Por que a Alemanha se tornou referência no combate ao coronavírus - Revista Esquinas

Por que a Alemanha se tornou referência no combate ao coronavírus

Por Mateus Omena : abril 12, 2020

Testes em massa, preparação antecipada, rígido isolamento social e robusto sistema de saúde alemães são elogiados pela população e OMS

A Europa é o continente mais fragilizado pela pandemia do novo coronavírus. Diversos países fecharam fronteiras, suas economias estão se contraindo e o número de mortes cresce rapidamente. Em meio a esse cenário, a Alemanha vem se destacando por apresentar efeitos mais sutis em relação à doença. Com mais de 100.000 casos confirmados e 1.700 mortes causadas pela covid-19, o país mantém uma taxa de mortalidade de 0,72%, relativamente mais baixa que a de seus vizinhos. Na Itália, país mais afetado pelo contágio, a taxa atual é de 12% — com cerca de 14.000 mortes até o momento. Em seguida está a Espanha, com 9% e em torno de 13.700 óbitos.

Uma razão da taxa comparativamente inferior é aritmética. Segundo o site Wordometers, repositório de estatísticas sobre o coronavírus, a Alemanha é o segundo país que mais testa pessoas no mundo. Até o dia 12 de abril, os germânicos haviam testado 1,3 milhão de pessoas, atrás apenas dos Estados Unidos (2,8 milhão) e muito à frente do Brasil (62 mil testes). O país também está bem ranqueado na comparação de testes por milhão de habitantes: são 15.730 testes a cada milhão de pessoas. No Brasil, apenas 296.

Já o baixo número absoluto de mortes têm outras explicações. A preparação antecipada é uma delas. O governo criou uma comissão especial para o combate ao coronavírus no dia 6 de janeiro, uma semana após a OMS emitir um alerta sobre a doença na China. Quando surgiu o primeiro caso da doença no país, em 27 de janeiro, as autoridades agiram rapidamente para identificar e isolar o paciente.

Em seguida, a primeira ministra Angela Merkel anunciou a necessidade do distanciamento social como uma das estratégias de controle do contágio. Por decreto, todas as escolas, creches e universidades alemãs foram obrigadas a fechar, assim como espaços de lazer e entretenimento. Eventos públicos e reuniões com mais de duas pessoas estão proibidos. Apenas comércios essenciais e restaurantes que realizam entregas a domicílio estão autorizados a funcionar.

Outra razão para o avanço do número de mortes na Alemanha estar bem mais lento do que na maioria de seus vizinhos europeus é a realização de testes em massa. A identificação precoce dos infectados permite colocar em quarentena aqueles que representam risco de disseminação da covid-19. Para pesquisadores da Universidade de Kent, no Reino Unido, o diagnóstico prévio evita a propagação do vírus e pode reduzir a mortalidade.

Segundo um levantamento do Instituto Robert Koch, centro de pesquisa responsável pelo controle e prevenção de doenças na Alemanha, o país tem a capacidade de realizar cerca de 160 mil testes por semana, aplicados até em quem apresenta os primeiros sintomas e não integra o grupo de risco, que reúne idosos e portadores de doenças crônicas. Além disso, a Alemanha vem elevando esforços para proteger seus cidadãos mais velhos — 25% da população alemã tem mais de 65 anos. Diversos estados proibiram visitas a idosos e emitiram alertas para limitar o contato com eles.

Enfermeira em uma casa de repouso em Freiburg, no sul do país, a brasileira Soraia Queiroz conta que a maioria de seus pacientes está acima dos 60 anos. Alguns estão contaminados pelo novo coronavírus, o que reforçou os métodos de proteção. “Tivemos oito casos de infecção numa casa com 40 residentes, então isolamos os pacientes doentes e redobramos os cuidados com higiene e proteção, porque eles dependem muito de nosso auxílio. Mas estamos convivendo com o medo de nos contaminar e transmitir para outras pessoas”, diz Soraia. A enfermeira também revelou que em casas de repouso da mesma rede pessoas morreram e cada vez mais apresentam sintomas.

Dados do Instituto Robert Koch mostram que pacientes com mais de 80 anos representam cerca de 3% dos infectados, embora componham 7% da população. A idade média dos alemães infectados é estimada em 45 anos. Na Itália, por exemplo, é de 63 anos. O sistema de saúde alemão é também um dos fatores que têm feito a diferença no enfrentamento da pandemia. O país dispõe de oito leitos hospitalares por mil habitantes, uma das maiores taxas do mundo. Além disso, há 28 mil vagas de terapia intensiva, cerca de 34 para cada 100 mil habitantes, o maior número na Europa.

No entanto, apesar de o sistema hospitalar estar em bom estado, bem equipado e com grande número de profissionais, muitos especialistas alegam que há sinais de que os serviços de saúde podem ficar sobrecarregados. Enquanto o número de infectados cresce, materiais vitais como máscaras e outros equipamentos de proteção estão se tornando escassos nos hospitais. Algumas associações médicas temem que dentro de um curto período de tempo não haja recursos de terapia intensiva suficientes na Alemanha para tratar todos os pacientes.

Segundo o ministério da saúde alemão, a Renânia do Norte-Vestfália (Nordrhein-Westfalen), estado no norte do país, é uma das regiões com o maior número de infectados e mortos — 21.582 e 347, respectivamente. “O primeiro caso na região apareceu no dia 3 de março. Seguindo as diretrizes da OMS, uma semana depois as autoridades orientaram que escolas, bares e shows fossem fechados”, afirmou Wilson dos Santos, professor brasileiro residente na cidade de Essen, na Renânia do Norte-Vestfália.

De acordo com o professor, os casos de covid-19 em sua cidade saltaram para 3.500, e, com esse cenário assustador, a população parece estar levando a sério as recomendações de afastamento social. “Das poucas vezes que saí de casa, vi as pessoas fazendo apenas aquilo que tinham que fazer, especialmente compras. Os mercados não podem ficar lotados e não recebem crianças por motivos de segurança. Se aparecer um casal, só uma pessoa entra no estabelecimento”, afirma.

Wilson também diz que há pessoas que insistem em romper a quarentena e, por isso, o governo local e a polícia vêm aplicando medidas rígidas para evitar circulações desnecessárias. “Algumas pessoas vão ao parque e a locais públicos de lazer que estão proibidos no momento. Se você for pego pela polícia sem nenhuma razão aceitável para sair de casa, você é submetido a um teste. Caso dê positivo para coronavírus, você paga uma multa de 25 mil euros; se for negativo, são 400 euros. Só uma justificativa muito boa pode livrar alguém da penalização”, explica.

Apesar dos crescentes números de infecções pela doença, a chanceler Angela Merkel agradeceu em um pronunciamento o povo alemão, que, “em sua maioria, vem respeitando as regras de isolamento”. “Eu vejo que grande parte das pessoas está realmente respeitando as recomendações do governo. Seguir as regras e agir com disciplina são comportamentos comuns entre os alemães”, afirma o professor.

Os esforços do governo de Merkel e de suas instituições de saúde vêm ganhando elogios da população e da OMS, e suas medidas estão sendo vistas mundialmente como um exemplo a ser seguido no combate à pandemia de coronavírus. “As providências adotadas até agora estão ajudando a controlar a disseminação do vírus, como as quarentenas e restrições para as circulações nas ruas. Eu confio na competência do governo para reduzir os efeitos da pandemia”, afirma Soraia.