“Nos sentimos abandonados”, diz casal de brasileiros repatriados da Namíbia - Revista Esquinas

“Nos sentimos abandonados”, diz casal de brasileiros repatriados da Namíbia

Por Mateus Omena : julho 10, 2020

Casal detalha as dificuldades enfrentadas durante o lockdown em Windhoek e as desavenças com a embaixada brasileira.

“Nós partimos numa viagem de férias de 18 dias. A expectativa era de viver muitas aventuras e descansar. Mas nada disso aconteceu. Fomos pegos de surpresa pelo confinamento em massa”, disse Eduardo Almeida, engenheiro de 55 anos. Impedidos de retornar  ao Brasil, ele e sua esposa, a advogada Simone Faleiros, 44, chamaram a atenção da imprensa para pedir socorro às autoridades diplomáticas e denunciar as negligências da embaixada brasileira em Windhoek, capital namibiana. Depois de 29 dias de espera, o casal paulistano foi repatriado e atualmente cumpre quarentena em casa.

Logo que a OMS declarou a pandemia do novo coronavírus, em 11 de março, alguns países rapidamente aderiram ao lockdown e fecharam suas fronteiras para controlar a propagação da Covid-19. Por conta desses bloqueios, muitos voos foram cancelados e turistas enfrentaram dificuldades para voltar aos seus países de origem. Entre março e abril, Eduardo e Simone  passavam férias na Namíbia quando, repentinamente, o governo determinou o confinamento e a paralisação dos aeroportos. Em entrevista à Esquinas, Simone e Eduardo narram as aflições enfrentadas no país africano.

 

ESQUINAS VOCÊS VIAJARAM NO DIA 15 DE MARÇO, POUCOS DIAS DEPOIS DA OMS DECRETAR A PANDEMIA. MESMO ASSIM PREFERIRAM SE ARRISCAR?

“Os casos eram poucos no mundo todo, mesmo com a agitação que surgiu. Além disso, a África era o lugar mais seguro até então. Por isso ficamos despreocupados e seguimos viagem. Nos sentimos seguros em ver que nos aeroportos e estabelecimentos comerciais havia funcionários distribuindo álcool em gel às pessoas. Percebemos que os cuidados necessários estavam tomados”.

ESQUINAS VOCÊS ACOMPANHAVAM AS NOTÍCIAS SOBRE A SITUAÇÃO DA COVID-19 NA NAMÍBIA?

“Durante os passeios, era difícil ler as notícias sobre a Covid-19 e as ações do governo. Por muitos dias, nós acampamos em deserto aberto para conhecer as reservas naturais, mas não são em todos os cantos da Namíbia que há sinal de internet. Então, ficamos um bom tempo sem acesso à informação. Mas, já sabíamos que os países vizinhos estavam fechando suas fronteiras. Porém, quando paramos numa cidadezinha do interior e percebemos que as pessoas estavam apreensivas, compramos um jornal e vimos que a Air Namibia, principal companhia aérea do país, anunciou que continuaria suas atividades normalmente e nenhuma notícia falava em lockdown”.

ESQUINAS QUANDO SOUBERAM DO LOCKDOWN ? QUAIS PROVIDÊNCIAS VOCÊS TOMARAM?

“Do dia para noite, o governo ordenou o fechamento das fronteiras. Fomos buscar informações na internet sobre a Air Namibia, para verificar se ainda existiam voos. Mas quase todos haviam sido cancelados, inclusive o nosso para o Brasil, no dia 02 de abril. Ficamos desesperados. Então, informamos nossa situação à embaixada brasileira na capital, Windhoek, e seguimos para lá para obter algum tipo de auxílio”.

ESQUINAS EM MUITOS PAÍSES, OS HOTÉIS ESTÃO PROIBIDOS DE RECEBER HÓSPEDES DURANTE O LOCKDOWN. ONDE FICARAM ALOJADOS? TIVERAM DIFICULDADES FINANCEIRAS?

“Ficar em hotel era arriscado por causa do contágio e muitos hóspedes estavam sendo expulsos. Quando chegamos em Windhoek, alugamos um apartamento pelo AirBnB. Durante o período em que ficamos presos na cidade, o dono do imóvel foi sensível com a nossa situação. Ele nos deixou ficar o tempo que precisássemos e concedeu grandes descontos no valor do aluguel. Graças a Deus não ficamos sem dinheiro, porque fizemos uma reserva de dólares e adotamos um controle rígido. A prioridade dos gastos era nossa alimentação”.

ESQUINAS VOCÊS AFIRMARAM QUE TIVERAM PÉSSIMAS EXPERIÊNCIAS COM A EMBAIXADA BRASILEIRA EM WINDHOEK. ISSO PREJUDICOU A REPATRIAÇÃO?

“No início, os serviços da embaixada foram bons, nos davam conselhos úteis de prevenção ao vírus. Mas a partir da primeira semana de abril, as coisas foram piorando. Para começar, todas as sugestões de saída da Namíbia, por voos de repatriação vieram de nós, que corremos atrás de informações e possibilidades. A embaixada não apresentava nenhuma solução. Ficamos sabendo de um voo de Joanesburgo até Guarulhos e pedimos a ajuda dos cônsules para aproveitar essa chance. E nada foi feito. Descobrimos que havia um voo de repatriação de turistas alemães. Então liguei para a embaixada e perguntei se era possível nos colocar nesse voo. E eles rapidamente negaram. Dias depois surgiram vários voos na África do Sul e pedimos ajuda da embaixada. Nada de novo. Eles nem chegaram a negociar, fizeram pouco caso de nós. O serviço da embaixada foi péssimo. Eles tinham apenas dois brasileiros para ajudar, mesmo assim foram incompetentes. Nos sentimos bastante negligenciados e abandonados. Então decidimos ir até lá”.

ESQUINAS O QUE FOI FEITO QUANDO FORAM RECLAMAR NA EMBAIXADA?

“Nada! Isso ocorreu em 03 de abril. Nós avisamos com antecedência sobre a nossa visita, mas o pessoal da embaixada simplesmente não nos atendeu. Ficamos o dia inteiro na porta da embaixada pedindo ajuda. Mesmo assim, eles tiveram a cara de pau de nos ligar via Whatsapp de dentro do estabelecimento, sendo que estávamos na calçada. A vice-cônsul nos atendeu com grosseria e um tom de voz elevado, dizendo: ‘Fala! Diga!’. Nem se deram o trabalho de abrir a porta ou uma janela e conversar com a gente dali”.

ESQUINAS DEPOIS DESSE EPISÓDIO VOCÊS PROCURARAM A AJUDA DAS AUTORIDADES LOCAIS?

“Apenas dos serviços de imigração. E nisso descobrimos outro problema. No dia 30 de março, numa das primeiras visitas à embaixada, os funcionários pediram cópias dos nossos documentos para validar os vistos. Demorou muito tempo para nos darem um resultado, ficamos achando que estava tudo certo. Quando ligamos para pedir informações, nos disseram que o visto estava vencido, que nós éramos responsáveis pelo documento e, por isso, estávamos ilegais no país. Ficamos assustados e profundamente aborrecidos, porque nosso visto venceu em decorrência da lentidão e irresponsabilidade da embaixada brasileira. Contávamos também com o apoio do pessoal do Itamaraty, que entraram em contato com a embaixada em Windhoek para nos ajudar e confirmaram que o embaixador e os funcionários estavam realmente de picuinha com a gente”.

ESQUINAS COMO VOCÊS LIDARAM COM TAMANHA TENSÃO E ANSIEDADE?

“Enfrentar esses problemas fora de casa e as chances desperdiçadas de voltar ao Brasil, por causa da incompetência da embaixada, nos deixaram bastante frustrados. Levantávamos cedo todos os dias, batalhando e buscando alternativas para voltar para. Somos parceiros, então cuidávamos um do outro. E finalmente conseguimos um vôo no dia 24 de abril, com a ajuda de alguns amigos que fizemos nessa viagem”.

ESQUINAS COMO ESSA REDE DE CONTATOS FACILITOU A VOLTA AO BRASIL?

“Como estávamos brigados com a embaixada, a gente se virou para saber de voos que poderiam nos levar para casa. Conseguimos muitas informações por um grupo de Whatsapp com brasileiros residentes na Namíbia e outros países do sul da África. Um amigo nosso que mora em Maputo, Moçambique, nos avisou de um voo no dia 24 de abril que sairia de Windhoek até Luanda e que incluiria os brasileiros que estavam na cidade. Isso nos deu esperanças. Se não fosse ele, não saberíamos dessa oportunidade. Esse nosso amigo entrou em contato com a embaixada brasileira de Luanda, que garantiu nossas vagas no voo. Uma advogada do Itamaraty, que há um tempo estava nos ajudando, negociou com a embaixada em Angola um salvo conduto que nos dava permissão para entrar no país.”

ESQUINAS COMO FOI FEITO O TRAJETO ATÉ LUANDA E, DEPOIS, O RETORNO AO BRASIL?

“Depois de um tempo nos ignorando, a embaixada de Windhoek ligou, avisando que estavam cientes do salvo conduto para entrar na Angola e que haviam alugado um carro para nos levar até lá. E falaram que outra brasileira viajaria junto conosco até Luanda. Às 3h00 do dia 24 de abril, o carro buscou a gente no apartamento onde estávamos confinados e fomos até a embaixada encontrar a outra brasileira, o embaixador e alguns cônsules. Tirando o embaixador, todos foram gentis e atenciosos com a gente. Finalmente seguimos para o aeroporto, que estava fechado, mas havia um pequeno avião fretado esperando por nós. Antes de embarcar, os seguranças mediram nossa temperatura para verificar se possivelmente estávamos  com Covid-19. Depois disso, decolamos para Luanda. Porém, não tínhamos oficialmente um visto e a Angola exigia que os estrangeiros ficassem de quarentena por 14 dias. Para obter o salvo conduto de chegada à Angola, a condição negociada foi que entrássemos no país despercebidos. Da decolagem até o pouso, a aeronave teve que parecer um fantasma, inclusive nós. Se algo desse errado poderíamos ficar retidos no país e perder o voo para o Brasil.

Quando pousamos em Luanda, entramos no aeroporto praticamente pelos fundos, sem passar pela imigração e verificação de identidades. Ficamos esperando nosso próximo avião, que vinha de Maputo, Moçambique, e foi contratado pela embaixada de Luanda para nos levar até Guarulhos. O embarque estava previsto para 13h00, mas o voo atrasou cerca de 5 horas. Isso nos deixou ainda mais ansiosos. O embaixador brasileiro em Luanda veio pessoalmente dar essa notícia e foi bastante gentil e solícito, sempre perguntando se estávamos bem. Mas no final deu tudo certo, conseguimos decolar e chegamos em casa muito bem. Foi um processo longo e desgastante. Se não desse certo, acho que estaríamos presos lá até hoje, porque dificilmente haveria outra oportunidade. Literalmente pegamos o último bonde para voltar para casa.

Ao chegar em São Paulo, no dia 25 de abril, Eduardo e Simone ficaram imediatamente em quarentena e até hoje estão trabalhando de casa.