Desordem e regressos do handebol - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Desordem e regressos do handebol

Por Daniel Veloso : outubro 3, 2018

Movimento de atletas quer melhorias dentro do esporte após escândalos de corrupção

Enfrentando um momento de instabilidade financeira e política, desde agosto, a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) ganhou mais um assunto para dividir sua atenção. Jogadores nacionais e internacionais da modalidade organizaram-se para criar o movimento Atletas pelo Handebol com a intenção de terem sua voz ouvida e conseguirem mudanças que trarão melhorias e desenvolvimento significativos para o cenário do esporte olímpico.

Após o período de 2013 a 2016 de bons resultados e esperança para o futuro do esporte, quando a seleção feminina conquistou o inédito título mundial na Sérvia e o Ministério do Esporte apresentou arrecadações recordes para a modalidade, os dirigentes da CBHb agora têm de lidar com a retirada de seu principal patrocinador, o Banco do Brasil. O discurso oficial, o de que o banco pretende trocar as prioridades de modalidades nas quais investe, é diferente do que se ouve entre pessoas do meio do esporte. Os escândalos de uso indevido de verbas públicas na gestão do então presidente da confederação Manoel Luiz Oliveira geraram uma imagem negativa à qual as empresas não querem estar associadas. Atualmente, Oliveira é réu de ação judicial e está afastado do cargo enquanto responde por diversas irregularidades em sua gestão, que já dura 28 anos. Em abril de 2018, após seu afastamento, a CBHb se pronunciou à revista IstoÉ sobre a situação delicada. “Cumpre informar que a entidade já está tomando as medidas judiciais cabíveis pautadas pelos princípios da legalidade, legitimidade, contraditório, ampla defesa, respeito e cumprimento de decisões emanadas dos órgãos da Justiça brasileira”, escreveu na nota oficial da confederação.

Jogadores brasileiros nos Jogos Sul-americanos de Cochabamba com o uniforme sem patrocínio algum
Reprodução / Washington Alves/Exemplus/COB

Além da retirada de patrocínios, a imagem arranhada sustentada pela confederação causa temor entre empresas que poderiam investir na seleção, como aconteceu com a tradicional marca fornecedora de artigos esportivos Hummel International. A empresa, fundada em 1924 e que tem seu principal foco no handebol e futebol de campo europeus, retirou as discussões de um possível contrato de patrocínio. Em 30 de maio, avisou pela sua conta do Instagram que seria inviável negociar com a confederação enquanto o caso não se resolvesse nos meios legais. “Diante da notícia que o Presidente da CBHb, Manoel Luiz Oliveira, foi afastado do cargo em virtude de inúmeras irregularidades praticadas em sua gestão, a Hummel do Brasil comunica a todos que o contrato que seria firmado com a CBHb foi cancelado, uma vez que tal notícia obsta qualquer andamento nas negociações que envolvam o contrato de patrocínio”, escreveu.

Surge, então, o grupo independente Atletas pelo Handebol para organizar os interesses dos diversos stakeholders do esporte, entre eles atletas de todas as modalidades, clubes, árbitros, federações, etc. “Nosso objetivo é conseguir contato e provocar uma união maior de todos os agentes que tenham interesse numa maior profissionalização do esporte por todo o país, independentemente da região do Brasil ou da modalidade de handebol praticada”, afirmou Arthur Peão, um dos representantes do movimento no Brasil e atleta do Esporte Clube Pinheiros e da seleção masculina nacional.

O movimento possui nomes de peso entre suas lideranças, como Bárbara Arenhart, campeã mundial com a seleção brasileira em 2013; Thiagus Petrus, jogador do time do Barcelona, na Espanha; Patrícia Scheppa, MVP do Mundial de Handebol de Areia da International Handball Federation (IHF) de 2012; e Duda Amorim, melhor jogadora do mundo em 2014 pela IHF e campeã mundial com a seleção brasileira em 2013. Outros atletas do cenário nacional e internacional também vêm demonstrando apoio e concordando com as propostas por meio de suas redes sociais. Ainda segundo Peão, a notoriedade é tanta que diálogos com a atual gestão da confederação já estão ocorrendo.

O grupo trabalha com duas principais propostas: a renovação imediata do comando da CBHb e a criação de um novo modelo de gestão inspirado no modelo do rugby nacional, sem uma presidência direta e com comissões e conselhos independentes entre si. O modelo foi o ganhador em 2015 e 2016 do prêmio de melhor governança e transparência em entidades esportivas do brasil pela plataforma Sou do Esporte e pela empresa Inspire Sport Business. Dentre as críticas à confederação atual, está a de que todos os órgãos e estruturas estão submetidos à competência não profissional da presidência.

O esquema dos Atletas pelo handebol busca melhorar a representatividade de diversos grupos de interesse

O modelo proposto pelo movimento quer dar representatividade a todos os grupos de interesse, desde os próprios atletas, passando por técnicos e chegando aos juízes. Seria formado um conselho de administração que fiscalizaria as operações do dia a dia, participaria de áreas estratégicas, apresentaria propostas e estaria em contato direto com o novo CEO.

Em nota oficial divulgada em 31 de agosto, a CBHb respondeu diretamente ao movimento. Os pontos mais relevantes do pronunciamento são o reconhecimento da legitimidade do Atletas pelo Handebol e a implementação de um estatuto moderno desde 2014, apesar de considerar as acusações inconsistentes com a real situação da entidade e ressaltar que a categoria dos atletas já possui voz dentro das decisões da confederação.