Quando a imagem da guerra circula sem filtro, a violência deixa de chocar e vira consumo digital constante
As redes sociais, como o Instagram e o TikTok, têm, nos últimos anos, se tornado um verdadeiro campo de guerra imagético. Com a ideia de fazer o público se conscientizar sobre os imbróglios globais, a imprensa digital perde pelo excesso: o bombardeamento desse conteúdo desgastou a nossa percepção do sofrimento humano.
Com diferentes intenções, o fotógrafo Roger Fenton, ao registrar a Guerra da Crimeia — a primeira a receber cobertura jornalística —, captou os momentos mais tranquilos no front, buscando acalmar a opinião pública. Já o correspondente William Howard Russel relatava os acontecimentos por meio de seus diários. Nesse ponto, a fotografia assume um papel de protagonismo ao aproximar os leitores desses relatos. Hoje, somos capazes não só de estar próximos, mas de estar a par, em tempo real, de toda a violência dos conflitos mundiais com um único clique.
O QUE OS OLHOS NÃO VEEM…
“Eu comecei a frequentar a terapia em 2021. É difícil, porque você está vendo o que há de pior na humanidade. Esse trabalho te dá um sentido de onde está a raça humana…”
Para Carolina Martin Castillo, analista de garantia de qualidade de IA para o TikTok, a visualização da violência, da nudez e do bullying faz parte de sua rotina profissional.
O trabalho humano segue sendo parte essencial do aprendizado das máquinas no processo de filtrar esses conteúdos. O moderador fiscaliza como o conteúdo chegará ao telespectador, sem que sejamos privados de notícias ou expostos a horrores desnecessários.
Carolina afirma que as redes sociais se tornaram um novo meio de conseguir informações para as novas gerações, mas que nem todo conteúdo violento é noticioso. “Se é algo muito violento, que inclui sangue ou imagens que causam desconforto, vamos derrubar o vídeo, mas depende se o contexto é educacional, se é para alertar as pessoas. Vamos avaliar caso a caso.”
Em um cenário de guerra e intensos conflitos geopolíticos, o “machine learning” (ou aprendizado de máquina) faz um trabalho fundamental na filtragem de imagens extremamente sensíveis, garantindo que elas não sejam espalhadas pela internet.
Quando questionada se observa um aumento de publicações dessas imagens, a analista afirma:
“Acho que estão do mesmo modo que as notícias que vemos hoje. Antes, você podia ler sobre a guerra e não visualizar como a nossa geração pode. Você tem cada vez mais a visualização direta do que está acontecendo – principalmente no Irã ou em Gaza. […] Eu não acredito que estejamos sendo expostos a tudo o que está acontecendo no mundo, mas, ao mesmo tempo, essas coisas nos ajudam a estar mais informados em tempo real.”
… O CORAÇÃO NÃO SENTE
Em entrevista para o Jornal da USP, o pesquisador do Instituto de Psicologia da USP, Luciano Bregalanti Gomes, menciona a ‘dessensibilização à violência’, termo que define uma diminuição gradual da capacidade de sentir, criando-se uma espécie de déficit de empatia.
“Eu acredito que estamos cada vez mais dessensibilizados, cada vez mais perdemos nossa humanidade. Muitas vezes não sentimos nada, acho que nós desativamos nosso sistema emocional porque vemos [a violência] como normal”, afirma Carolina Castillo, que também nota o problema crescente nas redes: “Normalizamos ir para a guerra, pessoas na rua pedindo comida, coisas que sempre estiveram lá. Está cada vez mais difícil nos aprofundarmos nas diferentes realidades.”
Já para a professora doutora e curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP, Heloísa Espada, que selecionou as imagens da exposição “Conflitos: Fotografia e violência política no Brasil 1889-1964”, não estamos anestesiados a esses registros, mas sim distraídos.
De acordo com Espada, a recepção do público a essas fotografias vai muito além do conteúdo nelas representado; é mais sobre a velocidade dessas pautas. “Eu acho que hoje em dia a gente vê imagens do que acontece em Gaza, tem imagens muito poderosas. Volta e meia aparece na mídia algo que explica e que organiza um debate mundial”, afirma a curadora. “O problema é que a gente não dá conta da quantidade de informação e acaba logo trocando de assunto, não conseguimos lidar com essa montanha de informações.”
VEJA MAIS EM ESQUINAS
Cidade que não para: o custo psicológico de viver em São Paulo
Quando o íntimo vira público: os limites da vida pessoal nas redes sociais
Fórmula 1 pós-Suzuka: o que esperar da temporada em meio a críticas e incertezas
MAIS IMPORTANTE QUE A IMAGEM
Apesar de seu inegável poder, as imagens dependem de uma série de contextos para modificar o mundo. Heloísa Espada defende que nenhuma imagem muda o mundo, mas pode incitar uma série de debates públicos que podem vir a fazer a diferença.
Segundo um estudo feito pela revista PNAS, em 2016, as imagens têm maior impacto psicológico do que estatísticas. A foto de uma criança síria, Aylan Kurdi, deitada de bruços em uma praia turca, foi vista por mais de 20 milhões de pessoas nas redes sociais.
Entretanto, a empatia dos espectadores foi rápida: os resultados de pesquisas e as doações a entidades como a Cruz Vermelha, apesar de terem tido um grande aumento com a publicação da imagem, caem abruptamente poucas semanas após seu auge.
As imagens de tragédias, em momentos delicados da geopolítica mundial, têm uma imensa capacidade de sensibilizar o público, criando empatia e gerando debates e diferentes reações solidárias que colaboram com o salvamento de algumas vidas, vítimas da violência de guerra. Mas, tão rápida quanto a velocidade das notícias, é a da empatia digital. O bombardeamento de informações culmina em uma veloz mudança de pauta, criando um público distraído que transforma a tragédia em um espetáculo que, em um clique, é terminado e esquecido, até que outro se inicie, gerando um ciclo de disseminação de violência.