Os desafios de quem vive no limite - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Os desafios de quem vive no limite

Por Bárbara Cristina : setembro 27, 2018

Ainda sem tratamento específico, o Transtorno de Personalidade Borderline cresce entre os jovens

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido por Limítrofe, é caracterizado por uma distorção do conhecimento que o indivíduo tem de si e desregulação emocional que desencadeia respostas exageradas e impulsivas. O conceito atual do distúrbio foi formulado na década de 1980 e incluído na classificação norte-americana do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou simplesmente DSM. A personalidade limítrofe é frequentemente diagnosticada em adolescentes e adultos jovens com problemas sérios de identidade e comportamento instável. Segundo o DSM, há um predomínio de diagnósticos no gênero feminino, que são quase 75% dos casos.

O TPB se classifica por um intenso medo de abandono e intensas crises de raiva e irritabilidade. No entanto, a forma como o Borderline se manifesta é difícil de compreender, muitas vezes sendo confundido com outros transtornos, como a bipolaridade, devido às variações psicóticas e neuróticas. Atualmente, a comunidade científica prevê que o transtorno atinja entre 2% e 6% da população mundial, apesar de não haver um censo específico para o cálculo do crescimento do TPB.

Mapas de calor de dois cérebros. À direita, um cérebro “saudável”, e à esquerda o órgão de alguém com borderline
Reprodução

“O Borderline se dá por uma interação de fatores genéticos e ambientais, que em geral estão relacionados à infância e à dinâmica na família”, explica o psiquiatra Geilson Lima Júnior. O transtorno é muitas vezes tido como um tabu, tanto na comunidade científica quanto no meio social do diagnosticado, já que já que é uma descoberta da ciência recente. Para piorar a situação, muitos profissionais da área da saúde se sentem incapacitados para lidar com o transtorno, devido às altas chances de suicídio nos primeiros meses de tratamento.

Há uma forte correlação entre o desenvolvimento do Transtorno Borderline e experiências traumáticas na infância, tal como abuso infantil, seja físico, sexual, verbal ou emocional. A perda de algum membro próximo da família ou dos responsáveis pode ser um dos fatores também. Em uma pesquisa realizada em 2015 pelo Hospital McLean, de Massachusetts, nos Estados Unidos, em parceria com a Escola Médica de Harvard, foi sugerido que crianças que passaram por maus-tratos crônicos e por dificuldades afetivas podem desenvolver o transtorno. Sua causa, no entanto, não é somente psicossocial, mas também pode haver a influência dos aspectos genéticos no indivíduo. Nem todos os diagnosticados com a personalidade limítrofe sofreram abusos ou maus-tratos. Fatores relacionados à herança genética estão ligados a 65% dos casos diagnosticados de Borderline.

“As pessoas veem uma pessoa que tem um transtorno como alguém anormal. Há uma estigmatização dessa pessoa. Você fica vulnerável e exposto porque os outros se afastam”, pontua Isabela Seabra, estudante de Psicologia e diagnosticada com o TPB desde 2015. Para a jovem, mesmo que a relação com uma dessas pessoas não seja fácil, é sempre bom ter alguém a apoiando para não ter que lidar com as emoções sozinho.

Thiago Sguoti é influenciador digital, atualmente com cerca de quatro mil seguidores na sua conta no Instagram e aproximadamente dois mil inscritos em seu canal do Youtube, e diagnosticado com o Transtorno Limítrofe. Graduado em Artes Visuais pela FMU, transformou por meio da arte sua experiência com o TPB. “Meu TCC da faculdade foi sobre o Borderline. Criei uma série de trabalhos de artes visuais voltada para o transtorno, transformei minhas dores em algo bom”, relembra Sguoti.

Não há um medicamento específico para a patologia no geral, mas pode-se utilizar antidepressivos ou estabilizadores de humor. Além do tratamento baseado na farmacoterapia, é preciso realizar a psicoterapia. “Como os pacientes apresentam um emocional que oscila com frequência, isso interfere muito no cotidiano deles. O psicólogo os ajuda a perceber o que está acontecendo”, esclarece a psicóloga Marcela Cruz. Segundo ela, é fundamental que o diagnosticado se vincule ao tratamento, busque ajuda e apoio para descobrir qual é o possível gatilho daquela situação, mesmo que nem todos desvios de comportamento sejam solucionados.