Empresas redefinem critérios de contratação enquanto diplomas disputam espaço com habilidades práticas no mercado atual
“Eu vejo que o mercado mudou muito porque o que é requerido de qualificação é diferente do que era no passado, e antes as carreiras eram muito funcionais, muito perenes”, disse Flavia Ramos, diretora de Recursos Humanos da Bayer Brasil. O diploma de ensino superior era visto como algo indispensável no mercado de trabalho. Com ele, o sucesso profissional era garantido, pois a chance de contratação dependia da formação que o candidato possuía, gerando um sentimento de segurança para estudantes e formandos. Nos dias atuais, porém, essa percepção vem sendo alterada ao longo do tempo, reduzindo a valorização do ensino superior e ampliando a importância das habilidades práticas.
As opiniões sobre o que está em destaque, se é a posse de um diploma ou a de habilidades práticas e emocionais, divergem e englobam diversos fatores, como a exclusão de pessoas em vulnerabilidade social e a dificuldade de crescimento profissional sem uma formação acadêmica. No entanto, é indiscutível que o mercado mudou, o que gera nos profissionais uma insegurança ao adentrar nas universidades: a promessa de estabilidade não existe mais no mercado?
O prestígio do diploma
O diploma é um certificado emitido por instituições de ensino superior. Ele é reconhecido pelo Ministério da Educação e é permanente. É responsável pela entrada de muitos profissionais no mercado por ser uma representação simplificada da formação profissional.
Contudo, no dia 13 de novembro de 2025, o governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, declarou em um evento da Secretaria de Educação que “o diploma tem cada vez menos relevância”. Essa declaração gerou discussões entre profissionais da área. No Brasil, o diploma ainda é um diferencial para muitas pessoas ingressarem em um trabalho formal, por ser um documento de difícil acesso. Além disso, pode representar um incentivo salarial, fazendo com que a pessoa receba mais. “Eu acho que quem tem o diploma, hoje, está na frente de quem não tem, por mais que quem não tenha o diploma consiga, às vezes, fazer o trabalho como aquela pessoa formada consegue fazer também”, diz Giovanni Bacci, formado em Ciências Econômicas pela UFSCar.
Segundo a Agência Brasil, menos de 22% da população possui ensino superior completo. Esse indicativo desperta a curiosidade sobre como as demais pessoas se inserem no mercado e as formas como os recrutadores avaliam seus entrevistados, já que, com esse dado, o diploma se mostra como um agente que filtra as oportunidades disponíveis. Concursos públicos, por exemplo, requerem diploma de ensino superior ou, pelo menos, formação técnica — isso em um país como o Brasil, que possui uma educação desigual.
A mudança de mercado
Ao recordar as estruturas dos setores de emprego, percebe-se a exclusividade que o diploma carregava em diversas áreas. Em artigo publicado pela revista Sociologias, foram analisados dados do IBGE sobre a quantidade de matrículas realizadas no ano de 2004. De acordo com a revista, “quando se analisa o número de alunos matriculados naquele ano, verifica-se que, do total de 4.163.733 alunos, 79,67% (3.317.158 alunos) estavam matriculados em cursos de graduação vinculados às profissões regulamentadas.”
Já no mercado atual, observa-se uma redução desse monopólio. A valorização de habilidades cresceu, as chamadas “hard skills”, que consistem em capacidades técnicas adquiridas por meio de experiências profissionais, e as “soft skills”, competências comportamentais e socioemocionais relacionadas à personalidade e à inteligência emocional. Para Jessica Bottino, formada em Direito pela PUC-SP e diretora de RH da Orbia, empresa de tecnologia e agronegócio, as soft skills são indispensáveis atualmente:
“hoje em dia se olha muito para as soft skills, então você precisa ter inteligência emocional, adaptabilidade e outras competências que muitas vezes a faculdade sequer dá”.
Quando questionada sobre as mudanças no mercado de trabalho, Jessica pontuou: “antes vinha uma pessoa que tinha uma formação ótima tecnicamente e isso era suficiente. Hoje não é assim. A gente passa por questões como pandemia, então muda o mercado, muda o público que a gente quer atingir. As pessoas que se adaptam melhor, que têm uma inteligência emocional maior para lidar com tudo isso, acabam se sobressaindo, até para abraçar, eventualmente, novas funções”.
Quando questionada sobre o bacharelado atualmente, Jessica enfatizou que não incentiva os jovens a desistirem da formação acadêmica, mas apontou a necessidade de as instituições se modernizarem, proporcionando maior aproximação com o mercado e ensinando um olhar mais amplo para a área profissional.
“Será que é essencial para uma área de tecnologia, para um desenvolvedor, ter faculdade? Eu vejo que não. Então hoje a gente até olha para algumas posições, mas não é o mais importante. Não é como era há uns 20 anos”.
Para Jessica, que atua em uma empresa que precisa estar constantemente atualizada, o diploma não é tão determinante quanto a análise de um portfólio. Em um ambiente que exige desenvolvimento contínuo, habilidades técnicas podem pesar mais do que a documentação formal.
Flavia Ramos, atuante na área de RH há mais de 33 anos, explicou como enxerga as mudanças nas regras do mercado: “Eu vejo que o mercado mudou muito porque o que é requerido de qualificação é diferente do que era no passado, e antes as carreiras eram muito funcionais, muito perenes. Uma pessoa começava em uma carreira e terminava na mesma carreira. Hoje em dia, não. Temos uma orientação muito mais para o valor que você gera quando você senta em uma cadeira”.
Diferentemente de Jessica, Flavia demonstrou preferência por profissionais com diploma de ensino superior, destacando que, em uma multinacional como a Bayer, ele é praticamente indispensável. A profissional afirmou que as mudanças no ambiente profissional reforçam a necessidade de formação contínua, destacando o conceito de lifelong learning. Segundo ela, os avanços tecnológicos tornam conhecimentos obsoletos em menos de cinco anos, o que exige atualização constante. “A empregabilidade é muito difícil se ela for mantida sem uma contrapartida muito sólida, e uma contrapartida que não é só conceitual.”
Giovanni Bacci apresenta uma visão mais próxima à de Flavia. Ele interpreta que as mudanças derivam da ampliação do acesso à internet. Segundo ele, “temos acesso à informação muito mais facilmente, fazendo com que as pessoas fiquem mais preguiçosas do que eram há 20 anos”. O mesmo se aplica a profissionais sem diploma: “os profissionais que vêm para mim são muito ‘crus’, no sentido de saber só o mínimo. A faculdade te desafia a ir atrás de conhecimento”.
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Como o diploma se mantém nesse cenário?
Com a mudança das regras de mercado, a posição do diploma torna-se incerta. A divergência de opiniões é evidente, gerando variações entre empresas sobre o que é essencial na contratação. Em uma pesquisa de campo realizada para esta matéria, 23 profissionais de Recursos Humanos opinaram sobre o cenário atual. Quando questionados sobre uma contratação hipotética, aproximadamente 65% escolheriam um candidato sem diploma, mas com habilidades interpessoais e técnicas, enquanto 35% optariam por um candidato com diploma, porém sem experiência.

Além disso, 69,6% demonstraram visão semelhante sobre o mercado de trabalho recente.

A força da combinação entre formação superior e habilidades práticas é consenso entre as empresas. Porém, quando surge a necessidade de lidar com um profissional sem diploma, a situação muda. “Um currículo sem formação fica atrás de alguém com diploma, com certeza, porque se você não tem o diploma, às vezes eu nem analiso, talvez nem chegue até mim, já que o RH não vai levar a pessoa adiante por conta dos pré-requisitos. […] Então, além de agregar, o diploma também exclui”, afirma Giovanni Bacci.
O mesmo pensamento é compartilhado por Flavia Ramos: “Talvez outros ecossistemas, com outras características, sejam mais compatíveis com um profissional sem formação acadêmica, mas em uma empresa com a natureza da Bayer isso é mais difícil de acontecer.”
No entanto, há divergências. Na mesma pesquisa, alguns profissionais apresentaram visões diferentes. “Particularmente, atribuo grande peso às habilidades socioemocionais, pois o conhecimento técnico pode ser desenvolvido internamente”, relatou Sara Freire, da área de recrutamento e seleção. “Embora ainda exista um estigma associado a diplomas de instituições renomadas, nas vagas em geral o que mais se destaca é a experiência profissional aliada às soft skills.”
Assim, a manutenção do diploma se torna incerta, já que a variação de mentalidade é significativa. Algumas empresas priorizam habilidades, enquanto outras mantêm o diploma como critério central.
A obrigação de se formar
Diante de um cenário em que era necessário ter um diploma específico para atuar em determinada área, hoje, em diversos nichos, o mercado é menos rígido quanto à formação. Em 2023, pesquisas indicaram que cerca de cinco milhões de brasileiros atuavam fora de sua área de formação. Um exemplo é Poliane Barbi, que atua em gestão empresarial e financeira, apesar de ser graduada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing.
Poliane afirma que, além da atualização constante, o diferencial está na capacidade de alinhar teoria e prática.
“O diploma abre portas, mas a experiência e a visão de negócio sustentam o crescimento profissional.”
A posse de um diploma é crucial para algumas empresas, facultativa para outras e, em certos casos, pouco relevante. O número de profissionais sem diploma cresce em áreas tecnológicas e permanece alto em setores específicos. Em 2025, mais de 55 mil jornalistas registrados atuavam sem diploma, evidenciando tanto a flexibilização da exigência quanto a dificuldade de acesso ao ensino superior.
Considerando que concluir o ensino superior no Brasil ainda é um privilégio, muitos profissionais defendem iniciativas de inclusão. “Temos um país com muita desigualdade, e se você abre vagas apenas para quem tem formação acadêmica, você exclui muita gente”, afirmou Flavia Ramos. A entrevistada, que considera o diploma essencial, também defende o apoio das empresas na formação de profissionais, como forma de reduzir desigualdades.