De Moreira Franco a Wilson Witzel, a corrupção fluminense antecede a Lava Jato - Revista Esquinas

De Moreira Franco a Wilson Witzel, a corrupção fluminense antecede a Lava Jato

Por Vitória Antunes : novembro 6, 2020

Desde a redemocratização do Brasil, de todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro, nenhum se livrou do envolvimento em escândalos políticos 

A menos de um mês das eleições municipais, o Rio vive aquilo que já lhe tem sido comum na última década. Em agosto, 28, Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, foi afastado do cargo por escândalos de corrupção na área da saúde envolvendo a contratação de hospitais de campanha, medicamentos e respiradores. Desde então, em menos de um mês, o prefeito Marcelo Crivella se tornou inelegível até 2026 e foi denunciado por encabeçar o “Guardiões de Crivella”, esquema que contava com vigias contratados pela prefeitura com o dinheiro público para inviabilizar o trabalho da imprensa nos hospitais cariocas.

Apesar de parecer um problema atual, os escândalos fluminenses de corrupção são um desafio antigo que perduram no estado desde o fim da ditadura, conta João Trajano Sento-Sé, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).  “O histórico de escândalos recentes de corrupção no Rio de Janeiro é anterior a Lava Jato. a Lava Jato atribui proporções muito maiores a esses escândalos, mas ele é anterior e inclusive atinge figuras políticas que ainda estão em atividade, como o ex-governador Moreira Franco”.  

No entanto, pela magnitude política do Rio de Janeiro, hoje, esses casos recebem um maior foco midiático.  “As coisas que acontecem aqui, no Rio de Janeiro, por uma série de razões históricas – como abrigar a capital durante tanto tempo e ser conhecido internacionalmente – ainda causam um impacto muito grande. Não só a corrupção, mas as crises políticas, o crime, a violência”, explica o professor da UERJ. 

Moreira Franco 

Eleito em 1970 como deputado federal pelo MDB, Moreira Franco segue desde então a vida política. Em 1986, quando entrou no governo do estado do Rio, prometeu que diminuiria os índices de violência do estado, mas saiu em 1991 cumprindo o contrário do prometido: a violência fluminense renovou suas proporções. Apesar do apelido “Gato Angorá”, dado por Leonel Brizola para dizer que Moreira Franco ‘passava de colo em colo’ durante governos do PT e PSDB, foi apenas durante o período em que atuou como Ministro de Minas Energia e da Secretária-Geral da Presidência de Michel Temer que o político se envolveu em escândalos, sendo citado 34 vezes em delações da Lava Jato e preso em 2019 ao lado de Michel Temer por obstrução de Justiça e participação em organização criminosa. 

A Família Garotinho 

Rosinha Garotinho
Marcello Casal Jr./ABr

Antes mesmo da popularidade dos Bolsonaros a nível nacional, a política do Rio de Janeiro já via a presença de famílias poderosas, como o caso de Anthony e Rosinha Garotinho. Anthony foi preso e condenado cinco vezes entre 2016 e 2019, destacando vários crimes como compra de votos nas eleições de Campo e superfaturamento de contratos entre a Prefeitura de Campos do Goytacazes e a construtora Odebrecht. Sua esposa, Rosinha Garotinho também foi presa com o marido em 2017, acusada de integrar uma organização criminosa que favorecia grandes empresários em troca de arrecadação de recursos para campanhas eleitorais e, em 2019, por superfaturamento na prefeitura de Campos.

Apesar desses escândalos, a família Garotinho ainda exerce influência no estado do Rio. Na Câmara Federal, os filhos Clarissa e Wladimir Garotinho exercem mandato. Nas eleições de 2020, ambos ainda pleiteiam uma vaga na prefeitura de cidades importantes do estado: Clarissa no Rio e Wladimir em Campo dos Goytacazes. 

Sérgio Cabral

Sérgio Cabral
Wilson Dias/ABr

Vivendo da política fluminense desde o início dos anos 90, antes de se tornar governador, Sérgio Cabral já foi eleito deputado estadual e senador. Caminhou ao lado de figuras de diferentes espectros políticos, como Lula e Anthony Garotinho. Em 2013, com a popularização das manifestações de rua, Cabral passou a viver uma onda de críticas da oposição e de seus eleitores devido à denúncia da revista VEJA, que revelou que o governador gastava mensalmente 312 mil reais em helicópteros particulares. Somente em 2016 Sérgio Cabral foi preso durante a Operação Calicute, após ser denunciado por ex-parceiros em delações premiadas que o colocavam como participante ativo no desvio de recursos públicos federais em obras realizadas pelo governo. 

Eduardo Paes

Eduardo Paes
Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados

 

O ex-prefeito que lidera com vantagem as pesquisas de intenção de voto das eleições de 2020 também é figura carimbada quando o assunto é escândalos de corrupção. Ainda neste ano, o candidato foi denunciado pelo MP-RJ por corrupção e lavagem de dinheiro que, segundo o órgão, ocorreram entre junho e setembro de 2012. Para Paes, em vídeo publicado nas redes sociais, as acusações tratam-se de tentativa de interferência no processo eleitoral, por terem sido feitas às vésperas das eleições municipais. 

Flávio Bolsonaro 

Flávio Bolsonaro
Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados

Durante os anos na Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ), o senador Flávio Bolsonaro trouxe para o futuro um problema que viria a perseguir sua família por anos. Seu ex-assessor de gabinete, Fabrício Queiroz, passou a ser investigado em 2018 após vir à tona pela Unidade de Inteligência Financeira (Coaf) a existência de inúmeras transações financeiras suspeitas feitas por Queiroz, que juntas movimentaram cerca de 1,2 milhão de reais no período de um ano na conta do assessor. Essas transações tratam-se de um esquema de ‘rachadinhas’, em que parte do salário recebido pelos funcionários do gabinete é repassado para Flávio com outros propósitos.

Pezão

Pezão
José Cruz/ABr

Em 2018, quando ainda exercia o mandato de governador, Luiz Fernando Pezão foi preso por lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa, ao se juntar com outros 14 indivíduos, incluindo Sérgio Cabral, seu antigo companheiro de chapa. Estima-se que Pezão recebeu 39,1 milhões de reais de maneira ilícita no que revelavam as investigações