O passado em pedaços - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

O passado em pedaços

Por Aaron Leite : julho 21, 2018

Os resquícios deixados para atrás após inúmeros conflitos nos países árabes

É possível imaginar que a rua onde você brincou de bola com seus amigos seja hoje o cemitério de muitos deles? O mercado onde você acompanhou a sua mãe hoje seja só uma blindagem para tanque? É difícil pensar nesse tipo de acontecimentos no Brasil. Entretanto, isso é uma crua realidade que milhões de sírios tiveram que lidar por causa da guerra civil que assola o País há cerca de sete anos, que já deixou mais de meio milhão de mortes e uma quantidade de refugiados vagando em busca de um novo lar pelo mundo acima dos seis milhões.

Ruínas de um dos bairros de Alepo mais atingidos pela Guerra Síria
Abdalrhman Ismail/Reuters

Uma nação milenar, testemunha da passagem de civilizações, impérios, religiões e regimes dos mais variados, tenta sobreviver ao conflito que, dia a dia, procura apagar a chama que ilumina a vida de 21 milhões de sírios. Bombardeios, artilharia, ataques químicos… São dezenas os métodos que o governo ditatorial de Bashar al-Assad nem questiona em usar contra a população síria rebelde que luta contra o regime desde 2011. É uma guerra que, a princípio, tinha o propósito de derrubar a ditadura da família Assad que comanda o poder há mais de 49 anos. Um desejo que surgiu após ditadores da região do Oriente Médio e norte da África caírem pelas revoltas do povo, fenômeno batizado de “Primavera Árabe”.

Apesar da tentativa política, a guerra tomou dimensões radicais, sejam religiosas, sejam regionais ou geopolíticas, que deixaram o País à mercê do caos que vive hoje.

O início da Primavera

Manifestante levanta cartaz em que lê-se “Fora, fora, Mubarak”, na Praça Tahrir, no Cairo, em 2011
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“Como vocês esperam que eu ganhe a vida?”, disse Mohamed Bouazizi, segundos antes de atear fogo a si mesmo em praça pública, após se recusar a pagar certa quantia de dinheiro para que a polícia devolvesse o sustento dele e de sua família: o carro com as frutas que ele utilizava para vender nas ruas do Cairo para sobreviver à crise que assolava o Egito. O desemprego, a essa altura, já atingia 30% da população da Tunísia, por exemplo. O país do norte africano virou berço da maior revolta da história do mundo árabe moderno. A rebelião foi a primeira Primavera Árabe, nome inspirado no mesmo sentido do Outono das Nações, de 1989, que causou a queda do Comunismo nos países do Leste Europeu.

Selo em homenagem a Mohamed Bouazizi, imortalizado como herói nacional tunisiano
Governo da Tunísia

Após o suicídio do jovem de 26 anos, a revolta da população contra a ditadura de Zine El Abidine Ben Ali, que permaneceu 23 anos no poder, explodiu em manifestações e distúrbios contra o ditador. Após um mês de constantes protestos e um saldo de 338 mortes e 2147 feridos, o tirano fugiu para a Arábia Saudita, libertando a vontade do povo tunisiano em decidir o futuro nacional diante do poder da democracia.

A revolta não parou por aí. Espalhou-se para outros 17 países da região, onde foram registrados inúmeros protestos e manifestações pelo território árabe. Nações como a Jordânia e o Kuwait cederam às exigências reformistas dos manifestantes. Países como Argélia, Bahrein e Marrocos convocaram assembleias para diminuir a tensão.

Apesar das mudanças nos países vizinhos, os regimes mais sanguinários do mundo árabe – Líbia, Egito, Iêmen e Síria – não hesitaram em reprimir as manifestações. Isso causou o aumento da violência civil, que eclodiu em batalhas entre manifestantes e autoridades do governo, resultando em centenas de mortes e na radicalização dos revoltosos.

No Egito, o governo de Hosni Mubarak, militar que se instalou no poder por quase trinta anos completos, reprimiu as manifestações por mais de um mês, deixando mais de 840 mortos e milhares de feridos. Essa foi uma ação que serviu de combustível para incendiar a ditadura pelas entranhas até ela sucumbir depois um mês de protestos pelo País. Finalmente, um golpe de estado executado em meados de fevereiro de 2011 pelas Forças Armadas do País levou Mubarak à prisão e deu início às convocações de novas eleições.

Comparação temporal da Praça Tahrir, no Cairo, em 2011 e 2017. A área foi palco das principais manifestações contra a ditadura de Hosni Mubarak

O ditador Ali Abdullah Saleh do Iêmen caiu devido a um golpe militar que finalizou 22 anos do regime baseado na repressão sanguinária. Desde sua queda em 2012, o País está vivendo uma guerra civil sectária, religiosa e étnica apoiada por uma luta de influência entre as duas maiores potências da região: a Arábia Saudita e o Irã, o que leva o conflito a níveis internacionais.

Manifestantes contra o regime ditatorial na capital do Iêmen, Sana, derrubar o poder de Saleh em 2012
Hani Mohammed / AP Photo

O tirano líbio Muammar Kadhafi perseguiu, reprimiu e assassinou aqueles que desafiaram seus 42 anos de regime político. Seu governo não monárquico é considerado o mais duradouro desde 1900, sendo o líder árabe que mais tempo ficou no poder. Entretanto, a ação serviu de justificativa para o início da luta armada para derrubar o ditador, que recebeu o apoio da Otan. O linchamento de Kadhafi aconteceu no final de 2011. A essência tribal da Líbia, porém, manteve a guerra entre facções e tribos, que prevalece até hoje.

Terror sírio

Bashar al-Assad, o ditador da Síria, não pensou duas vezes ao reprimir violentamente a população do País que protestava contra o regime em 2011. No início, as exigências eram reformistas. Mais tarde, devido à repressão, o confronto tomou as vestes da revolução, o que levou a população a realizar uma luta armada. Foi o maior conflito a que a região já assistiu.

Da esquerda para a direita: o ditador tunisiano Ben Ali, o militar egípcio Hosni Mubarak, o tirano líbio Muammar Kadhafi, o atual presidente sírio Bashar al-Assad e o governante assassinado iemenita Ali Abdullah Saleh

A guerra devasta a Síria há mais de sete anos. É um dos principais assuntos das ações geopolíticas mundiais hoje. Quase que diariamente, ocorrem ações e reações das principais potências do mundo que disputam o poder e a influência na região. As rivalidades se radicalizam devido à ajuda bélica de países como Rússia, Estados Unidos, França e Reino Unido, que apoiam seus respectivos interesses e facções por meio do uso da força aérea e do suporte militar.

A tentativa política de acabar com o conflito o mais rápido possível por meio de ataques aéreos, artilharias, bombas, minas terrestres e métodos igualmente destrutivos só impedem a destruição massiva da Síria. O maior resultado dessas ações fica por conta da degradação impiedosa de monumentos, edifícios, lugares históricos e cidades deixados pelos antepassados sírios. Essas mudanças são inegáveis e colocam em evidência que o passado sírio está simplesmente se esvaindo.

Alepo

A cidade de Alepo foi um importante centro industrial sírio. Com uma história de mais de três mil anos, a cidade tinha uma vasta variedade de populações curdas, armênias, drusas e cristãs, o que enriqueceu e criou o maior centro cultural daquela nação. Em 2011, Alepo foi sitiada e quase destruída pelos combates entre o governo e a oposição, conflito que acabou em meados de 2017.

Kobane

A cidade curda na fronteira com a Turquia é famosa por ser a cidade que comunica as populações curdas síria e turca. A cidade, símbolo da luta antijihadista, foi sitiada pelo Estado Islâmico em 2014. O grupo terrorista ocupou as manchetes dos jornais internacionais por três anos, mas hoje perdeu posições na Síria e no Iraque, onde sua presença era mais forte. Com o apoio dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido, as milícias curdas expulsaram os terroristas de Kobane sob a condição de um alto preço material e social.

Al-Zabadani

Esta localidade turística nas montanhas da Síria, próxima à fronteira com o Líbano, foi um importante foco de turistas europeus atraídos por sua semelhança aos vales do antigo continente, já que Al-Zabadani se situa numa altura que a faz ter um clima frio. A cidade foi tomada pelos rebeldes e, após seis anos vivendo em estado de sítio e constantes bombardeios do governo, foi tomada pelo governo no final de 2017.

Damasco

A capital do País é uma das cidades mais antigas do mundo. Sua importância histórica, religiosa, política, regional e cultural sofreu com os grandes efeitos da guerra. Nos subúrbios da cidade, por exemplo, os rebeldes entraram em confronto com o governo, o que causou uma grande destruição na região.

Palmira

A cidade semita, com fortes influências do Antigo Império Romano, num oásis no Deserto Sírio, a 215 quilômetros da capital. Era uma das mais antigas que ainda se mantinham em conservação. Graças ao seu poder histórico, o lugar vivia do turismo em torno dos monumentos romanos e árabes. Em 2014, Palmira foi tomada pelo autodenominado Estado Islâmico e, consequentemente, muitas das suas estruturas foram destruídas a fim da propaganda religiosa pregada pelo grupo fundamentalista. No início de 2017, o controle da cidade foi recuperado pelo governo.

Falsa esperança

A guerra expulsou a mais de quatro milhões de sírios de suas casas, comunidades e cidades. A quantidade de pessoas fugindo faz da situação a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. São correntes humanas que, no desespero, cruzam mar e terra para ir a lugares onde simplesmente garantam sua sobrevivência.

O maior símbolo não apenas dessa diáspora, mas também da destruição do passado sírio, é o campo de refugiados de Zaatari, na Jordânia, país vizinho: o maior campo do seu tipo no mundo. Ele acolhe quase 80 mil indivíduos que conseguiram escapar, com suas famílias ou não, do caos e da destruição. Ali, todos são vítimas de uma revolução fracassada, destinada à preservação tanto do legado de seus antepassados quanto do futuro de seus filhos.