Sepultadores estão reutilizando macacões em óbitos por covid-19, denuncia sindicalista - Revista Esquinas

Sepultadores estão reutilizando macacões em óbitos por covid-19, denuncia sindicalista

Por Thiago Pansica : abril 26, 2020

Mesmo com plano de contingência da prefeitura, ainda faltam equipamentos de segurança para funcionários do sistema funerário

O aumento no número de mortos pelo novo coronavírus levou a prefeitura de São Paulo a anunciar um plano de contingência para os cemitérios na quinta-feira (23). Entre outras medidas, o prefeito Bruno Covas anunciou a compra de 3 mil novos equipamentos de proteção individual (EPIs) para sepultadores. Para o sindicato da categoria, a ajuda chega tarde. A entidade denuncia que macacões de proteção usados em enterros de vítimas de covid-19 vem sendo reutilizados — quando o ideal é que sejam descartados, de acordo eles.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo (Sindsep), a reutilização foi comprovada em dois cemitérios na zona leste paulistana — Itaquera e Lajeado. “Os relatos são de que os funcionários estão sendo orientados a reutilizar os macacões depois de usá-los durante o dia sepultando pessoas morreram de covid-19”, afirma Manoel Norberto Pereira, agente sepultador há 20 anos e coordenador de região do Sindsep. Manoel diz que o ideal é que esses macacões sejam descartados ao final do dia e ainda atribui ao serviço funerário a função de garantir esses equipamentos para os sepultadores. O sindicato disponibilizou, ainda, imagens de dispensers de álcool em gel vazios no cemitério Dom Bosco, em Perus, zona noroeste da capital.

Na apuração de uma reportagem anterior, ESQUINAS questionou a Prefeitura de São Paulo sobre o uso de EPIs. A secretaria de comunicação respondeu que o serviço funerário segue o protocolo do Ministério da Saúde, o mesmo usado para o H1N1, para casos relacionados ao novo coronavírus. Os funcionários do Serviço Funerário trabalham com EPIs apropriados para evitar contaminação, como óculos, luvas e roupa apropriada para manejo dos corpos. A Prefeitura também foi procurada para esclarecer a denúncia de falta de macacões em cemitérios da Zona Leste. Até agora, não se pronunciou — a resposta será incluída na reportagem assim que isso ocorra.

A escassez deriva do elevado número de sepultamentos. No Cemitério Vila Formosa 1, o maior da América Latina, a média de enterros diários que era de 38. Com a pandemia de covid-19, passou para 75. Além da chegada de EPIs, o plano da prefeitura prevê contratação de 220 novos funcionários terceirizados. Manoel afirma o aumento na equipe ajudará, mas que a necessidade da contratação de trabalhadores efetivos ainda existe. “Existem 200 assistentes de gestão de políticas públicas aprovados em concurso público esperando para serem contratados. Mas, infelizmente, houve um abandono do serviço funerário municipal. Não é de hoje, mas que agora que está aparecendo por causa do corona”, diz.

Ainda na coletiva de ontem, Covas anunciou que os rituais enterros de óbitos por covid-19 ou com suspeita, que até então não eram recomendados, foram suspensos. “Essa determinação vem sendo cumprida, em casos de corona a orientação é descer direto”, afirma Manoel expondo o drama que vivem os familiares que perderam entes queridos pelo coronavírus e não terão a oportunidade de se despedir.

Manoel conclui dizendo que trabalha para que as pessoas que estão na linha de frente do combate à pandemia tenham a segurança necessária para desempenhar suas funções: “A nossa briga é porque a gente não quer que funcionários morram. Queremos vê-los protegidos para que possam voltar pra casa e ver suas famílias”, finaliza.

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