Receita secreta - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Receita secreta

Por Roberta Bernardo : maio 23, 2018

A pia de casa quebrou, por uns dias fiquei impossibilitada de fazer comida. Fui criada pela minha avó, que nunca me deixou encostar no fogão porque tinha medo que eu me queimasse, mas, sozinha em São Paulo, aprendi rápido a fazer o básico e hoje me viro bem.

O apartamento em que vivo é alugado, o que significa que eu dependia da aprovação do proprietário pra fazer qualquer reforma, o processo demorou um pouco e tive que comer todas as refeições fora de casa. Quase todos os dias fui ao self-service de uma padaria na Brigadeiro, não era barato, mas também não era caro. Eu estava com anemia, então aproveitei os dias de self-service para me alimentar direito e comer coisas diferentes.

Aconteceu que em uma segunda-feira me senti atraída por uma berinjela refogada com tomate, cebola e gergelim. Esse dia descobri três coisas:

1. Berinjela é gostoso.
2. Um mesmo objeto pode ser amargo ou saboroso, tudo depende do tempero.
3. Com o prato certo, é possível atingir a imortalidade.

Tudo se desenhou muito rápido na minha cabeça enquanto eu caminhava até o metrô depois do almoço. Eu precisava aprender a fazer aquela berinjela. Se eu soubesse fazer essa berinjela, iria querer que todo mundo provasse. As pessoas iriam amar minha berinjela e em todo evento que eu fosse iriam me pedir para levar a famosa berinjela. Eu me tornaria a tia que tem uma receita secreta.

É isso! Eu quero ser a tia que faz um prato delicioso, famoso na família. Todo mundo espera essa tia chegar com a travessa de porcelana branca nas festas, todo mundo tem essa alegria garantida uma ou duas vezes por ano, e quando chega um genro ou uma nora novos na família, a sogra sempre diz: “Você precisa experimentar o prato da tia!” E a tia, orgulhosa e gentil, diz que vai fazer um dia “só pra você provar!”.

Quem come não esquece, quem não come permanece incompleto para o resto da vida. Não importa quantas estrelas tenha o restaurante, não importa a culinária parisiense nem os tours gastronômicos na Sicília, sempre vai existir o vazio latente da curiosidade de saber o sabor da comida da tia.

Quando a tia morre, sentem mais falta do prato do que dela, mas em compensação ela sempre é lembrada. Seu nome vem à tona em todas as reuniões familiares embalado por suspiros de saudade sincera. As mulheres jovens da família tentarão reproduzir a iguaria, mas nunca irão conseguir atingir a perfeição do prato da tia. A tia se torna uma lenda.

Entrei no metrô decidida a procurar uma receita de berinjela na internet.