Publicitário, youtuber e drag queen - Revista Esquinas

Publicitário, youtuber e drag queen

Por Gustavo Ramos, Maria Eduarda Carvalho e Marina Lourenço : fevereiro 7, 2019

Danilo Dabague, a pessoa por trás da drag Lorelay Fox, comenta sobre YouTube, montação, política e outros temas

“Eu me monto há tantos anos, que parece que sempre fez parte de mim”, revela com entusiasmo Danilo Dabague, dono do canal Para Tudo no Youtube, em que performa e se apresenta como a drag queen Lorelay Fox. Comportamento, maquiagem, reflexões, política. Tudo é tema na plataforma de variedades da maior youtuber drag queen do Brasil.

Em uma entrevista dada à ESQUINAS, Dabague contou sobre sua trajetória: a iniciação no universo LGBT, sua primeira montagem e a descoberta de sua carreira. Hoje com 32 anos, revela que se descobriu homossexual na adolescência, mesmo período em que começou a frequentar escondido dos seus pais as baladas na época conhecidas como GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Se antigamente estranhava a cultura drag, não imaginava que se tornaria o maior youtuber brasileiro a falar sobre a temática.

Com a voz calma, detalha sua transformação de Danilo à Lorelay. A drag que hoje faz tutoriais se montou pela primeira vez aos 17 anos, com a ajuda de um amigo, buscando diversão na interiorana Sorocaba, local em que nasceu. A ideia de criar um canal no YouTube surgiu a partir da escassez de espaços voltados ao público LGBT na cidade. A falta de representatividade onde vivia foi a força motriz para que clicasse no “Rec” da câmera.

Formado em Publicidade, Dabague planejou sua carreira como se estrategicamente pensasse uma marca, alcançando posições antes inimagináveis, como sua participação no programa Amor e Sexo, em 2016, e sua atuação como jurado no reality show Superbonita, exibido pela GNT.

Com 500 mil inscritos no canal do YouTube e 313 mil seguidores no Instagram, classifica as plataformas digitais como excelentes construtoras de networking e possibilitadoras de modificações sociais pelo debate, citando a representatividade e a resistência em movimentos como o #EleNão. O universo drag em conjunto das mídias sociais é a base do estandarte na luta pela representatividade. “A grande porta-voz do meio LGBT é a drag queen”.

ESQUINAS Como você conheceu o universo drag?

Eu ia escondido para uma balada em Sorocaba com meu amigo, há quinze   anos. Achei meio estranho no começo, uma coisa bizarra. As drags eram bem diferentes do que elas são agora, era outro estilo. Demorou para eu me acostumar e achar legal. Só entendi pela convivência. Quando comecei a frequentar bastante a balada e ver shows. Aí comecei a entender e achar bonito.

ESQUINAS E como era isso em Sorocaba?

Naquela época tinha muitos shows e baladas que levavam drags de todos os lugares do Brasil. Mas com o tempo isso foi acabando, hoje em dia não tem mais espaço para drag na cidade. A situação piorou 100%. Por isso, eu criei o meu canal no YouTube, porque não tinha mais o que fazer como drag em Sorocaba.

ESQUINAS Como foi a primeira vez que você se montou?

No começo, eu não me maquiava. Durante pelo menos um ano era um amigo meu que me maquiava só de brincadeira para irmos para a balada. Eu comecei a me montar sozinho fazem uns 13 anos, mas sempre achei divertido e engraçado. Eu me maquiava para me divertir e não por uma militância. Esse empoderamento surgiu mesmo quando criei meu canal, antes disso era somente como arte e diversão.

ESQUINAS Quando a persona Lorelay foi criada?

Acho que é um processo contínuo, o personagem vai sendo construído com o tempo. Ao longo de todos esses anos que eu me monto, fui adquirindo características novas. Quando eu era mais novo tinha mais a ver com o universo que vivia na época, a Lorelay era mais louca, divertida, despojada, porque eu era um adolescente. Agora ela é mais adulta porque tem mais a ver comigo e daqui a alguns anos vai ser diferente. É um processo contínuo.

Lorelay participou do programa Amor & Sexo, da Rede Globo, apresentado por Fernanda Lima
Reprodução

ESQUINAS Como você definiu e construiu a estética da Lorelay?

Hoje em dia eu penso na estética de acordo com o que estou me propondo a fazer. Se é um tema mais leve, como ir numa balada ou num show, eu vou usar uma roupa mais divertida, mas como faço muitas palestras e trato de assuntos mais sérios eu sou mais sóbrio. Tem que ter a ver com o que eu estou fazendo no momento.

ESQUINAS Sobre o que você fala nessas palestras?

Eu tenho dois tipos de palestras. Dou muitas em escolas, universidades, empresas, e afins. Falo sobre aceitação, diversidade, preconceito e a realidade do meio LGBT, ou faço voltado ao meio publicitário mesmo, tratando de temas como pink money, diversidade na propaganda e marcas engajadas. Óbvio que sempre falo sobre meu canal e minha carreira porque eles fazem parte disso tudo.

ESQUINAS Quem é o Danilo antes e depois da Lorelay?

O que mudou a minha vida foi criar meu canal no YouTube porque antes disso ser drag era apenas um hobby, hoje em dia é a minha profissão. Antes era uma parcela pequena da minha vida, mas mesmo assim eu me monto há tantos anos que parece que sempre fez parte de mim. Não consigo me ver sem estar montada, comecei com uns 17/18 anos e hoje tenho 32. O que mudou mesmo foi o canal.

ESQUINAS Quando você criou o canal como as pessoas receberam isso na sua cidade?

Eu criei tudo isso justamente porque não tinha mais coisa para fazer: nem balada, nem festa. Eu já me montava há 10 anos, ou eu parava de me montar ou fazia algo diferente, então resolvi arriscar. Sempre fui muito fã da plataforma YouTube, acompanhava muitos youtubers, como o PC Siqueira, que gosto até hoje. A recepção foi muito boa, meu segundo vídeo fez bastante sucesso, até na região onde eu moro. Deu super certo logo de cara, foi uma história louca. Meu segundo vídeo já viralizou e tudo começou a mudar. Minha carreira como drag mudou muito, talvez seja um acontecimento, só sinto que dei um outro rumo para a minha carreira.

ESQUINAS Você é formado em publicidade, acha que seu conhecimento em comunicação te ajudou a construir a sua carreira?

Sem dúvidas! Eu não saberia o que fazer se eu não tivesse feito publicidade e trabalhado com isso durante tanto tempo. Desde o começo, quando comprei minha câmera, eu já planejava meu canal da mesma forma como se planeja uma estratégia de comunicação para um cliente. Eu não achei que fosse dar certo tão cedo, mas por sorte deu. No meu canal eu vendo ideias e isso é a essência da publicidade. Sempre penso muito nisso, na estética do meu canal, na comunicação visual, em tudo. Faz toda a diferença eu ter feito publicidade, inclusive, ainda me considero um publicitário.

ESQUINAS Quem vê seus vídeos? Para qual público seu canal é destinado?

Curioso, mas não é tão jovem, é algo mais voltado ao público adulto. Acho que é devido ao meu discurso, não sou tão divertido o tempo todo para atrair adolescentes. A maioria são mulheres, 60% do meu público é feminino, entre 20 e 30 anos.

ESQUINAS Você conversa muito com seu público?

Bastante! Acho que essa é a essência de ser um digital influencer, porque conversando com seu público você consegue entender melhor o que ele quer.  Converso principalmente pelo Twitter, Instagram e leio os comentários dos vídeos. Você tem que ver o que o público está querendo e precisando ouvir para entregar isso a ele. Acho que levar essas mensagens é o caminho para ser um bom influencer.

ESQUINAS O que você acha que causou esse “boom” da cultura drag no país? Você acha que isso beneficiou seu canal?

Estourou a cultura drag por conta do [reality show] RuPaul’s Drag Race. As drags sempre sofreram muito preconceito no meio LGBT, as pessoas nunca gostavam verdadeiramente de quem era drag. Após o seriado, houve uma abertura de portas para que se interessassem mais, empoderando essa nova geração. As próprias divas drag Pabllo e Gloria Groove, que estão bombando agora, começaram por causa da explosão do seriado aqui no brasil.

ESQUINAS Como youtuber, você deve receber muitos pedidos de publicidade, algo polêmico em temáticas LGBT. Como você define o que é Pink Money, em que essas marcas se aproveitam do discurso como forma de vender, e o que é uma parceria com a causa?

Nem todo mundo que fala comigo está necessariamente querendo uma parceria com a causa LGBT, nem toda marca está querendo levantar uma bandeira. Só o fato de vir conversar comigo mostra que ela é uma marca aberta, mas não necessariamente precisa estar ligada ao empoderamento. Eu acho que isso faz parte e está tudo bem! Eu costumo aceitar as divulgações das publicidades que simplesmente não vão contra aquilo que eu acredito, se é uma marca que não é problemática não vejo porquê não aceitar. A gente tem que cobrar muito das marcas, mas não podemos esperar que todas queiram levantar bandeiras. Às vezes parece que para uma marca ir falar com alguém LGBT ela tem que ser supermilitante, mas às vezes nem faz sentido dentro do conceito dela. Por exemplo, tem uma marca de livros, que eu já anunciei, que entrega livros na sua casa em troca de uma assinatura mensal, e realmente não faz sentido cobrar esse posicionamento deles. Só o fato deles pedirem que eu divulgue os produtos deles já é um apoio à comunidade. Mas isso é diferente com uma marca grande como a Riachuelo, por exemplo, em que o posicionamento é importante e necessário.

ESQUINAS Como funciona o backstage do Youtube? Fez amizades neste meio?

Tenho grandes amigos pessoais que conheci por meio do Youtube. Tudo viado, de hétero somente meninas. Meu canal é pequeno, 500 mil inscritos não é muita coisa no Youtube, mas eu sou muito conhecido. Eu tenho um trabalho muito respeitado, sou muito reconhecido entre as pessoas famosas. Acho que eu soube fazer um bom uso da plataforma, sinto que fui acolhido bem pelos youtubers. Claro que não faz sentido eu gravar com muita gente, mas eu vejo que as pessoas respeitam muito o que eu faço e sempre comentam.

ESQUINAS O ato contra o Bolsonaro em São Paulo, em setembro de 2018, contou com a presença da drag queen Tchaka. Como você vê a arte drag na política?

Acho que a grande porta-voz do meio LGBT é a drag. Em todas as pautas ela é uma figura que chama muita atenção, sempre foi uma característica artística de resistência, mesmo dentro do próprio meio LGBT a gente enfrenta preconceito. Temos que primeiramente enfrentar os padrões estéticos da sociedade, como o de homem não poder usar maquiagem, por exemplo. A drag por si só já é uma figura de enfrentamento. Naquele momento, o #EleNão foi uma causa importantíssima para militarmos, a drag é uma figura contemporânea e sempre acompanha o que está acontecendo na sociedade em que estão vivendo.

ESQUINAS Você acha que o YouTube é uma plataforma amigável para discutir política?

Não é amigável. Sempre há muito hater quando você fala de política e dos sistemas sensíveis de hoje, como o da família tradicional brasileira, mas ao menos existe um diálogo. Antigamente não tinha como você conversar com 10 milhões de pessoas e isso tem uma potência muito positiva. Eu gosto de fazer vídeos com reflexões. Escrever o roteiro dá muito trabalho, mas eu gosto muito de fazer isso. Não tem hater no mundo que tire o valor do que é o YouTube hoje.