“Caos por caos, preferimos aqui”. Numa Itália ainda fechada, brasileiros relatam dificuldades - Revista Esquinas

“Caos por caos, preferimos aqui”. Numa Itália ainda fechada, brasileiros relatam dificuldades

Por Lucas Cavallini e Marcos Freitas : abril 30, 2020

O país foi o segundo epicentro do novo coronavírus e conta com quase 44 mil brasileiros imigrantes, de acordo com estudo publicado em 2017

ATUALIZAÇÃO: Texto ampliado às 16h48 do dia 5 de maio para incluir mais informações sobre a entrevistada Aline Mendes.
ERRAMOS: conteúdo alterado às 16h48 do dia 5 de maio para informar que a cidade destino de Aline Mendes e sua família é Turim, não Milão como dito anteriormente.

Em 1º de fevereiro o paciente zero da Itália voltava da China. 41 dias após esse evento mais de mil mortos da covid-19 estavam sob solo italiano. O mês de março e o começo abril foram os tempos mais sombrios da pandemia, tendo chegado a 969 óbitos em um único dia, 27 de março. Pouco tempo depois do lançamento da campanha “Milano non si ferma” — “Milão não para” em tradução livre —, o prefeito admitiu o erro e decretou quarentena. A população segue dentro de casa até o dia de hoje. A Itália chegou a ser o epicentro mundial do coronavírus durante aproximadamente duas semanas. Com as UTIs lotadas e centenas de pessoas morrendo todos os dias, o país parou para “achatar a curva”. E segue fechado — a reabertura controlada se intensifica agora, no início de maio. Esquinas mergulhou na história de três brasileiras que vivem no país e relatam um cotidiano ainda repleto de dificuldades.

A brasileira Ana Paula Soares, 35 anos, é de Fortaleza, Ceará, e mora na Itália há 10 anos. Atualmente vive com seu marido Luca e seu filho Arthur na comuna de Arconate, região da Lombardia epicentro da doença no país. Já há um caso de óbito por covid-19 na rua em que mora. O homem já era idoso e estava tratando um câncer no hospital. Próximo à realidade do casal, Luca teve um tio contaminado, porém não tinha muito contato com ele. Ana diz que as informações sobre os infectados são sigilosas e de difícil acesso, por isso, não sabem qual o estado do tio e se está internado em algum hospital, ou não.

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Ministério da Saúde da Itália

A cearense Ana Paula trabalhava em uma fábrica terceirizada da Chanel, mas perdeu o emprego depois da chegada da pandemia. O governo prometeu auxílios para  os cidadãos que deixaram de ganhar sua renda em meio à crise, porém Ana relata que esse dinheiro não está chegando. Em compensação as contas chegam normalmente e sem redução de preço, até o momento.

O marido Luca, um italiano de 41 anos, é policial e vai diariamente a Milão para fazer ronda com sua moto. “Vejo bastante gente vagar pelas ruas, mas a maioria está dando voltas com os cachorros ou no trajeto para o mercado”, relata. 

Luca relata pouco movimento durante suas rondas
Luca Zanzottera

Seu papel tem se limitado a checar o que os andantes estão fazendo e, em caso de descumprimento de ordens governamentais, tal qual estar na rua sem motivo plausível, aplicar multas que variam de 400 a 3.000 euros. As medidas de higiene também se modificaram após a pandemia. “Coloco minha farda na máquina três ou quatro vezes por semana, antes era apenas uma. Além disso, deixo os sapatos fora de casa e lavo minha motocicleta após meu turno”, conta.

Luca também comentou sobre o que vê no cenário político durante a crise. “Tem pouca gente menosprezando o vírus, a maioria que falava assim parou depois que as pessoas começaram a morrer por causa do prefeito”, conta. “Esquerda e direita estão juntas agora, acho que todo mundo entendeu que a situação é difícil”, completa o italiano.

A brasileira diz ter medo do que pode acontecer no país de origem. Já alertou seus parentes sobre a gravidade da situação, pois pensa que as medidas tomadas pelo governo brasileiro são muito pouco eficientes para combater o vírus. “O isolamento horizontal rígido é essencial. Caso contrário, o sistema de saúde brasileiro, que já é muito pior que o italiano, entrará em colapso”, diz Ana.

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Ministério da Saúde da Itália e Ministério da Saúde

Ainda residem na casa o sogro e a sogra de Ana, de 70 e 61 anos, respectivamente. Os pais de Luca ficam isolados no andar de cima e, pelo fato do pai já ter histórico de problemas cardíacos, há bastante cuidado nas tarefas diárias. Ana, Luca e Arthur não encontram os idosos senão nos raros momentos em que vão tomar um sol no quintal.

O filho de sete anos do casal faz atividades enviadas remotamente pela pequena escola em que estuda. Os alunos só voltam às aulas em setembro e por isso já passaram de ano, sem haver necessidade de um teste final, como de costume.

A brasileira também fez algumas ressalvas sobre a mídia local, mas entende sua importância nesse momento. “Acredito ter havido algum alarmismo, mas não para assustar, e sim para avisar a população que a situação era mesmo grave. O vírus não é brincadeira”, alerta.

Em Arconate, supermercados, farmácias e bancos seguem funcionando, mas as precauções são muitas, tornando as saídas trabalhosas e cansativas. Apenas duas pessoas entram ao mesmo tempo em um estabelecimento, os clientes têm suas temperaturas medidas, devem estar usando máscaras e luvas, além de manter um metro de distância nas filas. Ela também conta que, com exceção da farinha e do álcool em gel, não sentiu os impactos do desabastecimento.

 

Funcionários dos supermercados estão checando a temperatura dos clientes
Ana Paula Soares

Rafaela Medina é mais uma brasileira que vive a realidade italiana. Com 46 anos e nascida em Porto Alegre, mora na cidade de Rimini, na Emília-Romana, no norte do país. Ela é fumante e está de quarentena voluntária desde o dia 17 de fevereiro por influência de amigos chineses que já tinham alertado sobre a gravidade do vírus.

Antes atuava como agente de comércio e agora se encontra desempregada por causa da pandemia. “Estou recebendo meu seguro desemprego e um bônus governamental de 600 euros. É o suficiente para manter as compras de casa”, conta. Seu marido, Maurizio, 35 anos, trabalha para a Amazon Itália fazendo entregas pela cidade. Utilizando-se do furgão disponibilizado pela empresa, consegue evitar o transporte público na maior parte do tempo. Já a filha — também de nome Rafaela, 20 anos –, é mais uma estudante que recebe apenas atividades online.

A saída de casa se justifica apenas para ir ao mercado. Rafaela, a mãe, utiliza duas máscaras, óculos de proteção, luvas e gorro, enfatizando que a saída deve ser solitária, pois a exposição de mais pessoas é desnecessária. “Mercado não é passeio, estamos lutando contra um inimigo invisível”, alerta.

Aglomeração nas filas de supermercado
Luca Zanzottera

Em decorrência do tempo livre, a brasileira se dedica a aprender novas habilidades e línguas através de cursos online que foram disponibilizados gratuitamente por várias instituições ao redor do mundo. Além disso, os cuidados com a higiene da casa também foram ampliados nessa situação. “Eu nunca limpei tanto a casa como agora, chego a fazer faxina 3 vezes por semana. Não existe só a covid-19, temos que ficar atentos a outras doenças que podem nos tornar vulneráveis”, conta.

Na região onde mora, notou que as varandas de prédios vizinhos receberam mais atenção de seus moradores. Rafaela também fala que o começo da pandemia foi muito confuso. Os italianos não sabiam ao certo como proceder. Rimini, que é uma cidade turística, esvaziou, abalando a economia e o moral da cidade. Agora, já acostumados com o isolamento, ela diz sentir uma maior solidariedade e engajamento da vizinhança. “Algo de se estranhar entre os europeus”, conta.

Para a porto-alegrense, a cobertura midiática italiana é “sensacionalista”, e o fluxo de notícias, “excessivo”. Hoje, ela só assiste ao boletim oficial diário, feito pelo governo italiano. Na TV a programação também mudou. Há uma preferência por programas gravados. E os de auditório, por exemplo, não contam mais com plateia.

Aline Mendes, de 30 anos, deixou João Pessoa e foi para Turim em dezembro de 2019. Seu marido Paulo, 36 anos, conseguiu passar em um teste para fazer doutorado na cidade italiana. O casal levou junto a filha Giulia, de apenas 5 meses de idade. Em fevereiro já começaram a fazer quarentena e pretendem seguir em isolamento até junho.

A ideia de voltar para o Brasil não chegou a passar pela cabeça da família, pois sabiam que a pandemia também chegaria lá. “Caos por caos, nós preferimos ficar aqui”, diz ela. Aline é médica e e relata que seus colegas de profissão reclamam constantemente da falta de equipamentos no país de origem.

O governo italiano demorou mais do que o indicado para iniciar a quarentena, mas isso não parece ser estranho para quem estava morando lá. “Se houvesse parado o país antes, o primeiro-ministro — Guiseppe Conte — seria chamado de louco”, comenta Aline. Ela disse também que a ficha demorou para cair e foi apenas no final de fevereiro em que a Itália percebeu a magnitude da situação. A partir desse momento poucas pessoas continuaram vagando pela cidade. Hoje a movimentação já está aumentando devido ao relaxamento da quarentena iniciado no dia 14 de abril.

Aline conta que seu dia a dia mudou bastante por conta da pandemia. Agora é o marido que faz mercado e não está mais saindo de casa para ir a academia ou levar a filha passear. Ela diz que havia tirado o ano para cuidar de Giulia, por isso não estava trabalhando. De acordo com Aline, a filha do casal não está sofrendo muito com a quarentena. “Para ela tanto faz se está dentro ou fora de casa, o importante é estar de barriga cheia, fralda limpa e com os pais”, afirma.

Filha de Aline observando a pouca movimentação pela janela
Aline Mendes

 Na Itália, as medidas de relaxamento da quarentena já estão com sua programação definida. No dia 14 de abril, livrarias, papelarias e lojas de roupas de bebê voltam a funcionar. O serviço industrial, parte da construção civil e funerais, com até 15 pessoas, podem voltar somente no dia 4 de maio. Em 18 do mesmo mês, o comércio, lojas e bibliotecas começam a abrir novamente. Bares, restaurantes, salões de beleza e barbearias apenas no dia 1° do mês de junho.