Toca o apito, mas Vampeta não sai de campo - Revista Esquinas
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Toca o apito, mas Vampeta não sai de campo

Por Bárbara Souza, Beatriz Calais e Gabriela Delgado : fevereiro 11, 2019

Mesmo após quase dez anos de aposentadoria, o ex-jogador continua trabalhando junto às traves e redes. Com o tato afiado, faz previsões dos campeonatos e revelações sobre o futuro do Brasil na Copa do Mundo

Marcos André Batista Santos, mais conhecido como Vampeta. O esportista nascido em Nazaré das Farinhas, na Bahia, conta sobre sua carreira e sobre as diferenças entre a sua geração de atletas e a atual. Aos 44 anos, o “Velho Vamp” sempre esteve ligado ao esporte. Iniciou a carreira ainda na adolescência, jogando no baiano Vitória. Com apenas 18 anos, foi lançado internacionalmente, ganhou notoriedade e foi considerado um dos melhores volantes na Holanda em 1994. Conquistou a Copa das Américas cinco anos depois e, em 2000, foi campeão mundial pelo Corinthians, time que marcou sua história. Aposentou-se somente em 2011, mas não abandonou a paixão pelo futebol: é o atual presidente do Grêmio Osasco Audax e comentarista na rádio Jovem Pan. No fundo, Vampeta é um colecionador de histórias.

ESQUINAS Como era o Marcos André na infância?

Eu nasci na Bahia, de um município que fica a 70 quilômetros de Salvador. É engraçado, o meu nome é Marcos André, mas o meu apelido era Deco. Foi uma fase muito boa: eu jogava bola todos os dias, tomava banho de rio, andava pelas fazendas, pelos quintais da vizinhança. Uma infância que hoje não existe mais. O meu lazer sempre foi jogar bola.

ESQUINAS Você começou a jogar bola desde pequeno, mas como você entrou no time, no Vitória?

Começo lá em Nazaré mesmo. A minha mãe é dona de casa e meu pai, caminhoneiro. Meus pais vão morar em Salvador, no subúrbio de Plataforma [bairro da capital], e eu começo a jogar bola na rua mesmo. Um dia teve um teste no Vitória para garotos de 13 a 18 anos. Eu fui, peguei minha chuteira, fiz o teste, passei e já comecei a carreira profissional. Profissional porque tinha a disciplina do horário de treinos. Com 18 anos, fui embora para a Holanda. Quatro anos depois, sou vendido para o futebol holandês.

ESQUINAS E como foi essa sua experiência fora do Brasil?

Era em um país de primeiro mundo, né? A Holanda é um país incrível, diferente de tudo. Da Bahia, fui direto para um país de primeiro mundo. Outra cultura, totalmente diferente de tudo. Comecei a estudar holandês, a jogar no futebol europeu, conhecer os países da Europa, Leste da Europa, Espanha, Itália, tudo por causa do Futebol. E foi muito legal, até hoje eu volto lá.

ESQUINAS E o seu apelido? De onde “Vampeta” vem, do Vitória ou da Holanda?

Pois é, foi uma coincidência. Quando eu passo no teste do Vitória e vou morar no alojamento com mais de 70 jogadores, ganhei esse apelido de vampiro com capeta, “vampeta”. Três anos depois, vou parar na Holanda onde tudo é van, né? Todo mundo acha que o nome é de origem holandesa, mas foi do Vitória. O destino me jogou em um país que é tudo com van.

ESQUINAS Quando você encerrou sua carreira como jogador de futebol, qual foi o seu primeiro pensamento?

Depois que eu parei, eu continuei trabalhando com bola. Trabalho na Jovem Pan há quatro anos, sou presidente do Audax há mais de oito, continuo no meio do futebol, fui treinador do Sub-20 do Corinthians. Não senti falta de nada. Só sinto falta do salário, que era legal.

ESQUINAS Depois da aposentadoria, você se tornou presidente do Grêmio Osasco Audax. É uma forma de ter um contato mais direto com a nova geração de jogadores. O que você enxerga essa leva?

São gerações diferentes. A geração de 1950 era diferente da de 1970, que era diferente da geração de 1980. As décadas vão passando e a evolução está aí. Hoje eu tenho duas filhas que estudam nos Estados Unidos e, se eu quiser falar com elas agora, ligo pelo FaceTime ou pelo WhatsApp. É outro mundo. Os caras não desaprenderam a jogar bola, mas você tem que aprender que hoje existem redes sociais. Antes era tudo no mano a mano. Hoje acho que o contato humano esteja um pouco mais distante, um futebol de estar no dia a dia, de falar pessoalmente. Às vezes o jogador sai de um jogo chateado e não dá entrevista, mas posta alguma coisa e todo mundo fica sabendo. Quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo [de 2018], todo mundo esperava do Neymar uma coletiva de imprensa. Conversando com o pai dele, ele me diz “meu filho não deu coletiva nem nada, mas ele postou no Instagram e um bilhão de pessoas viu”. Foi mais do que dar uma entrevista para qualquer veículo de comunicação e conseguir atingir esse público.

ESQUINAS Então você acredita que falta uma maior união entre os jogadores? Porque muitos deles vão para fora do Brasil muito novos, será que falta um contato de base?

Eu não sei como é a amizade deles. Na minha geração, eu, o Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, Rivaldo, Cafu, Romário, Dida, Emerson, Zé Roberto, Ronaldinho Gaúcho, todos na Europa, tínhamos uma unidade maior de convivência. Agora, os jogadores são parceiros, mas não sei se transmitem isso para o público. Parece um pouco distante.

ESQUINAS Para além dos campos, você se candidatou a deputado federal em 2010, apesar de não ter sido eleito. O que te levou à candidatura?

Isso foi o maior mico que eu fiz na minha vida. Fui atrás de uns amigos, não gastei nada, falaram para eu me filiar ao PTB, ser candidato, bancaram tudo. Se não me engano, ainda tive 20 mil votos [o número preciso é 15.300]. Sem fazer campanha. As pessoas me conheciam como atleta, um jogador da seleção. Eu não tinha estômago para pedir voto. Tinha bairro que eu nunca tinha ido, tinha que entrar em ruas só para pedir voto. Acho que quem é político tem que ter salário mesmo: precisa ter a cara de pau para ouvir as pessoas te chamarem de ladrão e você dizer que não é e pedir para votarem em você.

ESQUINAS Pensando em jornalismo, como é para você ser comentarista na rádio Jovem Pan?

Ela dá total liberdade. Comentar em cima do jogo, com todo mundo vendo, não tem como puxar sardinha, não. Às vezes tem alguns amigos e você tenta não criticar, pegar um pouco menos, mas eu não vejo uma parte crítica nisso. É mais comentar o jogo mesmo, um programa diário com os ouvintes. Nunca tive incidente nenhum, problema nenhum.

ESQUINAS Você abriu um cinema na sua terra natal, Nazaré. O que te levou a essa iniciativa?

Eu gosto de ver filmes, mas a iniciativa do cinema não foi por ser apaixonado por cinema. Foi algo mais filantrópico para a cidade, para ajudar. Eu jogava na Holanda, estava de férias. O telhado do cinema da minha cidade estava caindo e um rapaz chamado Cavalcati me pediu uma ajuda de 50 reais para não deixar o telhado cair. Comprei o cinema e o restaurei todo. Virou um investimento, um patrimônio meu. Gosto de ver filme, mas não tanto que me leve a comprar um cinema só para isso. É a questão da cidade e do investimento pessoal mesmo.

ESQUINAS E você visita ainda a cidade?

Sim, minha avó já faleceu, mas ainda tenho três tios que moram lá, duas tias, irmãos da minha mãe, alguns primos e vários amigos de infância.

ESQUINAS Para finalizar, voltando ao futebol, em quem é mais gostoso fazer gol: Palmeiras, São Paulo ou Argentina?

Nos três é muito gostoso fazer gol. Mas eu acho que o maior rival hoje seria no São Paulo. Os argentinos estão lá em outro país, não estou nem aí. Quem está aqui a gente convive no dia a dia, então seria melhor no São Paulo.