“Eu tenho mãe”: Como argumentos afetivos viram escudo para discursos misóginos

“Eu tenho mãe”: Como argumentos afetivos viram escudo para discursos misóginos

Por Luiza Kellmann, Sofia Sá : junho 15, 2026

Uma menina sentada de costas, escondendo o corpo e o rosto. Com um holofote na direção dela e várias sombras de mãos tentando tocá-la. Fonte: Pexels

A NATURALIZAÇÃO CULTURAL DA DESIGUALDADE DE GÊNERO UTILIZA VÍNCULOS FAMILIARES PARA CAMUFLAR VIOLÊNCIAS QUE ESCALAM DE PEQUENAS AGRESSÕES COTIDIANAS AO FEMINICÍDIO.

“Eu não sou machista, tenho mãe, filha, irmã…” A frase, repetida com frequência em reuniões familiares, mesas de bar e até em pronunciamentos oficiais, é identificada por especialistas como um dos principais atestados de que a misoginia ainda não é compreendida como um valor universal de desumanização, mas sim mediada pelo grau de parentesco com o homem.

Para a antropóloga Shisleni de Oliveira Macedo, mestra em Antropologia Social pela USP e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença, quando o valor de uma mulher precisa ser justificado por sua relação afetiva com uma figura masculina, sua humanidade básica é negada na origem.

Shisleni ressalta que esse tipo de discurso serve para santificar certas figuras femininas em um lugar de proteção, enquanto valida o desprezo por todas as outras que não se encaixam no ideal de boa esposa ou filha, perpetuando os dois grupos que a sociedade divide as mulheres: as “santas” (como mães e filhas) e as “outras” (vistas como vulgares ou interesseiras).

A pedagogia da crueldade e o analfabetismo de gênero

O nascimento dessa aversão é um processo culturalmente forjado. André J. Gomes, jornalista e autor do livro Analfamachos, define os homens de sua geração como analfabetos nas questões de gênero. Em sua análise, André recorre ao conceito de “pedagogia da crueldade”, desenvolvido pela antropóloga Rita Segato, para explicar como os meninos são socializados sob uma lógica de posse e domínio.

Essa formação ensina que o homem não pode demonstrar fragilidade, de acordo com o mantra de que “homem não chora”, transformando o instinto competitivo em um comportamento prejudicial que não admite a vontade alheia, como o fim de uma relação, por exemplo. O resultado, conforme detalha o autor, é a criação de indivíduos que, por acreditarem ser donos das mulheres, tornam-se cegos para o machismo estrutural que praticam no cotidiano.

Essa estrutura de dominação manifesta-se de forma contínua através do que André classifica como violência simbólica, termo do sociólogo Pierre Bourdieu. Trata-se de uma soberania tão internalizada que se torna invisível em gestos, piadas e silenciamentos profissionais. Para o autor, não há diferença de natureza entre o homem que tenta controlar a roupa da namorada e o marido possessivo que comete um crime letal, pois o que muda é apenas o estágio de aplicação do mesmo desejo de controle absoluto.

A organização do ódio nas plataformas digitais

A socióloga e cientista política Bruna Camilo esclarece que a internet não é onde nasce o ódio contra as mulheres, mas sim um poderoso agente de sua reconfiguração. No espaço digital, a misoginia ganha uma velocidade massiva e é protegida por um anonimato relativo, o que facilita a propagação de ataques que antes ficavam restritos a círculos privados.

Para explicar esse fenômeno, Bruna utiliza o termo “machosfera”. Trata-se de um ecossistema digital composto por grupos que se sentem “injustiçados” pelos avanços conquistados pelas mulheres nas últimas décadas.

Esses homens percebem a perda de privilégios e de posições historicamente masculinas como uma ameaça pessoal. Mais do que apenas expressar opiniões, esses grupos utilizam as redes sociais para criar campanhas de difamação e assédio, transformando o ressentimento individual em um posicionamento político hostil ao feminismo.

Dados do Observatório da Indústria da Desinformação revelam que existem pelo menos 137 canais no YouTube no Brasil dedicados exclusivamente a conteúdos da “machosfera”, somando um impacto de 3,9 bilhões de visualizações. Esse alcance é potencializado por influenciadores e “gurus masculinistas” que oferecem explicações simplistas para problemas complexos, como frustrações afetivas ou econômicas, culpabilizando o movimento feminista.

Tais espaços funcionam como bolhas digitais que amplificam notícias falsas e dados distorcidos, como o caso de desinformação citado na GloboNews em que o protesto pelo fim do feminicídio foi distorcido como um ataque à natureza masculina para validar discursos de ódio.

VEJA MAIS EM ESQUINAS

Do português ao estrangeiro: os caminhos da tradução literária

Leitura Sensível: como a revisão transforma o mercado literário

O artista no Século da IA: como a artificialidade impacta as artes visuais

Reação conservadora e os desafios no Poder Legislativo

O fenômeno da machosfera não se limita ao campo da internet; ele se estende ao Poder Legislativo. A antropóloga Shisleni aponta que vivemos uma “reação reacionária” direta ao progresso feminino. Ela argumenta que, como as mulheres nunca avançaram tanto em direitos antes, com acesso à educação e ocupação de espaços de elite, a pressão contrária aumentou de forma proporcional, como uma tentativa de manter privilégios históricos.

Esse movimento fica evidente nos dados da plataforma “Elas no Congresso”, da Revista AzMina, que monitora a atuação parlamentar. O levantamento aponta que o Legislativo não é apenas um espaço de omissão, mas de resistência ativa: um em cada quatro projetos de lei protocolados sobre os direitos das mulheres é, na verdade, desfavorável a elas.

A investida contra a autonomia feminina é ainda mais agressiva no campo dos direitos sexuais e reprodutivos; em 2019, por exemplo, todos os projetos de lei sobre o aborto visavam restringir direitos ou aumentar punições. Os números revelam um Congresso onde muitos parlamentares atuam deliberadamente para frear avanços e retirar conquistas históricas das mulheres.

Essa postura explica o travamento de iniciativas como o PL 896/2023, que busca criminalizar a misoginia equiparando-a ao racismo. A rejeição a esse modelo de projeto ocorre porque muitos parlamentares utilizam o antifeminismo em sua prática cotidiana e enxergam na lei uma “armadilha para si mesmos”, temendo ser punidos por sua própria visão de mundo.

Liberdade de expressão ou violência cotidiana?

Para justificar a barreira a esses projetos, utiliza-se de forma incorreta a “liberdade de expressão”. No entanto, ela não é um princípio absoluto e não pode ser mobilizada para proteger discursos que produzem exclusão, intimidação e violência.

É fundamental compreender que o ódio estruturado e a desumanização simbólica precedem o crime físico. Tratar as mulheres como “inimigas” ou “objetos” são sinais claros de que o preconceito está migrando para o incentivo à violência física. Como destaca André, não há uma diferença de natureza, mas apenas de estágio, entre o desejo de controle absoluto sobre a vida de uma mulher e o ato de feminicídio.

Portanto, a resistência à criminalização da misoginia sob a desculpa da liberdade de expressão ignora que o ódio orquestrado é o alicerce que sustenta a violência letal.

A busca por novas formas de masculinidade

André J. Gomes defende que a mudança não virá apenas de leis, mas de um compromisso diário dos homens em exercitar o silêncio e a escuta ativa perante as mulheres. Conforme conclui o jornalista, assumir integralmente as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos não é um favor ou um ato de heroísmo, mas uma obrigação básica de quem divide um espaço comum.

A desconstrução do patriarcado exige que os homens deixem de se esconder atrás de seus escudos afetivos para enfrentar o machismo enraizado em suas próprias trajetórias pessoais.

Editado por Mariana Lima

Encontrou algum erro? Avise-nos.