Exclusivo: embaixador do Brasil em Belarus critica presidente que receita vodca contra covid-19 - Revista Esquinas

Exclusivo: embaixador do Brasil em Belarus critica presidente que receita vodca contra covid-19

Por Gabriel Herbelha : maio 16, 2020

Paulo Feres comenta a atual situação de uma das únicas nações do mundo cujo governo é negacionista em relação à doença

Declarações polêmicas do presidente de Belarus sobre a covid-19 são responsáveis pela atenção que o país recebeu do restante do mundo. Situado no leste europeu, é antigo membro da União Soviética, independente desde 1990, quatro anos antes do início do governo de Aleksandr Lukashenko. O líder vem fazendo discursos negacionistas, desdenhando do vírus e classificando-o como uma “psicose”, enquanto a nação já registra mais de 27 mil casos da doença. Paulo Fernando Dias Feres, diplomata que ocupa o cargo de Embaixador do Brasil em Belarus desde 2019, após indicação do então presidente Michel Temer, contou à ESQUINAS qual a situação vivida na nação frente à pandemia.

De Minsk, capital do país, Feres observa que, apesar da falta de ações governamentais, há um movimento da população para se proteger. “Não há medidas de distanciamento social, mas as pessoas fizeram isso por conta própria. Estão usando máscaras, se protegendo espontaneamente”, afirma.

O excêntrico líder ganhou a atenção do noticiário internacional por seu “receituário” contra o vírus, que incluía uma dose de vodca, banhos de sauna e até mesmo comer manteiga. Recentemente, chegou a jogar hóquei em um estádio local, considerando que a prática esportiva evita que a pessoa adoeça. Feres reitera que “ele não é levado muito a sério”. “Ele admite a doença. Ele nunca disse que esse negócio era uma gripe, por exemplo. Isso ele nunca falou, o que ele falou é que ele acha que é tudo um exagero”, completa.

Brasil e Belarus não possuem grandes laços diplomáticos. Na economia, seus negócios geram 700 milhões de reais por ano, muito devido à importação brasileira de Cloreto de Potássio para produzir fertilizantes. Mas é por um fator negativo que os dois países se esbarram. Seus chefes de estado foram eleitos pela revista The Economist como membros da “Aliança do Avestruz”, termo cunhado para caracterizar políticos negacionistas e críticos em relação ao coronavírus e às recomendações feitas pela OMS, como a quarentena e o distanciamento social.

Nesse sentido, em relação a Lukashenko, o embaixador brasileiro critica sua gestão em meio à crise.  “Você não sabe ao certo o que está acontecendo na Belarus. O governo divulgou dados que reportaram um número muito pequeno de casos por aqui. Isso causou descrédito. Os próprios bielorrussos começaram a fazer gozação com isso”, diz Feres.

Em relação ao Brasil, prefere não comentar sobre o presidente Jair Bolsonaro, pois seria uma “quebra de hierarquia” de sua parte. Mas elogia as ações tomadas pelos governantes em âmbito estadual: “As orientações dadas pelas OMS e aplicadas pelos governadores, na minha opinião, são atitudes corretas nesse momento”.

A decisão do governo bielorrusso de manter o país funcionando sem restrições foi tomada pensando estritamente na economia. Segundo o embaixador, o cálculo de Lukashenko é simples: “Para ele, esses países [da Europa Ocidental] não vão se recuperar imediatamente. Vão demorar um ano, dois, pra poder caminhar com as próprias pernas. Com a economia funcionando, Lukashenko vai ter o que vender pra eles”.

Sobre as medidas governamentais dos países no combate ao coronavírus, ele observa grandes diferenças. “No Brasil houve mais uma espécie de confusão mesmo, de você ter diferentes autoridades dizendo coisas diferentes. Uma orientação do Ministério da Saúde, o presidente não concordando , e isso gera confusão. Mas aqui  não é isso, não há confusão, simplesmente não há uma orientação”, compara.

Sobre o movimento durante a pandemia, Feres diz que a Embaixada Brasileira no país continua aberta, porém com restrições. O embaixador, por exemplo, está de home office. “Eu deixo duas pessoas na Embaixada todo o dia. O pessoal do consulado vai lá porque tem certo movimento. Não de brasileiros que moram por aqui, mas de brasileiros que estão passando por aqui para atravessar o país”, explica.

O número de brasileiros que residem no país, “pouquíssimos”, segundo o diplomata, não chega a cem.  A Embaixada foi aberta em 2011, e Feres é o terceiro a ocupar o cargo de Ministro de Primeira Classe no país. “Estamos desbravando, mas está indo bem”, diz o embaixador, que considera seu trabalho bem feito. Somente três países do continente americano além do Brasil possuem embaixadas em Belarus  — Estados Unidos, Cuba e Venezuela.

Vindo de uma família de médicos, Feres foi cirúrgico ao comentar como enfrentar esse momento pandêmico: “A única maneira de conter a epidemia é fazer o que está sendo feito, isolamento social”.