Quem não é visto não é lembrado: o peso do networking digital na Geração Z - Revista Esquinas

Quem não é visto não é lembrado: o peso do networking digital na Geração Z

Por Gabriella Andrade e Vitor Teixeira : abril 9, 2026

Em 2024, o DataReportal divulgou uma pesquisa que mostra que 8 pessoas se inscrevem em uma rede social por segundo. Foto: LoboStudioHamburg/ Pixabay

Na Gen Z, estar fora das redes pode significar menos oportunidades no mercado cada vez mais guiado pelo networking digital

O mercado de trabalho se reinventa de tempos em tempos, e, com o avanço da era digital, era mais do que esperado que esse mercado integrasse essa ferramenta tão valiosa, que é a internet, em seu meio. Com a popularização de redes sociais como o LinkedIn, que visam conectar pessoas com objetivos de trabalho parecidos, tornou-se comum que o trabalho se tornasse quase que uma performance. Uma promoção, uma reflexão ou até mesmo aprendizados viram posts na internet, como se aquelas vivências só se validassem através da validação de quem está do outro lado da tela. É aí que entra outra questão: quem não participa desse networking digital se torna invisível?

Esse tem sido o medo da maioria dos novos profissionais que estão entrando no mercado de trabalho. Antes mesmo de se graduarem em suas respectivas áreas, já criam perfis em redes sociais e começam a compartilhar conteúdos a respeito do seu trabalho. O engajamento desse conteúdo, muitas das vezes, é o que gera oportunidades no mercado de trabalho, rompendo com o networking tradicional e construindo trajetórias profissionais independentes.

O TikTok e o Instagram como ferramentas de trabalho

Segundo o Censo da Educação Superior, os cursos de pedagogia, direito e administração são os que têm mais formandos no Brasil, com pedagogia liderando o ranking, com mais de 100 mil concluintes no ano de 2024, dado mais recente da pesquisa. À medida que o número de formandos aumenta, a competitividade cresce proporcionalmente, e o novo profissional precisa se reinventar se não quiser ficar de fora do mercado de trabalho. Foi diante desse cenário que as plataformas digitais se tornaram aliadas para quem buscava se destacar no mercado.

Nesse contexto, é muito comum que, em perfis profissionais, o criador de conteúdo compartilhe curiosidades ou aborde assuntos que tragam engajamento, uma vez que os números são o verdadeiro termômetro da relevância no meio digital. Criar conteúdo para a internet pode ser muito vantajoso, não só pela monetização, mas também porque coloca o profissional em um lugar de destaque, podendo ampliar suas oportunidades no mercado.

Luís Felipe, licenciado em Educação Física e graduando no mesmo curso, começou a trabalhar com produção de conteúdo para a internet em 2025 e conta as vantagens do seu trabalho:

“Tenho liberdade geográfica, então posso trabalhar e morar onde eu quiser. Tanto que realizei meu desejo de morar no litoral. Flexibilidade de horários, posso escolher o horário que vou trabalhar. Tenho independência financeira, não fico limitado a um salário fixo. Então, se eu me esforçar mais, terei melhor poder aquisitivo.”

Luís ainda ressalta os benefícios de produzir conteúdo para as redes sociais, em contraste com o trabalho presencial:

“Qualidade de vida, não passo estresse todos os dias com trânsito ou transporte público. Mais tempo para descansar. Autocontrole, sinto que agora sou mais organizado com a minha vida. Eu faço minhas metas tendo ciência da minha capacidade para saber se conseguirei batê-las e aproximadamente em quanto tempo.”

Mas será que todos almejam se tornar criadores de conteúdo?

Embora a internet tenha ampliado significativamente as possibilidades de inserção e crescimento profissional, nem todos se identificam com a constante exposição como estratégia de carreira. A percepção é de que o personal branding deixou de ser um diferencial e passou a operar quase como uma exigência do mercado. Fora do ambiente digital, o receio mais comum é o de perder visibilidade.

“Não foi muito uma motivação, foi mais uma necessidade. Porque eu precisava criar networking, precisava conhecer pessoas e precisava que elas conhecessem o meu trabalho. Vi nas redes sociais uma forma de alcançar essas pessoas”, relatou Eduarda Lopes, psicóloga de 24 anos que compartilha conteúdos sobre psicologia em seu perfil profissional. “Nunca havia trabalhado com a internet antes e nunca tive pretensão de trabalhar com a internet. Não considero que trabalho com a internet, mas uso a internet a favor do meu trabalho”.

Em 2024, o DataReportal divulgou uma pesquisa que mostra que 8 pessoas se inscrevem em uma rede social por segundo e que 63,8% da população mundial está nas redes sociais. Para quem está atrás de oportunidades no mercado, a internet tem sido uma aliada vantajosa.

“A internet ajudou na divulgação do meu trabalho. Através dela, consegui a captação de pacientes. É importante, na área de psicologia, que você se identifique com o profissional que está escolhendo, isso é um processo. A internet me ajudou conectando com pessoas que se identificavam com meu trabalho.”

Ao ser questionada se acreditava que era possível construir uma carreira fora do ambiente digital, Eduarda destaca um ponto importante:

“Tenho amigos da minha idade que se formaram e não migraram para a internet e estão passando por dificuldades em conseguir pacientes e trabalho. Acreditar, eu acredito. Até porque, antigamente, não existia internet e as pessoas arrumavam pacientes e trabalho no ‘boca a boca’, e isso existe até hoje. É importante que você tenha essa rede de networking mesmo sem a internet. Então, eu acredito que é possível, mas as redes sociais facilitam esse processo.”

Luís Felipe compartilha se desejaria voltar para o mercado de trabalho tradicional:

“Se eu tivesse a liberdade que tenho hoje, aceitaria. Caso contrário, não!”

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Algoritmo: o que é e como saber usá-lo pode alavancar a divulgação do seu trabalho nas mídias digitais

Dentro das interações entre os usuários das redes sociais, os algoritmos sempre são citados como os principais responsáveis pela divulgação de conteúdos e pela personalização do feed (conteúdo na página principal das redes sociais) de cada usuário. Mas, afinal, o que é algoritmo?

Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que abrange termos de áreas técnicas e científicas, algoritmo é um conjunto de regras e operações bem definidas e não ambíguas que, ao serem aplicadas a um conjunto de dados em um número finito de etapas, conduzem à solução de um problema. Basicamente, os algoritmos constituem um sistema que desenvolve, passo a passo, soluções de número limitado para um determinado problema ou situação.

Nas redes sociais, os algoritmos são programados para satisfazer o usuário; portanto, passam a coletar dados de cada usuário — como o que ele curte e quanto tempo passa consumindo um tipo de conteúdo — e, através desses dados, distribuem conteúdos de acordo com seus gostos e preferências, moldando assim seus feeds.

Eduarda Lopes conta como o algoritmo ajuda no engajamento dos seus vídeos:

“O TikTok é muito orgânico, então eu só me sento e gravo. Nas vezes em que meus vídeos viralizaram, eu não planejei cada fala ou cada ato que eu faria para gerar um certo engajamento, foi muito ao acaso. Eu tento nichar na psicologia, pensando nos meus três públicos: pacientes, outros profissionais que me acompanham e estudantes de psicologia.”

Saber o que é tendência entre os usuários e incorporar isso à divulgação do seu trabalho é essencial não só para se destacar na produção de conteúdo, como também para chamar a atenção de empresas.

Um estudo acadêmico realizado pela doutora em sociologia Carla Campos Avanzi, em parceria com a FURG (Universidade Federal do Rio Grande), demonstra como a Polícia Federal utiliza propositalmente métodos como apelo emocional, linguagem motivacional e presença ampla de hashtags para gerar maior engajamento em suas postagens no X (antigo Twitter), Facebook e Instagram, condicionando o algoritmo a considerar esse conteúdo relevante e aumentar seu alcance. Esse tipo de conhecimento sobre o funcionamento do algoritmo e das maneiras de tornar a sua divulgação mais relevante facilita a propagação do seu trabalho e, consequentemente, ajuda na ascensão da carreira profissional.

Além dos métodos citados pelo estudo, objetividade, interação ativa com os consumidores de conteúdo, autenticidade e definição de um público-alvo são outros fatores capazes de gerar engajamento, chamando a atenção do algoritmo e ampliando o alcance do perfil.

A busca por espaço na internet pode causar danos à saúde mental?

Como já foi dito anteriormente, a internet se tornou uma ferramenta praticamente indispensável para se destacar no mercado de trabalho. Mas será que o uso constante pode prejudicar a saúde mental dos profissionais?

De acordo com a psicóloga Vera Lucia Rodrigues da Silva, a necessidade constante de produção de conteúdo dentro da lógica das redes sociais é um dos grandes causadores de ansiedade e burnout entre os profissionais, já que esse sistema muitas vezes os obriga a não respeitar seus próprios limites. Para ela, quando a validação do trabalho vem através de números, a autoestima de um indivíduo pode se elevar em dias de alto engajamento, mas, em dias de baixa repercussão, pode ser profundamente afetada, gerando frustração e até dúvida sobre a própria competência.

Quando perguntada sobre como encarar a competitividade no mercado digital, Vera explicou: “Primeiro, é importante reconhecer que essa pressão existe e que ela não precisa definir o ritmo da vida. Cada profissional tem um tempo, um estilo e um público. Quando a pessoa tenta se moldar ao que todos estão fazendo, ela se desconecta de si mesma. O caminho mais saudável é fortalecer a própria identidade profissional e trabalhar com consistência, sem entrar em comparação constante.”

Por fim, a psicóloga afirma que a tendência comportamental dos jovens nos próximos anos será marcada por um contraste: de um lado, uma relação mais intensa com a exposição e a validação externa; do outro, uma maior valorização da saúde emocional e a tentativa de se relacionar de forma mais equilibrada com o meio digital. Segundo ela, o grande desafio será aprender a usar a tecnologia sem perder a conexão consigo mesmo.

Editado por Enzo Cipriano

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