Avanço do PL no Congresso e disputas estaduais revelam mudanças no cenário político e desafios para o segundo turno
As eleições de 2026 redesenharam o cenário político brasileiro. No primeiro turno, realizado no último domingo (4), Flávio Bolsonaro (PL) liderou a disputa presidencial com 47,03% dos votos válidos, seguido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que recebeu 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual levou os dois candidatos ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. Além da disputa pelo Palácio do Planalto, os resultados também revelaram mudanças na composição do Congresso Nacional e no equilíbrio de forças entre os partidos.
O resultado das urnas vai além da disputa entre os dois candidatos à Presidência. O crescimento da direita no Legislativo, a renovação de parte do Senado e os resultados dos governos estaduais ajudam a compreender as demandas do eleitorado e os desafios que o próximo presidente enfrentará a partir de 2027.
Para o cientista político e economista Renato Dolci, de 38 anos, o primeiro turno deve ser analisado a partir de duas disputas que se sobrepõem: a divisão entre esquerda e direita e o confronto entre a política tradicional e os movimentos que se apresentam como antissistema.
“O primeiro turno precisa ser lido em dois eixos simultaneamente. Existe, evidentemente, uma disputa entre esquerda e direita […] Mas existe também outro eixo, talvez tão importante quanto: sistema e antipolítica.”
Segundo Dolci, essa divisão não acompanha necessariamente as fronteiras partidárias. Lideranças que construíram suas trajetórias criticando as instituições passaram a ocupar posições importantes dentro delas, inclusive em partidos tradicionais.
“Em certa medida, a própria antipolítica se institucionalizou: elege deputados e senadores, ocupa grandes partidos e agora disputa o comando das instituições que dizia combater.”
O avanço do PL e a nova composição do Congresso
Um dos resultados mais expressivos do primeiro turno foi o desempenho de Flávio Bolsonaro. Diferentemente de 2022, quando Jair Bolsonaro terminou a primeira votação atrás de Lula, o candidato do PL chegou à frente do atual presidente. A diferença de 1,87 ponto percentual representa uma vantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
O crescimento da direita também se refletiu nas eleições legislativas. No Senado, o PL conquistou 19 das 54 cadeiras em disputa e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 representantes, consolidando-se como a maior bancada da Casa. O PT elegeu seis senadores e passará a contar com nove parlamentares.
A renovação também foi significativa. Dos 32 senadores que disputaram a reeleição, apenas 14 conseguiram permanecer no cargo, resultado que aponta para uma mudança expressiva na composição da Casa.
Entre os partidos que perderam espaço, o PSD registrou uma das maiores quedas, passando de 14 para quatro senadores. O MDB ficou com oito representantes, enquanto União Brasil e Progressistas ampliaram suas bancadas para seis cadeiras cada. O Republicanos terá cinco senadores, seguido pelo PSB, com quatro, e pelo Novo, com três. PSDB e Podemos contarão com dois representantes cada, enquanto PDT e Rede terão um senador.
Na Câmara dos Deputados, o PL também ampliou sua presença. O partido elegeu 121 parlamentares, superando os 98 conquistados em 2022. O PT manteve a segunda maior bancada, passando de 69 para 70 deputados.
Outras siglas registraram perdas. O União Brasil caiu de 57 para 46 deputados, enquanto o PP passou a contar com 41 representantes. O MDB também perdeu espaço e terá 36 cadeiras. Já o Podemos ampliou sua bancada para 27 deputados, enquanto o PSD e o Republicanos elegeram 43 e 41 parlamentares, respectivamente.
Os resultados indicam um fortalecimento do campo conservador no Congresso, mas não significam que o próximo presidente terá liberdade para aprovar suas propostas sem negociações. Mesmo com uma bancada numerosa, o PL continuará dependendo de acordos com outras legendas para formar maiorias parlamentares.
O desafio de governar com o novo Congresso
Dolci avalia que a nova composição do Legislativo poderá provocar mudanças importantes na relação entre os Poderes, independentemente do resultado da eleição presidencial.
“Pode produzir menos uma revolução imediata de políticas públicas e mais uma alteração profunda na relação entre os Poderes.”
Para o especialista, uma eventual reeleição de Lula significaria enfrentar um Congresso mais resistente às propostas do governo. Já uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia facilitar a articulação inicial com o Legislativo, embora não eliminasse a necessidade de negociações.
“Se Lula vencer, terá pela frente um ambiente institucional consideravelmente mais hostil e dependerá ainda mais de alianças com centro e centro-direita. Se Flávio vencer, começará com um alinhamento parlamentar muito maior, mas isso não significa um cheque em branco.”
O cientista político ressalta que lideranças partidárias e governadores continuarão defendendo interesses próprios, mesmo quando estiverem alinhados ao presidente. Assim, o crescimento de uma legenda não elimina uma característica histórica da política brasileira: a necessidade de construir coalizões para governar.
A disputa pelos governos estaduais
Nos estados, as eleições também foram marcadas por vitórias expressivas ainda no primeiro turno. O PL elegeu cinco governadores, seguido pelo PSD, com quatro, e pelo PT, com três. Republicanos e Progressistas conquistaram dois governos estaduais cada.
A maioria dos estados definiu seus governadores já na primeira votação, reduzindo o número de disputas estaduais que permanecerão em aberto até o segundo turno. O resultado reforça a importância das alianças regionais, especialmente em uma eleição presidencial marcada por uma diferença pequena entre os dois primeiros colocados.
Embora as eleições estaduais tenham dinâmicas próprias, o desempenho dos partidos nos governos regionais pode influenciar a reta final da corrida presidencial. Governadores eleitos e lideranças locais têm capacidade de mobilizar eleitores e fortalecer campanhas, especialmente nos estados em que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro foi mais equilibrada.
O que pode decidir o segundo turno
A vantagem de Flávio Bolsonaro coloca o candidato do PL em uma posição favorável para o início da segunda etapa da campanha. Entretanto, os resultados de domingo não garantem a vitória em 25 de outubro.
Além dos aproximadamente 2,2 milhões de votos que separam os candidatos, a disputa envolve eleitores que escolheram outras candidaturas, aqueles que votaram em branco ou anularam o voto e os milhões de brasileiros que não compareceram às urnas.
A abstenção, por exemplo, ultrapassou 33 milhões de eleitores. Somados aos votos brancos e nulos, esses números mostram que uma parcela expressiva do eleitorado não escolheu nenhum dos dois candidatos que chegaram à etapa final.
A capacidade de mobilizar esses grupos poderá ser decisiva. Lula precisará recuperar terreno e ampliar seu eleitorado, enquanto Flávio tentará transformar a vantagem inicial em uma maioria suficiente para vencer a eleição.
Dolci chama a atenção para uma diferença importante entre as duas etapas da disputa. No primeiro turno, as campanhas presidenciais dividem espaço com as eleições para governadores, senadores e deputados. Essa estrutura amplia a mobilização de eleitores e envolve lideranças locais, prefeitos e organizações partidárias.
“Uma eleição de primeiro turno é um grande ecossistema de mobilização política. Há candidato a governador, dois votos para o Senado, deputado federal e deputado estadual. Todas essas candidaturas carregam eleitores, organizam campanhas, mobilizam prefeitos, lideranças municipais e estruturas partidárias.”
Com a definição da maior parte desses cargos, o cenário muda. No segundo turno, as atenções se concentram principalmente na Presidência, e parte das estruturas que contribuíram para mobilizar os eleitores deixa de atuar com a mesma intensidade.
“O segundo turno é uma eleição muito mais presidencializada. Isso significa que não podemos simplesmente pegar o resultado regional do primeiro turno e projetá-lo mecanicamente para o segundo.”
Para o especialista, o desempenho de Lula e Flávio dependerá da capacidade de transformar os resultados regionais em apoio efetivo nas próximas semanas.
“Por isso, eu diria que o primeiro turno mostra um mapa eleitoral; o segundo vai mostrar, em alguma medida, a capacidade de Lula e Flávio de transformar esse mapa em estrutura política.”
O recado das urnas para a esquerda
O avanço da direita também representa um desafio para o PT. Mais do que recuperar votos, o partido precisará compreender as razões que levaram parte do eleitorado a buscar alternativas ao atual governo.
Na avaliação de Dolci, o resultado pode servir como um alerta para a esquerda sobre a necessidade de ampliar seu diálogo com demandas que nem sempre ocupam o centro de seu discurso político. Questões como segurança pública, renda, ordem, perspectivas de ascensão social e insatisfação com as instituições também influenciam as escolhas dos eleitores.
Isso não significa necessariamente abandonar pautas históricas, mas compreender que as preocupações da população não se limitam à divisão tradicional entre esquerda e direita.
“Existe um recado bastante objetivo de desejo de mudança em relação ao PT. Um presidente candidato à reeleição terminar o primeiro turno atrás do adversário é um sinal político importante […] há uma demanda por mudança, mas ela não é inteiramente programática.”
Segundo o cientista político, parte dessa insatisfação está relacionada a questões econômicas e sociais, enquanto outra parcela expressa valores conservadores e uma rejeição ao sistema político, especialmente ao período de poder representado pelo PT.
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Ao mesmo tempo, o crescimento eleitoral da direita coloca sobre suas lideranças a responsabilidade de transformar o discurso de oposição em propostas concretas de governo.
Para Dolci, esse é um dos principais paradoxos revelados pelas eleições de 2026: movimentos que ganharam força ao se apresentar como alternativas à política tradicional passaram a ocupar posições centrais nas próprias instituições que criticavam.
“O paradoxo de 2026 é justamente esse: parte relevante do discurso antissistema tornou-se uma das maiores forças do próprio sistema.”
O resultado do primeiro turno, portanto, não representa apenas uma disputa apertada pela Presidência. Ele revela transformações na representação política, na distribuição de poder entre os partidos e na relação entre os eleitores e as instituições.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro terão de convencer não apenas seus apoiadores, mas também os eleitores que ainda não se identificam com nenhuma das duas candidaturas.
“E isso impõe desafios para os dois lados. A direita terá de mostrar se consegue transformar mobilização e antagonismo em governo e política pública. A esquerda terá de demonstrar que ainda consegue interpretar uma sociedade que mudou, e que não necessariamente se reconhece mais nas categorias com que ela se acostumou a explicar o Brasil.”