Da consulta ao exame: a realidade da mamografia no SUS

Da consulta ao exame: a realidade da mamografia no SUS

Por Gabriela Marques e Luíza Claudino : outubro 29, 2026

(Outubro rosa é o mês da conscientização e prevenção do câncer de mama.Fonte:Pexels)

Do primeiro diagnóstico ao laudo final, a jornada para conseguir uma mamografia na rede pública de saúde expõe entraves burocráticos e atrasos que comprometem a saúde da mulher

O mês de outubro é marcado pelas ações de conscientização sobre a importância da prevenção, do diagnóstico e do tratamento do câncer de mama promovidas pela campanha do “Outubro Rosa”. Em diversas cidades do estado de São Paulo, mutirões para a realização de mamografias ocorreram ao longo do mês. Ações governamentais, como as Carretas da Mamografia, têm ajudado a aumentar a cobertura do exame. Segundo o governo do estado, por meio desse programa, mais de 60 mil exames foram realizados em 2025.

Mesmo com essas iniciativas, pessoas que precisam da rede pública relatam sofrer dificuldades para realizar a mamografia pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

A manicure paulistana Deise Neris, de 49 anos, usa o SUS desde sempre e conta que a maior dificuldade não é só fazer o exame, mas sim conseguir uma vaga para passar na consulta e pegar o pedido médico:

“No caso da ginecologista, não estou conseguindo marcar porque está sem vaga no aplicativo. Acho que estou há mais de seis meses esperando abrir vaga para mostrar meus exames”, relata Deise

Ela lembra que, quando as carretas chegam aos bairros, a maioria das mulheres não consegue atendimento direto porque falta a documentação exigida:

“Eles falam que é campanha, mas muitas das vezes você não pode só chegar lá e fazer, tem que ter o pedido médico. Sem a guia, eles não liberam. Já que é uma campanha, deveria liberar para todo mundo que está na idade indicada, sem precisar do pedido”, desabafa

A demora continua depois do exame pronto. Sem vaga para mostrar o resultado, o exame corre o risco até de perder a validade:

“Depois que você faz a mamografia, vem a saga para marcar com a ginecologista novamente, para ela te dar o resultado. Não é tão simples como dizem, dá para levar um ano no processo todo”, completa

Esse tempo de espera para conseguir consulta e exame reflete diretamente nos números do país. De acordo com o levantamento de 2024 realizado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, mais de 77 mil mulheres esperam na fila do SUS durante um período que pode ultrapassar os 80 dias, dependendo da localidade.

Outra pesquisa, feita em 2024 pelo Instituto Locomotiva, concluiu que a maioria das pessoas da Classe C (classe econômica mais baixa) sofre principalmente quando busca uma consulta com um especialista, sendo nove em cada dez brasileiros dessa faixa que tentaram marcar consulta pelo SUS e afirmam que o tempo de espera foi longo.

O perigo da descoberta tardia do câncer

Na faixa etária de Deise, mulheres de 40 a 49 anos, 54,6% delas descobrem o câncer de mama já em estágio avançado (fases 3 e 4). Ao observar todas as idades, 51% das mulheres no SUS só descobrem a doença quando ela já avançou. Entre as mais jovens, de 20 a 29 anos, a situação é ainda mais grave: sete em cada dez descobrem o tumor já em fase avançada.

Mamografia

(Porcentagem de casos de acordo com a faixa etária das mulheres/Imagem: feito com Inteligência Artificial).

O processo de diagnóstico da doença se inicia com o exame-padrão, a mamografia. A recomendação de rastreamento periódico (geralmente a cada dois anos) abrange mulheres entre 50 e 74 anos, e também há disponibilidade para a faixa etária de 40 a 49 anos sob demanda ou indicação médica.

Ademais, existe discrepância entre as recomendações formais dos órgãos de saúde pública e as diretrizes estabelecidas pelas sociedades científicas. Até o ano passado, o Ministério da Saúde recomendava o rastreamento mamográfico bienal prioritariamente para a faixa etária de 50 a 74 anos, enquanto entidades como a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia já orientavam a realização anual do exame a partir dos 40 anos. A divergência de parâmetros impacta o fluxo de emissão de guias médicas e a distribuição de exames no sistema público.

Assim que o laudo comprova o câncer de mama, o paciente é inserido em uma fila regulada pela Secretaria de Saúde e encaminhado para uma unidade de alta complexidade em oncologia, como os CACON (Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia) ou UNACON (Unidades de Alta Complexidade em Oncologia).

Pela Lei nº 12.732/2012, o SUS tem o prazo legal de até 60 dias, contados a partir da assinatura do laudo patológico, para iniciar o primeiro tratamento (cirurgia, quimioterapia ou radioterapia). O cuidado é individualizado conforme as circunstâncias de cada caso e, se for necessária cirurgia, esta também é garantida pela rede pública, segundo o site do governo brasileiro (gov.br).

Porém, apesar de a previsão de espera ser de, no máximo, 60 dias, em 2025 o tempo médio de espera no SUS foi de 86 dias. Em meio a esse cenário de atrasos, 21.668 mulheres morreram de câncer de mama no Brasil em 2025, com um aumento de 39% nas mortes em dez anos.

Distribuição de mamógrafos pelo país

A análise das etapas de atendimento do sistema público expõe que a retenção de pacientes ocorre predominantemente nos pontos de transição da atenção básica para a atenção especializada. O fluxo regulatório, coordenado por plataformas eletrônicas estaduais e municipais de agendamento, opera frequentemente com restrição na oferta de cotas mensais por UBS (Unidade Básica de Saúde). A indisponibilidade de agendas para consulta de retorno atrasa a avaliação diagnóstica de laudos conclusivos, levando, em alguns casos, à necessidade de repetição de exames de imagem.

Embora o número total de mamógrafos cadastrados nos registros do Ministério da Saúde atenda aos parâmetros quantitativos teóricos por habitante, a concentração dos aparelhos se verifica nas capitais, nas grandes regiões metropolitanas e nos estabelecimentos privados vinculados complementarmente ao SUS.

Em municípios de menor porte e regiões periféricas, a indisponibilidade local de mamógrafos exige o deslocamento interestadual ou intermunicipal de pacientes, gerando filas de espera prolongadas e dependência de logística de transporte público.

Além das distâncias, a paralisação de máquinas na rede pública interrompe o fluxo diário de exames. Quando um mamógrafo quebra em um hospital do SUS, o conserto costuma demorar por causa da burocracia dos processos de licitação e compra de peças de reposição. No Distrito Federal, por exemplo, uma inspeção de auditores do Tribunal de Contas fez um mapeamento da situação dos equipamentos de Radiologia, indicando falta de manutenção e paralisações.

A falta de médicos radiologistas contratados na rede pública para analisar as imagens com agilidade também contribui para a lentidão na entrega dos laudos finais aos postos de saúde.

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A importância de campanhas e o futuro do SUS

O Outubro Rosa contribui para ampliar o debate sobre o câncer de mama e incentivar a procura por atendimento. Entretanto, a conscientização precisa ser acompanhada de soluções eficazes para que a população consiga realizar os exames indicados e dar continuidade à investigação quando necessário.

Mais do que contabilizar procedimentos realizados em um mês, o desafio é garantir que cada pessoa percorra a jornada do atendimento com informação e encaminhamento adequado. A efetividade da política de detecção precoce depende não apenas de descobrir possíveis alterações, mas também de assegurar que elas sejam investigadas e, quando houver confirmação de câncer, que o tratamento comece no tempo necessário para que as mortes possam ser evitadas.

Entre a consulta e o laudo final, cada fase faz diferença. Para quem depende exclusivamente da rede pública, o acesso à mamografia não é apenas uma questão de agenda; é parte de um cuidado que precisa funcionar de forma contínua, desde a primeira suspeita até o tratamento.

O futuro do SUS passa justamente pela capacidade de transformar a mobilização de outubro em uma política pública permanente de saúde. Reduzir os vazios assistenciais entre as capitais e o interior e integrar o diagnóstico precoce ao início imediato da terapia são os passos indispensáveis para que o direito à saúde seja, de fato, pleno e universal.

Para Deise e outras milhares de mulheres, o Outubro Rosa tem ações importantes que precisam se estender ao longo do ano para que a saúde das brasileiras não seja negligenciada. Afinal, garantir o direito à saúde pública e universal vai muito além de campanhas periódicas ou exames em mutirões sazonais: é preciso compromisso contínuo por meio de políticas públicas eficientes.

Editado por Mariana Lima

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