“Grândola, Vila Morena”: a música que deu início à Revolução dos Cravos - Revista Esquinas

“Grândola, Vila Morena”: a música que deu início à Revolução dos Cravos

Por Blume Durães de Figueiredo : abril 27, 2026

Em 2026, António José Seguro, o atual presidente de Portugal, derrotou nas eleições o partido "chega" da extrema direita, consolidando assim a democracia. Foto: __Tatius__ /Pixabay

Canção de José Afonso virou senha da Revolução dos Cravos e marcou a queda da ditadura em Portugal, em 1974

Lisboa — Na madrugada de 25 de abril de 1974, a canção “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, foi transmitida pela rádio às 00h20, tornando-se o sinal decisivo para o início da Revolução dos Cravos — movimento que viria a derrubar a ditadura em Portugal.

A música foi escolhida por militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) como parte de um plano secreto de coordenação da operação. Sua transmissão indicava que o golpe estava em andamento, permitindo a mobilização das tropas em diferentes pontos do país.

Com forte carga simbólica, a canção evocava valores de fraternidade, igualdade e união entre o povo, em contraste com o regime autoritário vigente. Após a emissão, as forças militares avançaram sobre pontos estratégicos, dando início a um dos momentos mais marcantes da história contemporânea portuguesa.

Desde então, “Grândola, Vila Morena” permanece como um dos principais símbolos da liberdade conquistada em 1974.

Memória e simbolismo da revolução

O criador de conteúdo Yvan Mendes, do perfil @viajar_emportugal, enviou imagens do Memorial ao 25 de Abril, em Grândola, no Alentejo — local que inspirou José Afonso na composição da canção, associada à ideia de fraternidade e igualdade entre os cidadãos.

Revolução

A Junta de Salvação Nacional, liderada pelo MFA, assumiu o poder, destituindo Marcelo Caetano e Américo Tomás. Foto: Yvan Mendes

O monumento homenageia a Revolução dos Cravos e destaca, nos azulejos portugueses, o cravo como símbolo do movimento, além da importância da música e da participação popular na conquista da democracia.

O fim da ditadura

A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, marcou o fim de uma das mais longas ditaduras da Europa Ocidental. O, liderado pelo MFA, derrubou o regime do Estado Novo, instaurado décadas antes.

Na época, o presidente do Conselho de Ministros era Marcelo Caetano. António de Oliveira Salazar fora afastado do poder após sofrer um acidente doméstico que causou um hematoma intracraniano e evoluiu para um AVC (Acidente Vascular Cerebral), em agosto de 1968, encerrando um governo de 36 anos.

O regime não previa mecanismos democráticos de sucessão, o que fez com que Marcelo fosse indicado pelo almirante Américo Tomás.

Os cravos nas ruas

A revolução contou com amplo apoio popular. Nas ruas de Lisboa, civis colocaram cravos vermelhos nos canos das armas dos soldados — gesto que transformou o episódio em símbolo mundial de uma transição pacífica para a democracia.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Celeste Caeiro, ícone da Revolução, relatou como o episódio começou na manhã de 25 de abril de 1974.

Chegando ao restaurante self-service onde trabalhava, na Rua Braamcamp, em Lisboa, foi informada pelo dono de que não haveria expediente:

“— Meus senhores, a casa não vai abrir porque está-se a dar um golpe de Estado, mas, antes de irem embora, vão ao armazém e levem as flores que estão lá para não murcharem”.

Celeste conta que havia muitos cravos vermelhos e brancos em baldes de água. Subindo a Rua do Carmo, já encontrava tanques. Ao perguntar a um soldado o que acontecia, ouviu que seguiam para o Carmo, onde estava Marcelo Caetano.

Em seguida, o soldado pediu um cigarro. Sem poder oferecer, Celeste respondeu:

“— Está tudo fechado, tenho muita pena. Mas olhe, tenho aqui um cravinho”.

Ela descreve então o momento simbólico:

“— Tirei o cravo vermelho e dei-lhe, e ele aceitou! Fiquei contente quando o aceitou.”

“— Ele pôs o cravo no cano da espingarda. Eu olhei e dei a um colega outro cravo, dei todos os cravos que tinha”.

Celeste, conhecida como a “Celeste dos Cravos”, faleceu em 15/11/2024, deixando um legado histórico. Em 25 de abril de 2026, sua neta esteve nas ruas de Portugal em comemoração à liberdade, levando consigo o livro que escreveu sobre a avó, intitulado “Celeste dos Cravos”.

Memória e impacto geracional

Em entrevista, a portuguesa Marta Soares afirma que, mesmo não tendo vivido o período, a Revolução representa liberdade, equidade, sufrágio e instrução.

“— Um enorme misto de emoções, quase a roçar uma esquizofrenia: medo, em jeito de pânico, e felicidade em alcançar a tão desejada liberdade.”

Ela também relata memórias familiares do 25 de abril.

Seu pai foi bloqueado por forças policiais a caminho do primeiro dia de trabalho como responsável de uma dependência bancária, sendo liberado apenas após comprovação profissional.

Sua mãe, antes de ir trabalhar, levou sua irmã para o infantário e só ao chegar ao banco — o mesmo em que seu pai trabalhava, no Porto — compreendeu o que acontecia.

“— O administrador, que a minha mãe secretariava, deu imediatamente ordens para o meu pai regressar a casa e disponibilizou um motorista para a minha mãe poder ir buscar a minha irmã e regressar em segurança a casa”.

Sobre a construção dessa memória, Marta afirma:

“— Inicialmente, pela voz dos meus pais e restante família (…) e, posteriormente, na escola.”

E acrescenta:

“— Tenho dificuldade e revolta em perceber como a ditadura prevaleceu tanto tempo. Não obstante, é precisamente neste ponto que assumo o enorme orgulho e potencial dos portugueses.”

Símbolos da Revolução

Quando perguntada sobre a imagem mais representativa do movimento, Marta responde:

“— O cravo! Até porque Revolução dos Cravos é a denominação que se refere à mesma data e, para mim, guardada na memória em dois momentos: representado nesta imagem repleta de coragem e amor…”

Revolução

Cartaz alusivo ao 25 de Abril de 1974 (autor desconhecido)

Ela também recorda uma cena pessoal ligada à família:

O avô de Marta, Toneca, era um revolucionário inveterado e, em seu funeral, ela relata:

“— Sem haver necessidade de comunicar que seria a flor que todos deveriam levar para a cerimônia fúnebre, todos, sem exceção, a levaram! Foi épico!”

Ao ouvir “25 de abril”, cita imediatamente “Grândola, Vila Morena”:

“Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade”

VEJA MAIS EM ESQUINAS

Identidade brasileira: heranças do imperialismo cultural

Comemorar a morte de radicais: o debate sobre liberdade de expressão e extremismo

Elon Musk no Governo Trump: Até que ponto interesses privados podem interferir no público?

Contexto histórico e desdobramentos

Segundo o historiador e professor William Valdujo Tavares Vieira Morgado, após a revolução:

A Junta de Salvação Nacional, liderada pelo MFA, assumiu o poder, destituindo Marcelo Caetano e Américo Tomás.

A polícia política (PIDE/DGS) foi dissolvida, a censura abolida e presos políticos libertados.

Iniciou-se o processo de independência das colônias africanas, encerrando as guerras coloniais.

Partidos políticos foram legalizados e as liberdades civis restabelecidas.

Houve nacionalizações e reformas econômicas profundas, seguidas de instabilidade política entre 1974 e 1976.

O “Verão Quente” de 1975 marcou forte tensão política e social. As primeiras eleições livres ocorreram em 25 de abril de 1975. Em 25 de novembro de 1975, uma tentativa de golpe foi contida, consolidando a transição democrática.

Editado por Enzo Cipriano

Encontrou algum erro? Avise-nos.