A POPULARIZAÇÃO DAS FERRAMENTAS GRATUITAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TEM REPRESENTADO UMA AMEAÇA REAL PARA PROFISSIONAIS QUE SOBREVIVEM DA PRÓPRIA ARTE
No início de 2025, as redes sociais foram tomadas pela polêmica das imagens geradas por inteligência artificial que utilizavam, sem permissão, o traço característico do Studio Ghibli, responsável por alguns dos maiores clássicos da animação mundial. A crítica de seu cofundador, Hayao Miyazaki, representou o pensamento de muitos artistas: era um “insulto à vida”.
Casos como esse são mais normais do que imaginamos e afetam diretamente pessoas que vivem da arte, como a ilustradora e influenciadora Isabela Andrade. Ela disse que já perdeu grande parte de seus trabalhos devido à substituição por inteligência artificial: “Acho que todo mundo pensa: Ah, eu vou fazer na IA porque é de graça, é rápido”, confessa.
Esse efeito ocorre não apenas no mundo da arte visual estática, mas também nas animações: “Com a IA é muito mais barato. Contratar artistas exige muito tempo, muito trabalho, então acaba sendo um valor que, por mais que seja justo, muitas pessoas não acham”, admite Matheus Funari, um dos criadores do canal de animações Flambo.
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Gustavo Landim, estudante de Animação na FAAP, acrescenta: “Você tem que divulgar sua arte dentro da internet, precisa provar o tempo inteiro que ela é real e sempre fica com essa insegurança”, indicando que a tendência de substituir o real pelo artificial pode causar também estresse e fadiga mental em quem se dedica a produzir arte.
Além de afetar diretamente o bolso dos criadores, essas ferramentas levantam um debate ético sobre seu funcionamento, já que, para serem treinadas, elas reúnem dados pré-existentes de imagens e movimentos. Ou seja: para uma IA gerar, ela deve copiar e analisar dados (como obras de arte) e, a partir dessa análise, criar algo “novo”.
Tadeus Mucelli, doutor em Ciências da Informação pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e especialista em cultura digital e tecnologias emergentes, explica que o avanço da IA não depende apenas de pesquisas por parte de universidades e empresas, mas também da colheita dos dados, que fornecemos, muitas vezes sem saber, a essas plataformas. Segundo ele, isso está sendo normalizado e aceito pela sociedade: “A tecnologia está difundida e cada vez estará mais difundida. É vista como uma otimização da vida, ainda que ela possa piorar a vida de muitas pessoas. Isso já está acontecendo”, conclui Tadeus.
Como nos diferenciamos da máquina?
“A criatividade tem um caráter disruptivo, porque ela implica em você enxergar algo comum sob um novo olhar, uma ótica diferente. Ela é um atributo de todos nós”, diz a poetisa e psicóloga Denise Bragotto.
A principal característica que nos separa das máquinas é a nossa capacidade de criação e emoção, que vem à partir das nossas experiências de vida. O “simples” ato de criar algo é revolucionário e, de acordo com Bragotto, precisamos “ficar diante da IA e ter consciência de quem é o dono de quem”. Afinal, a inteligência artificial é uma criação da inteligência natural, humana.
Além disso, conforme somos expostos ao estilo característico das produções feitas por máquinas, aos poucos estamos aprendendo a reconhecer os seus padrões estéticos de maneira que se torna mais fácil distinguir o que foi feito por uma máquina daquilo que brotou da criatividade humana: “Está se criando uma identidade de como é a arte de IA”, afirma Matheus Funari, da Flambo.
Os artistas, em geral, acreditam que a arte simboliza o humano e que a inteligência artificial, mesmo que se apresente como ameaça constante.. Para a ilustradora Isabela Andrade, “a IA consegue fazer imagens, mas eu não diria que é arte. Eu acho que a arte tem toda a bagagem do artista. Todo mundo é o único, todo mundo tem algum aspecto que vai trazer uma coisa diferente para a arte.”
Essas ferramentas, apesar de terem um caráter “criacional”, não se equiparam ao pensamento e raciocínio humano, ao menos não ainda.
“Nada substitui a alma humana e a sua obra”, conclui Denise Bragotto.
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Em seus perfis nas redes sociais, muitos criadores têm se reafirmado como autores de suas próprias obras e isso vem aproximando os fãs desse tipo de conteúdo. Isabela Andrade conta que, após começar a mostrar seu rosto ao lado das animações em suas publicações no Instagram, ela proporcionou uma maior aproximação com o seu público, como uma espécie de garantia de autenticidade. “Eu acho que cada vez mais as pessoas vão se conectar mais com artista do que com a própria arte”, completa a ilustradora.
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A determinação de supera o artificial se mantém ativa na comunidade atual de criadores, que, muitas vezes, aproveitam o seu alcance para conscientizar seus seguidores por meio de vídeos que desmistificam artes feitas por inteligências artificiais. Através dessa luta por reconhecimento, os artistas buscam reafirmar a sua importância no mercado, trazendo mais credibilidade à sua profissão e, consequentemente, melhores oportunidades e condições de trabalho.
“O que me motiva a me superar como artista é ser melhor que a inteligência artificial e que as pessoas vejam o meu trabalho dessa forma”, declara Gustavo Landim.