A volta ao trabalho após a licença-maternidade ainda se apresenta como um dos momentos mais desafiadores da carreira de uma mulher. Longe de representar apenas uma retomada da carreira, essa fase é marcada por uma sobrecarga intensa, que envolve não apenas as demandas do ambiente corporativo, mas também os cuidados constantes com os filhos, especialmente nos primeiros anos de vida. Nesse contexto, a falta de uma rede de apoio sólida torna esse momento muito mais difícil, obrigando as mães a reorganizarem suas rotinas de forma exaustiva para dar conta de todas as responsabilidades.
Além das dificuldades práticas, como a amamentação e a adaptação a novos horários, também enfrentam a falta de compreensão por parte de colegas de trabalho e empregadores, que exigem produtividade e disponibilidade em tempo integral, muitas vezes incompatíveis com a realidade da maternidade, resultando em um desgaste não somente físico, mas também emocional. Como resultado, o que deveria ser uma reintegração gradual à rotina de trabalho se torna, para muitas mães, uma experiência traumática.
Diante dessa realidade, os relatos de mães que sofrem para conciliar trabalho e cuidados com os filhos crescem, especialmente nos casos em que essas mulheres não contam com a ajuda de uma rede de apoio. A sobrecarga excessiva e a falta de políticas efetivas de apoio impactam a qualidade de vida dessas mulheres e revelam um problema mais amplo, que ainda persiste no mercado de trabalho.
Desafios da nova rotina
Quando uma mulher descobre a gestação, as alterações em sua rotina começam logo no início, pois ela passa a fazer acompanhamento médico, preparar o enxoval, estabelecer novos hábitos, além de enfrentar mudanças físicas e emocionais. Isso se acentua após o nascimento da criança, uma vez que a responsabilidade é redobrada e todo apoio torna-se necessário nessa fase sensível do pós-parto.
Ao descobrir a gravidez de Júlia, que hoje tem 5 anos, a primeira preocupação de Renata Akemi foi a rede de apoio, pois já estava separada do pai da criança, é filha única e seus pais são falecidos. Sua filha nasceu na pandemia, então ficou sete meses em casa, mais um mês de férias, trabalhando em home office. Em relação ao trabalho, a preocupação era com a possibilidade de ascensão, entretanto, não conseguiria cumprir as horas necessárias sem deixar a filha sozinha, justamente pela falta de auxílio.
Entre todas as novas dificuldades, a falta de compreensão da empresa, ou até mesmo a ausência de uma figura feminina em posição de autoridade, estão entre as principais barreiras no retorno das mães. “Quando eu tive a Juju, eu trabalhava na área de comércio exterior e fiquei um ano em casa durante a pandemia. De repente, pediram para eu voltar ao presencial, só que era longe para mim e, na época, não importava se eu amamentava ou não, o gerente queria que eu chegasse no horário.”
Ser uma mãe solo, conciliando uma rotina corrida e cheia de responsabilidades, ainda gera dúvidas nas pessoas ao redor. Muitas questionam a capacidade da mulher de dar conta de tudo sozinha. Após perceber como a rotina estava corrida, Renata colocou a filha na escola e mudou para um emprego mais próximo; hoje, atua na área de cobrança.
Ela afirma que, como mãe, sempre se sente culpada, pois tenta dar o seu melhor para a filha e orientá-la em suas escolhas.
“Para a criança, a gente tenta fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para dar o melhor para ela. No profissional, eu mudei para ficar mais perto dela, mas não tinha outro jeito, eu precisava trabalhar, né?”
Além das dificuldades do dia a dia, atualmente com 42 anos, ela relata deixar suas vontades e o autocuidado em segundo plano. Afirma saber a importância de separar um tempo para si própria, porém as novas atividades que tenta incluir na rotina não rendem como no passado. “A gente acaba se deixando um pouco de lado. Eu não acho certo, mas, no dia a dia, pensamos mais no filho do que na gente mesma. Às vezes eu tento pintar o cabelo, fazer alguma atividade, mas é bem difícil.”
Casos como o de Renata correspondem aos 72,4%, estatística resultante de uma pesquisa (2023) realizada pela FGV, de mães que vivem em domicílios compostos apenas por elas e seus filhos. Em outras palavras, mães que não possuem auxílio nas responsabilidades cotidianas, o que dificulta a conciliação entre vida pessoal, família e carreira.
Apesar de não ter uma rede de apoio estruturada, conta com ajuda ocasional de amigos quando necessário. Renata relata um episódio em que ficou internada por três dias com dengue, deixando sua filha sob os cuidados de uma amiga, considerada uma de suas principais redes de apoio. Mesmo com todas as dificuldades, o que lhe dá forças para enfrentar esses desafios é a própria filha, sua fiel companheira.
Muitas mães enfrentam dificuldades ao retornar ao trabalho após a licença-maternidade. Além da necessidade de se adaptar a uma nova rotina e assumir diferentes responsabilidades, há também uma cobrança externa constante.
Para Letícia Barros, esse período foi, ao mesmo tempo, transformador e desafiador. Segundo ela, sentimentos como medo e culpa são frequentes nessa fase. “Eu tive que entender que não consigo dar 100% em tudo.”
As mudanças na rotina aparecem em diferentes aspectos da vida, como no âmbito profissional, pessoal, nos cuidados consigo mesma e até na forma como o mundo passa a ser enxergado. Mulheres que não contam com uma rede de apoio sólida são as mais afetadas por esse cenário, enfrentando sobrecarga física e emocional, solidão, isolamento e vulnerabilidades financeiras.
Segundo pesquisa realizada pela FGV, em 2023, mães solo apresentam um rendimento 39% inferior ao de homens casados com filhos e 20% menor do que o de mulheres casadas com filhos. Os números revelam que a ausência de ajuda na maternidade impacta diretamente a trajetória profissional dessas mulheres. Diante da responsabilidade integral pelos cuidados com os filhos, elas enfrentam maiores dificuldades para se manter em empregos formais ou buscar oportunidades de crescimento na carreira.
VEJA MAIS EM ESQUINAS
Mães solo: 91 mil crianças sem o nome do pai na certidão
Pai solo: aprendizados que geram laços para a vida toda
Perda dos pais na Primeira Infância: impactos na saúde mental
Saúde mental e a culpa materna
Um dos principais dilemas enfrentados pela mulher na volta ao trabalho, após o período de licença-maternidade, é conciliar as demandas da maternidade com a rotina profissional. Esse processo de adaptação pode gerar diferentes impactos, principalmente na saúde mental. Mesmo com organização prévia, rede de apoio estruturada e uma rotina equilibrada, o sentimento de culpa tende a ser comum entre as mães.
A culpa materna surge quando uma mulher acredita não estar sendo capaz de cumprir, de forma ideal, seu papel materno. Essa sensação de insuficiência pode aparecer devido a diversos fatores internos e externos, como a comparação com outras mães, especialmente nas redes sociais, e a pressão psicológica e emocional de familiares, podendo gerar sérios problemas psicológicos.
“Eram duas culpas: a de querer voltar ao trabalho e a de ter que deixá-lo com alguém”, relata Letícia, ao ter que deixar seu filho de três meses para voltar a trabalhar. Assim como a empresária, muitas mulheres passam por esse sentimento ao terem que escolher a maternidade de forma exclusiva para se sentirem suficientes como mães, ao mesmo tempo em que se sentem incompletas ao deixar a carreira profissional de lado.
Esse sentimento se intensifica quando há a necessidade da separação física entre mãe e bebê para que a mulher consiga voltar ao trabalho. Nesses casos, a rotina familiar se torna mais rígida e a presença de uma rede de apoio é essencial, mas nem sempre suficiente, o que pode agravar a exaustão física e emocional da mulher, que passa a lidar tanto com as tarefas do trabalho quanto com as responsabilidades da maternidade.
Para a psicóloga Lirian Brito, é essencial que a mulher se prepare emocionalmente para retornar ao mercado de trabalho, diante dos impactos que esse momento pode gerar.
“A mulher precisa conseguir reativar a pessoa trabalhadora e dar uma desativada na sua versão 100% mãe para que consiga se concentrar e ter um novo foco. Mas há pessoas que voltam, ficam um tempo e pedem demissão porque não conseguem abandonar esse papel integral de mãe.”
Os impactos dessa adaptação podem afetar a esfera profissional da mulher, que acaba se sentindo inferior por não conseguir se dedicar integralmente ao trabalho como antes. A autocobrança excessiva pode intensificar o estresse e contribuir para o desenvolvimento de quadros mais graves, como o burnout.
As legalidades envolvidas na licença-maternidade
A licença-maternidade no Brasil é garantida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e pela Constituição Federal, assegurando, em regra, 120 dias de afastamento remunerado às trabalhadoras formais. Em alguns casos, empresas aderem ao Programa Empresa Cidadã, que amplia esse período para 180 dias. No papel, trata-se de um direito fundamental voltado à proteção da mãe e do bebê, reconhecendo a importância do vínculo inicial e da recuperação física e emocional da mulher.
Porém, a legislação revela limitações significativas quando confrontada com a realidade social brasileira. Primeiramente, o acesso à licença-maternidade ainda é restrito às mulheres inseridas no trabalho formal, excluindo uma grande parcela das trabalhadoras informais, autônomas e em empregos precarizados. Assim, as garantias legais não são devidamente aplicadas com igualdade a todas as mulheres, independentemente de seus postos de trabalho.
Além disso, mesmo entre aquelas que possuem a garantia legal, não são raros os relatos de descumprimento indireto da lei, como pressões para retorno antecipado, medo de demissão após o período de estabilidade e ambientes de trabalho pouco acolhedores à maternidade. A estabilidade provisória, embora prevista em lei, nem sempre se traduz em segurança real. De acordo com a advogada trabalhista Larissa Santos, há um desequilíbrio claro na forma como a lei protege a maternidade ao longo do tempo.
“A legislação protege mais a gestante do que a mãe no período posterior ao parto”.
Embora exista estabilidade desde a confirmação da gravidez até cerca de cinco meses após o nascimento do bebê, esse intervalo não acompanha as demandas reais da maternidade, especialmente no que diz respeito à adaptação emocional, ao cuidado contínuo e à reinserção profissional.
O ponto crítico está na ausência de políticas complementares eficazes, como creches acessíveis, flexibilização da jornada ou incentivo à corresponsabilidade parental. A licença-paternidade, por exemplo, ainda é significativamente menor, o que reforça a ideia de que o cuidado com os filhos é uma responsabilidade que recai majoritariamente sobre a mãe, perpetuando desigualdades de gênero no mercado de trabalho.