uma nova possibilidade de entrada no automobilismo: através de simuladores, alguns competidores que até então eram “virtuais” conseguem ganhar conhecimento técnico e prático para entrar no automobilismo real.
Esse foi o caso do piloto Caio Collet, que estreou em competições online do jogo iRacing e tornou-se campeão da Porsche Cup. Em entrevista para a revista Esquinas, comentou sobre esse novo caminho:
“É o novo normal, eu acho. Hoje o pessoal começa no kart muito novo, eu não tive essa oportunidade, mas eu já andava de simulador. Para dirigir um carro de corrida, o simulador me deu uma base muito boa. Quando você pilota um kart e depois sobe para uma categoria de turismo, você tem que reaprender, é outro esporte.”
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Além disso, a aerodinâmica, os materiais ultraleves e os sistemas híbridos de energia tornaram os carros extremamente sofisticados. A Fórmula Um funciona, na prática, como um laboratório de inovação, onde soluções são constantemente desenvolvidas e, posteriormente, aplicadas na indústria automotiva comum.
Entretanto, reduzir a categoria a uma disputa exclusivamente pela engenharia seria ignorar o papel fundamental do piloto. Em um ambiente onde o carro é operado no limite da física, a capacidade humana ainda é determinante. Controle emocional, leitura de corrida e adaptação a mudanças repentinas continuam sendo fundamentais. Além do que, o próprio desenvolvimento tecnológico depende do piloto, que passa feedbacks a todo momento para a equipe.
“Você sempre tenta explicar o que está sentindo no carro. A equipe analisa os dados, mas também precisa da sua percepção para entender o que está acontecendo”, afirma o piloto Max Verstappen a respeito do trabalho em conjunto.
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Expectativas pós Suzuka
As entrevistas também revelam que a expectativa central para os próximos GPs é a perda de hegemonia da Mercedes, que, apesar de largar mal em diversas ocasiões, tem conseguido recuperar posições e vencer de forma previsível. O público aguarda ansiosamente por corridas mais acirradas, onde a Ferrari e a McLaren consigam traduzir o seu potencial em pódios e vitórias reais, aproveitando que a distância entre as equipes parece menor do que na “Era Verstappen”.
Diante desse cenário de incertezas, a FIA e a F1 definiram um cronograma rigoroso de reuniões após a última corrida para discutir ajustes técnicos. No dia 9 de abril, ocorreu o primeiro encontro virtual entre a federação, equipes e fabricantes para analisar os dados das três primeiras provas e avaliar mudanças imediatas com foco no GP de Miami. Já no dia 20 de abril, acontece a reunião considerada mais decisiva, com possíveis votações sobre alterações para o restante da temporada e para os próximos anos.
O jornalista Guilherme Longo prevê que o intervalo de mais de um mês permitirá que as equipes foquem no desenvolvimento técnico e adiantem novidades:
“Miami deve funcionar como um grande marco. Acredito que veremos os grandes pacotes de atualização sendo apresentados já nesta etapa, pois esperar até Barcelona seria tempo demais sem novidades. Isso pode gerar uma aproximação real da Ferrari e da McLaren, enquanto equipes como a Alpine tentam liderar o pelotão do meio e a Williams luta para reduzir o peso excessivo de seus carros”.
No que diz respeito aos pilotos, há um foco nos rookies e jovens talentos: a audiência espera ver nomes como Kimi Antonelli e Isack Hadjar destacarem-se, com uma torcida especial para que o brasileiro Gabriel Bortoleto conquiste a sua primeira vitória. Entretanto, existe uma preocupação acerca do rendimento dos veteranos sob o novo regulamento, não conseguindo levar os carros ao limite devido às restrições do motor elétrico. Assim, o sucesso nos próximos circuitos dependerá da capacidade dos pilotos em contornar falhas técnicas de um regulamento considerado “artificial”.
“Existem mudanças que precisam ser avaliadas, mas quem é fã mesmo entende que esse regulamento precisa ser reavaliado, mudado. Erros fazem parte, assim como evoluções, ainda mais na F1, esporte que usa tanta tecnologia”, finaliza Balela.