"É o exagero e excesso que não fazem bem", afirma psicóloga sobre fanatismo no futebol - Revista Esquinas

“É o exagero e excesso que não fazem bem”, afirma psicóloga sobre fanatismo no futebol

Por Guilherme B. Abude, Guilherme Vitali, José Neto e Rodrigo Nogueira : junho 6, 2024

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a ansiedade afeta um terço (31,6%) da população entre 18 e 24 anos – é o maior índice entre todas as faixas etárias no Brasil. Foto: Reprodução/Pexels

A relação entre o esporte mais consumido pelos brasileiros e o fanatismo pode gerar danos a saúde física e mental; especialistas discutem

“A palavra “fanático” já carrega em si a conotação negativa. É o exagero e excesso que não fazem bem ao indivíduo”, afirma a psicóloga Vânia Paula de Souza. No contexto social, o fanatismo pode ser prejudicial em dois aspectos.

O primeiro se relaciona com a formação de grupos fechados, que podem em algum momento criar inimizade entre eles, ocorrendo o esgarçamento dos vínculos sociais, segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, é o percusor de regimes totalitários. O segundo se aproxima da violência, comum em relações emocionais entre indivíduos obcecados por pessoas, temáticas, ideais, entre outros.

A psicóloga pontua que possíveis atitudes agressivas não ocorrem somente pelos sentimentos ou sensações, é apenas a decorrência de um indíviduo predisposto a agredir. Em casos mais extremos, os mesmos, podem possuir graus de psicopatia, onde o “amor” pela ideia é usada como desculpa em suas ações.

A forma como afeta

Se pensarmos em escala individual, o fanatismo pode interferir o dia a dia da pessoa. E segundo Souza, é a situação mais complicada, pois os indivíduos acabam por dedicar boa parte de seu tempo a prática do vício, essa muitas vezes fomentada pelo futebol. O torcedor do Santos Wagner Ferreira, de 18 anos, diz que quando seu time não consegue os melhores resultados, a sua rotina é afetada negativamente. “Não me orgulho. É algo que eu tenho e não consigo mudar. Quando o Santos perde fico triste e com raiva, já tive sintomas de ansiedade durante os jogos”, lamenta.

De acordo com a psicóloga Souza, a ansiedade é uma sensação de nervosismo, preocupação ou desconforto, que pode gerar danos a saúde. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a doença afeta um terço (31,6%) da população entre 18 e 24 anos – é o maior índice entre todas as faixas etárias no Brasil.

Outro torcedor, só que do rival Palmeiras, também viveu os mesmos sintomas. “Era um jogo contra o River Plate pela Copa Libertadores de 2020. Acabamos ganhando, mas depois da partida comecei a ter uma crise de ansiedade, fiquei me tremendo no sofá com o coração palpitando. Só fui me sentir melhor depois de duas horas”, relembra o estagiário de TI Matheus Mello, de 24 anos.

fanatismo

Contra o River Plate, o Palmeiras alcançou a décima classificação seguida em confrontos de mata-mata, contando Campeonato Paulista e Copa do Brasil, além de Copa Libertadores.
Foto: Cesar Greco/Palmeiras

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Relação entre fanatismo e saúde

No contexto da medicina, hoje, não há nenhum artigo que evidencie uma ligação direta entre fanatismo e doeças, principalmente as de caráter cardíaco. Mas com base nos estudos do professor Erick Francisco Quintas Conde, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), é possível afirmar que torcedores fanáticos apresentam alterações neurofuncionais quando comparados com pessoas menos obsessivas.

”Normalmente o que pode ocorrer é o indivíduo ter um sintoma psicossomático – causados por sofrimento emocional. Pois ao se expor a sentimentos, como ansiedade e estresse, esses podem se manifestar no corpo humano. Mas, na maioria, só acontecem com pessoas já predispostas”, comenta o cardiologista Francisco Geraldo Guercio.

O médico analisa que a experiência do torcedor Matheus se encaixa em um quadro psicossomático, sem que o paciente tenha, necessariamente, alguma doença. “Não é um fator de risco isolado, mas se agregado a outras situações como sedentarismo, hipertensão ou predisposição genética, torna-se um problema.” Guercio adiciona possíveis catalisadores de doenças cardíacas, que o ambiente do futebol proporciona: a dificuldade de acesso aos banheiros nos estádios, a desidratação, o consumo alcóolico e a má alimentação.

O cardiologista finaliza que não há contraindicações para um torcedor fanático assistir aos jogos do seu time, a não ser em casos específicos, nos quais a pessoa tem algum problema de saúde. Com isso, devem, preferencialmente, acompanhar as partidas de casa, para evitar o ambiente conturbado dos estádios.

Editado por Ronaldo Saez

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